Dood Paard: O Judeu

Conversa com o ator e encenador Gonçalo Waddington sobre o espetáculo O Judeu do grupo Dood Paard

21 de outubro de 2011 Conversas
Foto: Divulgação.

Nota: Foi mantida a grafia do português de Portugal.

“Dood Paard é um coletivo experimental de vanguarda. O grupo trabalha sem diretor. As produções se dão em um processo coletivo, durante o qual os atores trabalham juntos com técnicos permanentes e – dependendo do projeto – com um DJ, escritores, músicos e, muitas vezes, atores convidados.” in: http://www.nl-berkshires.org/art/doodpaard.html

O judeu integrou a programação do Festival de Almada 2011, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

ANA: Na ficha técnica de O Judeu aparece escrito “um espectáculo pelos actores e pelos técnicos”. Como é trabalhar num grupo que se define como um colectivo experimental, a trabalhar sem encenador (1)?

GONÇALO: Os Dood Paard são uma companhia sem director artístico, no fundo os directores artísticos são eles – inicialmente a Manja Topper e o Kuno Bakker, um ano depois entrou o Gillis Biesheuvel e havia um quarto elemento que entretanto saiu há uns dois ou três anos, mas que ainda está muito ligado. Eles se conheceram na Academy of Dramatic Art. O Kuno e a Manja eram do mesmo ano da mesma turma, o Gillis é mais novo. Nesta escola, que é um bocado o contraponto do conservatório lá do sítio, há uma enorme liberdade criativa, os actores desenvolvem muito mais instrumentos – a nível da encenação, da escolha de textos, da dramaturgia, da liberdade criativa – do que aquilo que é normal. Ou seja, vão um bocado a contracorrente da ideia de que o encenador tem de ter uma visão muito concreta daquilo que quer e tentar fazer com que os actores entrem nessa visão e nessa dramaturgia, e depois, de vez em quando, tentam descobrir juntos as coisas… No caso deles é mais radical, ou seja: eles escolhem aquilo que querem fazer, muitas vezes fazem a própria tradução, quando é muito complicada não, mas discutem e contribuem para a tradução. E essa tradução é logo sempre uma dramaturgia. Depois discutem tudo dramaturgicamente e decidem tudo – cenário, roupas, tudo.

ANA: E é mesmo em colectivo? Não há nenhuma figura que se destaque?

GONÇALO: Não. Há uma dinâmica, entre eles, de liderança. Por isso é que resultam tão bem e têm durado tanto tempo. Decidem tudo, certas coisas de produção e tudo, embora tenham um produtor. E fazem também o cartaz. Decidem tudo do zero até à imagem final, é assim que trabalham. Depois há produções que têm actores holandeses convidados, criações maiores… outras vezes há uma criação só da Manja, ou só dela e do Kuno, ou só de um deles com alguém convidado, mas os outros elementos também as discutem. E estas discussões são muito na linha dos STAN, porque eles são todos amigos. O Kuno é casado com uma das actrizes fundadoras dos STAN, o Gillis, antes de trabalhar com os Doord Paard trabalhou dois anos com os STAN – onde, aliás, há dez anos se conheceram, juntamente com o Tiago Rodrigues. Há uma ligação muito forte na maneira de o grupo trabalhar e que tem a ver com um trabalho exaustivo de dramaturgia. Quando eu digo exaustivo quero dizer: como é que tu compreendes colectivamente a mesma dramaturgia? O normal é conversar-se sobre o que poderão ou não as coisas ser, o encenador fala, enfim, há uma compreensão…. mas muitas vezes nos espectáculos há desequilíbrios evidentes que não têm a ver com a qualidade de interpretação – é óbvio que se reflectem na qualidade de interpretação – mas que, quando não vêm de maus castings (também pode acontecer), têm a ver com o entendimento colectivo do que é uma dramaturgia. Porque eu posso perceber, tu podes perceber, mas nós temos de perceber colectivamente. E não me refiro a nada de metafísico, mas sim a ficar-se realmente muito tempo a discutir um “Why”, o que quer isto dizer, o que não quer…. de um modo mesmo exaustivo… para tu teres uma ideia, no caso de O Judeu, foi até uma semana e meia antes do espectáculo.

ANA: Muito tempo de trabalho de mesa e pouco de ensaios, portanto…

GONAÇALO: Foi mais ou menos um mês e meio [de trabalho de mesa]. Mas encontrámo-nos muitas vezes antes. Na realidade só a uma semana e meia de estrear é que decidimos “Ok. Vamos começar a decorar hoje”. E duas semanas antes decidimos quem é que fazia o quê.

ANA: Uooou! Só dividiram as personagens realmente muito tarde.

GONÇALO: Imagino que isso, de certa forma, também possa ser angustiante para um actor, estar tanto tempo sem saber qual é a personagem que lhe é atribuída… Mas também é muito desafiante, ao mesmo tempo… no nosso casting havia um equilíbrio natural: Nós começámos por ler e ver coisas sobre a poluição, sobre o plástico, vimos aquele documentário, o Inside Job, por causa da questão do dinheiro, e um outro chamado Life in Plastic, ou qualquer coisa assim, até que chegámos à ilha de plástico que há no Pacífico.

ANA: Ilha?

GONÇALO: Opa, é cá uma imagem… bonita, porque plasticamente é mesmo bonita, mas desoladora… No Pacífico há três correntes que convergem que criam uma ilha de plástico – lixo, não é? Plástico de barcos, de pescadores, de coisas, uma amálgama de plástico feita de lixo de que converge ali. E para chamar a atenção sobre o assunto, houve um artista que fez figuras. Com vários barcos e botes juntou vermelho com vermelho e branco com branco e compôs, desenhou… Resumindo, chegámos à ideia do plástico…

ANA: Que tem uma presença muito forte. O espectáculo começa convosco a montar uma casa prefabricada de madeira e depois vão trazendo objectos e mais objectos para o palco – grandes, pequenos, banais, estranhos, insignificantes… os actores estão a construir à nossa frente uma instalação enorme e precária e no meio dela o espectáculo acontece… Como foi que chegaram a este cenário?

GONÇALO: Procurámos objectos sobretudo vermelhos e brancos, mas a cor dominante era vermelho. Até que fomos a uma loja impressionante que é o armazém chinês, em Alfragide – “China World”, uma espécie de outlet chinês – e com o nosso pequeno budget comprámos 4 ou 5 carrinhos de supermercado de tretas, coisas, bugigangas, em suma. E depois fomos ao Emmaús comprar móveis, objectos em segunda mão e a seguir fomos a outros armazéns também de compra e venda e comprámos televisões, aparelhos… porcaria, no fundo. Até que fomos ao Leroy Merlin, um armazém que tem tudo para bricolage, tudo para construir… piscinas janelas, portas, prateleiras, tudo!.. e de repente estava lá esta casa montada. O Tiago olhou para aquilo e disse: “Isto era muito fixe.” E ficámos todos a olhar para aquilo. Andávamos a falar em construir uma coisa… e de repente apareceu-nos uma casinha. Uma casinha, que é a ilha. …Ah! E a nossa primeira ideia, esqueci-me de te dizer, eram paletes, porque paletes têm a ver com import export / jangada / mercadoria / trading, porque o Judeu era um trader…

ANA: No Teatro Maria Matos, em Lisboa, onde vocês apresentaram, o tema dessa temporada era a abundância. A vossa encenação de O Judeu fez-me chegar à ideia da acumulação, hoje em dia é possível acumular a um ritmo e um nível impressionantes… Onde é que começou a aparecer a ideia dos objectos?

GONÇALO: Foi em Portugal. Nós ensaiámos uma semana e meia em Portugal, depois três semanas em Amsterdão e depois voltámos para Portugal. E quando voltámos faltavam três semanas para estrearmos mas ainda estávamos atrasados. Atrasámo-nos com a tradução e a adaptação.

ANA: Ou seja, o projecto arrancou inicialmente com os actores e o tradutor…

GONÇALO: Precisamente. Bom, aí uns seis meses antes do projecto começar encontrámo-nos para ler O Judeu de Malta do Christopher Marlowe, em inglês antigo e com notas. Não percebi nada. É como ler a Ilíada: há os Aqueus e uma série de outros e no mínimo cinco nomes diferentes para Gregos, mais outros cinco para os Troianos…

ANA: E em O Judeu de Malta também se faz referência uma série de povos…

GONÇALO: E então a ideia da tradução era passar daquele inglês arcaico para um inglês mais contemporâneo. Mas depois o tradutor introduziu coisas, pôs-se a inventar muito, e isso foi o que nos atrasou. Porque o texto… o que é engraçado no Marlowe, ao contrário do Shakespeare – e isto é anterior ao O Mercador de Veneza, eles andavam sempre a par e passo – é que é muito pouco floreado. É um Judeu, é mau, somos todos maus. E ao mesmo tempo é como uma comédia de enganos, muito característico: há o mau, o bom… eventualmente é mais “quadrado” que Shakespeare nessas coisas…. Somos todos maus, o Judeu é capaz de ainda ser um bocadinho mais mau, mas nós todos também não somos muito melhores. Em Shakespeare não, Shakespeare agarra nos enredos e faz histórias e sub-histórias, histórias de amor, etc… Mas a linguagem, o inglês do Marlowe era complicado e pareceu-nos muito bem que fosse o Paul Evans a fazer a adaptação… só que acabou por demorar tudo muito. Eu imaginei que à segunda semana em Amsterdão já tínhamos a distribuição dos papéis. E não. Só no último dia de Amsterdão é que distribuímos as personagens e depois ainda demorou mais. E ainda fizemos uma última revisão do texto, já em Portugal, quando o Paul finalmente o enviou todo e ainda a cortámos. E no meio disto de vez em quando parávamos para falar com o Julien e com o René, que é o técnico de som e luz. Parávamos para falar do espectáculo plasticamente. Toda a gente trouxe referências plásticas, eu fui a todos os sites de vídeo-arte, pintura, fotografia a que costumo aceder…

ANA: A ver se traziam referências…

GONÇALO: E o Julien tinha algumas coisas, imprimiu aquilo tudo, espalhámos na mesa e discutimos. Havia uma referência incrível: um artista que fez uma palete numa madeira excelente, estilo mogno, envernizada, igualzinha às outras mas com um requinte fantástico. Deu a um objecto banal uma carga de luxo. E sempre esta ideia de import-export. E depois uma fotografia que eu trouxe, de outro artista plástico… Ou um documentário que deu no canal Dois… Sabes as pessoas que têm aquela doença psicológica de acumular tudo? Uma mulher nesse documentário dizia: “eu comecei a notar isto aos 13 anos” e quando entras em casa, quando vês, é impressionante. Ela tinha um piano de cauda, e o piano de cauda já não se via porque tinha tralha e tralha e tralha… E dizia “o pior é limpar!”. E então esse artista de que te falei antes fez uma instalação lindíssima com objectos, tralha, luzes, néon e a partir dessa foto, da palete, da ilha de lixo, e de muitas outras coisas foi surgindo a ideia de nós, de cada vez que entramos, irmos trazendo coisas…

ANA: Vocês marcaram as coisas que entram? Ou seja, têm, sei lá, montinhos nos bastidores com coisas que vão entrando por ordem?

GONÇALO: Sim, não. Quer dizer, a primeira coisa a entrar eram as paletes, nós depois desenhamos no chão uma figura, porque nós só fizemos dois ensaios seguidos…

ANA: Pois, também pensei nisso, com este tipo de proposta quando ensaiam no palco têm de fazer ensaios corridos, não?

GONÇALO: Pois, essa é que é a questão, a gente só combinou. De repente um dia fomos para o Maria Matos montar luzes, bater texto (nós, lá em cima) e experimentámos pôr paletes no chão, experimentarmos só espalhar os objectos – nem sabíamos o que íamos fazer; tínhamos paletes e sabíamos que se calhar nem as íamos.

ANA: E já tinham a casa de montar?

GONÇALO: Tínhamos a casa e sabíamos que íamos tentar montar a casa em cima das paletes.

ANA: E usaram as paletes?

GONÇALO: Sim, cresce a ilha e depois cresce a casa e depois não quisemos fazer mais e depois fizemos um ensaio corrido dois dias antes. Eles não fazem ensaio geral. O que é giro. Eu agora percebo, faz-me bastante sentido…

ANA: Eu reparei bastante no trabalho de actor e, de facto, há um gozo do actor que é muito fresco, tem a ver com isto de se estar a lidar com uma série de coisas pela primeira vez. Os objectos a cair, vocês a lidarem com isso, as posições dos actores, percebe-se que está a acontecer em tempo real sem ter sido programado…

GONÇALO: E que as pessoas que estão a ver naquele dia estão a ver uma coisa que é relativamente nova, porque claro que não é tudo novo. É que a resposta está no texto! Porque é assim: se eu e tu tivermos de ter esta conversa com este texto, e se estivermos altamente sintonizados em relação aos múltiplos significados que isto pode ter e já tivermos debatido isto centenas de vezes, o facto de eu estar a pôr água neste copo ou a segurar neste objecto não faz diferença, percebes? Dá-te uma liberdade que, ao mesmo tempo, não é assim tanta, não é o absoluto improviso… E depois há uma enorme atenção à cena toda… eu sei onde ele está a entrar, vejo o que está a acontecer, escuto…

ANA: Sim, e tem de haver algumas marcações mínimas, nem que seja de zonas onde se pode estar…

GONÇALO: Pois, é óbvio que a gente estabeleceu algumas regras. Só pode haver destruição quando há uma batalha entre o D. Matias e o D. Ludovic e aí há destruição mas depois temos de montar, e só a partir da última parte do 5º acto é que aquilo começa a cair.

ANA: Sim, o espectáculo em si é sobre esta progressão, sobre esta construção que está a ser feita em palco e que depois no fim de desmorona… e para ensaiar isso tem de ser tudo de seguida…

GONÇALO: Ou então combinar. Mas se por um lado se ensaia pouco, por outro lado discute-se muitíssimo o texto.

Nota:

(1)Veja-se a este respeito a ficha técnica do espectáculo: O Judeu de Malta um espectáculo pelos actores Gillis Biesheuvel, Gonçalo Waddington, Kuno Bakker, Manja Topper e Tiago Rodrigues e técnicos André Calado, Julian Maiwald e René Rood com a colaboração de Carla Maciel Dood Paard e Mundo Perfeito adaptação da versão de Paul Evans The Jew of Malta de Christopher Marlowe tradução para português Joana Frazão comunicação Raymond Querido produção Dood Paard Marten Oosthoek produção Mundo Perfeito Magda Bizarro residência artística Espaço Alkantara The Jew é uma co-produção de Dood Paard, Mundo Perfeito e Maria Matos Teatro Municipal apresentação no âmbito da rede in http://www.teatromariamatos.pt/pt/prog/teatro/2010-2011/thejew

Ana Bigotte Vieira é dramaturgista, tradutora e investigadora. Faz o Doutoramento em Culturas Contemporâneas na Universidade Nova de Lisboa. Entre 2009 e 2012 é Visiting Scholar no departamento de Performance Studies da NYU-TISCH School of the Arts.

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