Inscrição no espaço barrado

Crítica da performance Site Specific for Love

10 de setembro de 2008 Críticas

O termo site specific está associado à criação de obras que se configuram na relação com um espaço ou um ambiente determinado. A construção formal desta noção pode ser pensada como algo que materializa um movimento cambiante entre as possibilidades de sentido que o espaço/ambiente tanto sinaliza, quanto esconde. Outra possibilidade para nos acercarmos da noção de site specific diz respeito a uma certa inspiração ou impulso que parte do contexto e estimula a criação do artista. Na performance Site Specific for Love, acredito que as possíveis abstrações que a palavra amor suscita foram confeccionadas justamente pela fricção entre a intranqüilidade da práxis amorosa e o elemento que barra sua realização plena. 

Uma das perguntas possíveis do artista pode estar em como encontrar a espacialização da intranqüilidade do estado amoroso no ambiente da galeria, normalmente pudico, ascético, estabelecido, com suas paredes brancas, com seu chão de tábua corrida e suas almofadas cuidadosamente vermelhas. Barreiras dadas. Cuida-se então de uma certa simetria entre duas mesas dispostas nas extremidades da sala, de modo que ainda deixem uma boa margem para que as pessoas possam se colocar atrás delas. O espectador pode até tentar se colocar na mais tradicional postura de espera pelo início da função, porém, os performers estão no espaço e, mesmo ocupados com certos preparativos, estão ali, cumprimentam as pessoas, se dão a ver em sua cotidianeidade. O ambiente parece reconhecível como um lugar onde se dará uma performance, mas nosso (meu) vício de espectador que se coloca à parte do acontecimento que se dará, que espera por uma narrativização no espaço, é surpreendido em seus cânones e o início já estava lá acontecendo. Espaço, público e performers estão imersos no movimento que não simboliza, mas nos remete a um dos sentidos do amor, que se dá na separação ausente. Mas será que a pura percepção desta ausência de lugares determinados não nos levaria novamente a lembrar, e, portanto, voltar aos lugares determinados de público e de performance? Intranqüilidade. 

As paredes são aquecidas por projeções que criam um sem fundo. Quase poderíamos tentar transpassá-las. Mas as imagens duplicam os performers em “casas vazias” que acumulam coisas que parecem ter sido deixadas de lado, esquecidas. Nas imagens os performers viram contexto, sua especificidade é o vazio, não um nada absoluto, mas algo que não transparece. As imagens dão a ver a temporalidade na sua dimensão de formadora de ruínas próprias do ato de amar. Não, eu não teria coragem de entrar nos espaços das imagens. Eles são assolados por uma espécie de solidão imaterial. A duplicação dinamiza essa sensação. 

Uma das letras de Flávio Graff pergunta “o que é que eu sinto?”. Eu queria um desdobramento do ato de Andréa Maciel, que me ofereceu um chocolate. E ela me devolve uma coreografia que escreve o espaço, que encaminha o olhar. Robert Lepage diz em um texto que a música inserida nas obras (fílmicas e teatrais) tem o poder de evidenciar o que devemos enxergar. A dança executada pela performer evidencia, ou mesmo cria, as linhas longitudinais e verticais, bem como os atravessamentos dos estados amorosos. A intranqüilidade entre estar junto e estar só. 

O termo performance também não é nada tranqüilo. Não é possível uma definição absoluta, mas uma nebulosa. Algo que me ocorreu enquanto estava no espaço deste site specific é que subjaz a possibilidade de uma dimensão de erro performático que o diferencia do teatro propriamente dito. Falo de uma noção mais tradicional de teatro, na qual o erro insere uma instância viva no que está partiturado. Aqui, o erro transparece no espaço barrado, ao qual já me referi, e a performance formaliza os erros no confronto criador quando se dá a ver por uma construção que acontece no instante. A meu ver, o problema estaria na pequena duração da performance. O tempo ganha uma certa urgência que suprime percepções mais apuradas das inscrições espaciais.

Notes

Newsletter

Edições Anteriores

Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

Edições Anteriores