Odiseo.com

Crítica da peça Odiseo.com de Marco Antonio de La Parra, direção de André Carreira

22 de dezembro de 2014 Críticas

Vol. VII, nº 63, dezembro de 2014

Resumo: O espetáculo multimídia Odiseu.com constitui-se em nova investida sobre o semovente território das novas ficções. Três cidades da América Latina sediam a realização, interconectadas via web, produzindo um novo périplo para Ulisses e sua cambiante libido que não sabe aonde vai chegar.

Palavras-chave: multimídia, web, nova ficção, Marco Antonio de la Parra.

Resumen: El espectáculo multimedia Odiseo.com constituye una nueva embestida sobre el semoviente territorio de las nuevas ficciones. Tres ciudades de América Latina sirven de base para su realización, a través de la web, proporcionando una nueva gira para Ulises y su cambiante libido que no sabe a dónde va a llegar.

Palavras clave: multimedia, web, nueva ficción, Marco Antonio de la Parra

Odiseo.com

Em Florianópolis. Milena Moraes. Foto: Otten Severonoe.

Três smartphones, plugados permanentemente no whatsapp, no twitter e no skype, essa é a rede em que se emaranha o novo Odisseu criado por Marco Antonio de la Parra. Santiago do Chile, Buenos Aires e Florianópolis são as três cidades – interconectadas via web – onde se desenrola uma ficção que se recusa a aceitar esse nome. Poderiam ser outros os lugares, poderiam ser outras as criaturas, poderiam ser outros os espectadores, mas nada aqui é garantia de ser algo mais que um pretexto para arregimentar cansados interessados em histórias&enredos&trânsitos com vagas referências ao teatro.

Entre nós, Marco Antonio de La Parra é conhecido através da montagem de A secreta obscenidade de cada dia, por Antonio Abujamra (1988). Mas esse psiquiatra chileno nascido em 1952 possui extensa obra dramatúrgica e literária, aclamado e premiado em diversos países, dedicando-se a explorar temas associados ao período da ditadura, da memória e história do país e, sobretudo, dos conflitos existenciais de sua classe média, como em Infieles (1988), El continente negro (1994), Monogamia (2000) e Suchi (2003). Odiseo.com nasceu de uma colaboração entre ele e o encenador André Carreira, cujas primeiras incursões cênicas foram realizadas no metrô de Buenos Aires nos anos de 1980, sem que o público soubesse que se tratava de teatro. Há, portanto, na trajetória de ambos, inúmeras congruências e interesses, tais como a referência ao real, o imaginário das classes médias, o poder das imagens e, nesse caso especificamente, as novas mídias. Espetáculo nascido através da rede mundial, Odiseu.com assinala uma dessas felizes realizações que interligam artistas diversos em países diversos operando em regime de colaboração.

Da Odisseia, restou uma vaga baforada: o incansável viajante pulando de continente em continente. Em seu rastro, duas mulheres – a esposa no Chile e a amante no Brasil – equitativamente divididas com uma colega de trabalho que, vez por outra, o acompanha em seu périplo mundial. Ele mesmo, nunca está em lugar algum, embora onipresente em todos através da nuvem, presença/ausência viabilizada pelo voip.

Recebi a mensagem via Facebook para estar a tantas horas no endereço tal e não me atrasar, pois os equipamentos de segurança do edifício seriam automaticamente bloqueados em seguida. Lá fui eu. Junto a outras quinze pessoas, formamos o público da sessão, no exíguo espaço de um apartamento de terceiro andar em Florianópolis. Uma mulher bonita liga o skype e, através da enorme tela da TV, vemos um homem nu acordar em Buenos Aires. Tentam certo jogo de sedução erótica, mas ele está atrasado e, após vestir-se, começa a fazer as malas para seguir viagem. Dali para frente, seis ou sete novas ligações serão realizadas entre as criaturas. Ele parece ser o novo Odisseu. Ela parece resumir Circe e Polifeno. Parecem.

No ciberespaço nunca se pode ter certeza de nada. É esse limite inconsistente a zona wi-fi onde nos metemos, por uma hora, junto àquelas criaturas, intermediadas pelas imagens e vozes, que remetem a algo, mas tão imponderável que duvidamos que efetivamente esteja ocorrendo. A ficção tem algum limite? Estou mesmo ali ou apenas fui teletransportado pela matrix, em mais um jogo de RPG que insiste em me fazer atirar em alguma das figuras que surgem à minha frente?

Me inquieto na cadeira, a mulher foi tomar banho e a sala fica vazia por um momento. Em 1956 o Living Theatre também havia convidado poucos espectadores para realizar uma das mais significativas encenações do século XX, The Connection, no exíguo apartamento do casal Julian Beck e Judith Malina, onde um filme sobre drogas supostamente era rodado. Os espectadores ficavam nauseados, a menos de vinte centímetros de um rapaz que, efetivamente, injetava heroína na veia. Aqui, Milena Moraes refaz esse mesmo jogo hiper-real, cujo desafio maior é ignorar nossa presença a seu lado. Mesmo quando se masturba diante da tela e é correspondida, em Buenos Aires, por Juan Lepore, num desempenho erótico que todos fazemos mas, em geral, no âmbito restrito da privacidade. As mulheres presentes se incomodam, mexem-se nas cadeiras. Os homens são mais impassíveis, talvez mais habituados aos sites de sexo explícito, mas nem assim indiferentes aos gestos frictícios dos dois performers.

Em Buenos Aires. Juan Lepore. Foto: Soykan Ozyurt.

Situação e situacionismo

Odiseo.com carrega numa das mãos a surpresa como fator de instigação, ou seja, a colocação em cena de uma situação à maneira pensada pelos situacionistas, uma reaparição de vida energizando o fluxo congelado de imagens do cotidiano. Na outra mão, uma proposta relacional, derivada daquela vontade de reconfigurar a convivência no âmbito das metrópoles do planeta. Micro e macro, próximo e distante, real e digital agitam jogos e fricções diversas, oferecendo aos espectadores um mergulho nas sensações.

Há drama, mas esgarçado, esfiapado, estiolado pela excessiva presença de telemáquinas. Tudo é autenticamente real, mas para projetar no imaginário mais que si mesmo, para saturá-lo em outra dimensão, talvez como alegoria, talvez como oximoro.

As criaturas surgem fechadas sobre si, hipostasiadas numa ética personalíssima e autorreferente, cujos limites não ultrapassam seu pequeno e breve prazer, sua cota de felicidade esgotada e apequenada pela ausência de qualquer ambição. Estão conectadas à nuvem, presenças cujas ausências se anunciam pelo toque de chamada para mais uma conversa que, mesmo diante de todas as expectativas, não leva a nada. A cada contato sobrevém um vazio, a cada interlocução, o prazer parece deslizar entre os dedos, perder-se em sua imaterialidade. Procurando um psicanalista para remediar seu progressivo desconsolo, Elisa ultrapassa a barreira e a ele se entrega pondo fim à análise de si; Ulisses, em permanente trânsito, não tem tempo sequer de amargurar-se com a traição confessada pela esposa, grávida de uma recorrente crise conjugal que a conduziu aos braços de outro. O circuito parece não ter fim – novas chamadas, novas criaturas, novos elos da rede se articulando ao infinito.

No Brasil, o público acompanha a última conversa entre os amantes: Elisa declara que não é uma Penélope para enfrentar uma interminável espera pelo outro, seguida de seus últimos gestos de saída para ir almoçar com a mãe. Ela não vê, assim, o que ocorre em Buenos Aires, onde o público local foi acomodado num ambiente de hotel executivo construído para abrigar Ulises, bem como a residência do casal em Santiago, de onde a performer Amalia Kassai faz uma única intervenção via skype. Supostamente, também os demais devem sair para as nuvens.

Odiseo.com constrói uma política de privacidade muito peculiar: todos podem ver tudo, mas ninguém pode fazer nada. “A simulação por computador permite que uma pessoa explore modelos mais complexos e em maior número do que se estivesse reduzida aos recursos de sua imagística mental e de sua memória de curto prazo, mesmo se reforçadas por este auxiliar por demais estático que é o papel. A simulação, portanto, não remete a qualquer pretensa irrealidade do saber ou da relação com o mundo, mas antes a um aumento dos poderes da imaginação e da intuição. Da mesma forma, o tempo real talvez anuncie o fim da história, mas não o fim dos tempos, nem a anulação do devir. Em vez de uma catástrofe cultural, poderíamos ler nele um retorno ao kairós dos sofistas”, adverte Pierre Lévy em suas conjecturas sobre o ciberespaço.

Uma tensão, portanto, entre uma experiência presencial e outra virtual, constitui o cerne de nosso espetáculo, meticulosamente pensado enquanto produção de sensações para suas plateias. O hiper-real contraposto ao hiper digital produz refrações, desloca sentidos, faz girar o imaginário, obtendo sua cota de não substância, anti aristotelicamente falando. Por isso, é sofista. É nessa acepção que Odiseu.com conjura, diante de todas suas ambiguidades, o sabido e o por saber, o dito pelo não dito, o feito pelo a realizar, trunfo maior de uma encenação que apostou no improvável.

Dela saímos menos certos do que entramos.

Referências bibliográfica:

BOURRIAUD, Nicolas. Arte relacional. São Paulo. Martins Fontes: 2013.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. São Paulo. Editora 34, 2010, p. 127.

Edelcio Mostaço, pesquisador do CNPq, é doutor, professor da graduação e da pós-graduação da Universidade do Estado de Santa Catarina-UDESC.

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