Imagens em repercussão poética

Crítica da peça Cartas de amor Electropoprockoperamusical, de Flavio Graff

11 de abril de 2012 Críticas
Foto: Carol de Góes.

Em cartaz no espaço da Caixa Cultural, a peça Cartas de amor – Electropoprockoperamusical, que teve sua estreia em 2010, dirigida por Flávio Graff e co-dirigida por Emílio de Mello é um potente roteiro para o imaginário acerca do amor. A palavra roteiro traz o movimento de percurso com ideias em desenvolvimento. O que surge é a desconstrução do ideal romantizado, deslocamento do lugar da fixação amorosa. Estão em jogo descobertas do amor como um pertencimento variacional: é daquele que ama, ou melhor, é potência que se inventa no amor que existe e que, em alguns momentos, encontra repercussão. Questão teórica que aparece: a repercussão das imagens poéticas. Termo que inclui significados de nova direção, de afastamento, de diferenças direcionais dos fluxos, de reprodução e de transmissão que não se afirmam pela causalidade. Cartas de amor é uma obra que coloca as dobras do amor em sua estrutura. Uma das inspirações para o roteiro foram textos de cartões postais adquiridos pelo ato do colecionador, o que em alguma medida gerou uma miríade de escritos poéticos como letras de músicas. Plataforma em constelação.

A visualidade informa quatorze narrativas, em quatro capítulos, inspiradas na “estética dos videoclipes, do cinema e das artes visuais” que causam um efeito de repercussão. O espaço da apresentação é circular e facetado por dispositivos de madeira com recortes em que são exibidas as projeções, e ainda dão a ver, por meio de seu material transparente, cenas executadas na parte de trás. O lugar dos espectadores é no centro do espaço compartilhado pelos intérpretes, o que indica a possibilidade da não-separação da percepção mais tradicional entre ação e fruição. Indicação da arte como indeterminações de posturas.

Uma visualidade (teatro) que forma seu corpo com outras obras visuais (vídeo, cinema, artes plásticas) e ainda com a poesia e a música, aborda outras imagens que estabelecem um diálogo entre elas, sem que, cada uma delas seja necessariamente explorada em sua totalidade, abrindo possibilidades de vazamentos dos significados de umas para as outras e alargando seu potencial de representação. Nesta coexistência de elementos – imagens, poesia, música, sonoridades e planos – as identidades não se fixam e o tema do amor é abordado como uma região sempre fronteiriça. A cena pautada pelo acúmulo e não pela subtração proporciona uma multiplicidade de entendimentos ou decifrações. Os espectadores colocados em um espaço de contrastes têm a condição de escolher uma perspectiva que, ao mesmo tempo, pode estar sendo deslocada. O espectador é como um editor das imagens em exposição, sabendo que outra montagem pode ser realizada.

Se no início da encenação é oferecido um longo momento de apreensão da sonoridade do insinuante refrão da primeira música, em seguida é possível que cada fruidor siga o libreto com certa dedicação intelectiva e tensão verbo-visual. Convite a formar uma nova coleção, semelhante àquela que o artista teria realizado e que implica conceitos e sensações em seu corpo. Os intérpretes, Dedina Bernadelli, Diogo Salles, Felipe Storino e Flávio Graff oferecem um prazeroso estado de presença e se dividem na interpretação das canções que instauram diferentes climas afetivos de fragmentos amorosos. Derdina Bernadelli transita por estados mais propriamente dramáticos e o que seria seu contraponto, o impessoal, o distraído, talvez o lugar mais propício para o ato criativo em que a crença no sujeito está fragilizada, mas que também não abandona completamente suas referências de memória sem se fixar nelas, assim como troca de sapatos e de roupa, mas deixando sempre a marca de alguma coisa que a afeta.

Foto: Guga Melgar.

Os figurinos criados por Ronald Teixeira são uma composição entre a transparência, o bordado e a renda. As peças usadas por Derdina Bernadelli causam estranheza pelo excesso, pela sobreposição, pela diferença de materiais. Em um primeiro momento os tecidos rendados podem ser percebidos como elemento romântico preso à ideia de amor único e eterno, mas se desdobram tão infinitamente que dão a ver seu potencial de deixar passar o ar pela sua trama, trama rendada de passagens, de transformação de estados. Os tecidos e formas que remetem ao oriente colaboram para essa mesma sensação de dobras que apontam para um local desconhecido e um tanto misterioso. Um toque de humor também pode ser percebido pela leve conotação mística. Os bordados na camisa verde usada por Diogo Sales são como impressões das pequenas consequências que o amor nos causa e tomam a expressão de um texto, assim como a gola rendada de uma das camisas usadas por Flávio Graff. Os sapatos da intérprete feminina também se multiplicam, marca dos acúmulos que as experiências variacionais amorosas acabam nos deixando, tão patentes no gênero feminino: sapatos, acúmulos e variações.

As narrativas são materializadas em instalações e cada uma delas está permeada por imagens técnicas como vídeo, cinema ou puras imagens virtuais. As imagens em momento algum tomam o sentido de uma metáfora, que seria sua a explicação sem dialética. Elas propõem mais uma espécie de vidência, um olhar para além do perceptível naquilo que seria o visual do real. Sua expressão toma a forma de ilhas de afetos que repercutem justamente pelo jogo contínuo de pertencimento e afastamento de nossas próprias referências do vivido.

Não tenho o conhecimento a respeito dos processos de criação do trabalho, então não é possível definir se existem hierarquias no contágio entre as formas artísticas implicadas no espetáculo. Mas é possível perceber que a poesia das letras de Flávio Graff é um originário potente para repercussões da imaginação poética que vaza para as imagens. A direção musical e música original de Felipe Storino é um apurado modo de repercussão dessa poética.

Foto: Guga Melgar.

Dinah Cesare é Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (EBA- UFRJ) dentro da Área de Teoria e Experimentações em Arte na linha de pesquisa Poéticas Interdisciplinares, é mestra em Artes Cênicas pela UNIRIO.

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