Visualidade e desaparecimento da linguagem

Crítica da performance Teatro dos ouvidos com Angela Leite Lopes e texto de Valère Novarina

21 de setembro de 2011 Críticas
Angela Leite Lopes. Foto: divulgação.

“Pelo instrumento do teatro, atingir a visão da palavra;
pelo instrumento do teatro captar a palavra pelos olhos,
ver o pensamento.”
(Valère Novarina in Diante da Palavra)

Teatro dos ouvidos é uma obra que se mostra como um híbrido de performance, teatro e artes plásticas dirigida por Antonio Guedes e atuada por Angela Leite Lopes. O trabalho é uma parceria entre o Teatro do Pequeno Gesto e a L’Acte – atos de criação teatral. A germinação é o texto homônimo de Valère Novarina, pintor, poeta e dramaturgo que edifica seu trabalho pelo trânsito entre as fronteiras que demarcam diferentes gêneros artísticos. A performance, apresentada em agosto na galeria do Espaço Cultural Sérgio Porto, criou condições de possibilidade para a percepção de que a arte surge por meio do confronto. O título já sinaliza o enfrentamento de um deslocamento e uma ambiguidade. Teatro originalmente significa o lugar de onde se vê e aqui a linguagem é o que se mostra.

A perspectiva crítica que aparece é uma tentativa de pensar nos termos e nos procedimentos, tanto do teatro quanto da performance e das artes plásticas, causando um ruído em relação ao questionamento da própria especificidade da linguagem teatral. Jean-Luc Nancy em seu livro Las musas defende que a ideia de uma essência da arte é problemática, senão, abstrata. Para esse autor as práticas artísticas se fazem em uma relação de proximidade e de distância umas das outras. Esse pensamento está na contramão da noção mais tradicional da existência de um fundo para a arte de onde partiriam suas variações. Ao contrário, a arte se retira justamente de suas variações, ou seja, qualquer surgimento de uma forma artística transforma as outras. A análise de uma obra ou de um modo de fazer artístico já necessita da busca de relações com outros modos. Para Nancy o que pode ser pensado como arte é o que se sobressai do confronto entre as práticas artísticas e não o seu ponto de partida: é o que ficou, o que restou do contato entre as práticas.

A matéria de Novarina é a linguagem em um jogo que opera com os corpos. Com o termo jogo estou querendo considerar uma ação que transita entre o que está escondido e o que se mostra – oscilação entre a morte e o renascimento. Um primeiro vestígio desse jogo se expõe na instalação criada por Bel Barcellos, constituída por uma espécie de labirintos de lâminas que pendem do teto. Dois elementos se conjugam dialeticamente por sua composição translúcida e por uma sutil proposição de coisa escavada – Novarina se define como um cavador de buracos e aqui estes são diáfanos como as palavras. Estas últimas parecem materializadas como substância etérea nas lâminas da instalação. A sensação é que o que as palavras escavam se desvanece na mesma medida. Palavra e espaço tornam-se vestígios. Esse jogo entre o que se vê e que ao mesmo tempo nos oferece um desfazimento, ou um desaparecimento, colabora para a mesma percepção da figura de Angela Leite Lopes. Assim, a performance coloca em xeque as noções mais tradicionais de representação e figuração, ou seja, desfaz uma economia estável da obra sob relações harmônicas e coerentes. A atuante se dá a ver mais como uma figurabilidade. Georges Didi-Huberman se aproxima da noção de figurabilidade na arte nos moldes da imagem onírica, ou seja, pegar a semelhança e mortificá-la, representar e jogar fora a semelhança em um jogo incessante de transformações e alteridades que a imagem sofre. Assim é possível dizer que há na atuação uma representação que está sendo desfeita, em queda, em processo de constante alteração de transformação das imagens. A ação inicia com os espectadores entrando no espaço, mas o que se vê é o labirinto de panos com algumas inscrições, desenhos e bordados tracejados nos quais se distingue a imagem da atuante, da qual só se pode ouvir a voz que num primeiro momento entoa canções e posteriormente inicia a narrativa de Novarina. Esse conjunto oferece um imaginário pela audição, justamente por meio da configuração delicada do que é visto e que não impõe uma racionalidade separada do sonho.

Angela Leite Lopes. Foto: divulgação.

Aos poucos o público fica inserido no espaço e acompanha a narrativa, às vezes com o vislumbre da atuante, às vezes com sua presença quase ausente intermediada pela instalação, pela incidência da luz que a revela. A forma com a qual Angela diz o texto é difícil de definir. Podemos ouvir todas as palavras ditas em um tempo e uma clareza que se assemelha a uma forma ajustada para sua matéria. A economia dos gestos promove uma espécie de simbiose reflexiva na corporalidade dos espectadores. É como se as palavras fossem transmutadas em um ritmo respiratório. Em alguns momentos a apreensão é ainda mais controversa e se assemelha a escutar ecos de algo distante. Acredito que essas qualidades podem ser vistas como produto do trabalho de tradução que Angela realiza da obra de Novarina e que a transforma em uma escavadora de palavras. Assim, corpo e fala se imbricam – o que se deixa ver é o fluxo das sonoridades configurando a experiência do espaço.

O figurino de Samuel Abrantes aparece como forma e coloração alusiva a uma época imprecisa que parece distante em nossa memória. Assim, ele opera também um movimento no pensamento por meio das montagens mentais que se colocam em curso. Sua visão promove o trabalho do pensar para que se construa sua imagem. Talvez o que se possa aferir com Teatro dos ouvidos, na dimensão crítica que se desenvolve aqui, é que a obra materializa uma esfera que projeta vetores múltiplos de teatralidade, principalmente da materialidade espacial, visual, textual e expressiva das escrituras dos espetáculos.

Referências Bibliográficas:

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Trad: Paulo Neves. São Paulo: Ed: 34, 2005 (Coleção Trans).

NANCY, Jean-Luc. Las Musas. Trad: Horacio Pons. Buenos Aires: Amorrortu, 2008.

NOVARINA, Valère. Diante da palavra. Trad: Angela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.

Site do grupo Teatro do Pequeno Gesto: http://www.pequenogesto.com.br/

Dinah Cesare é mestra em Artes Cênicas pela UNIRIO, atriz, professora de training físico para atores e é integrante do Instituto do Ator no Rio de Janeiro.

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