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Imagens do horror

9 de abril de 2013 Críticas

As marcas da crise política impressas em quatro jovens que se encontram em um lugar indeterminado, vestindo tshirts com capuzes e orelhinhas de bicho. Seus corpos mostram uma movimentação nervosa e exaustiva, que é o resultado do horror que aparece quando o que nos forma (o pensamento intelectual, a política, a economia, as relações sociais) se revela como motor de nossa própria decomposição. A este homem moldado pelas injunções sócio-político-econômicas restam também alguns momentos de petrificação, como último recurso de resistência ou, talvez, como um breve estágio que antecede sua morte. É com este imaginário que o Colectivo 84/Penetrarte de Portugal, companhia dirigida por Mickael de Oliveira e John Romão, coloca em cena as repercussões e os possíveis enfrentamentos diante do atual estado das coisas. Suas insinuações à escatologia e ao sexo mecanizado, seu humor debochado de si e dos outros e o retorno a um estado quase animalesco parecem ter a intenção de figurar uma maneira de lidar com o mal-estar gerado pela violência, pela condição de expropriação e de alienação do homem. A sociedade de consumo tem nádegas na cabeça que eliminam coca-cola: insumo e produto do pensamento intelectual.

O meu local de trabalho é um apartamento no Marquês de Pombal

24 de junho de 2011 Estudos
Foto: Susana Paiva.

A grafia em português de Portugal foi mantida, conforme o original.

A meio do espectáculo Velocidade máxima, um dos três prostitutos com quem John Romão, o encenador, co-criou o espectáculo dirige-se ao público em tom confessional e interpela-o com uma pergunta intrigante:

“Eu tomo hormonas para o meu corpo ficar mais inchado, mais bonito e atraente. É uma aposta no negócio.(…) O problema é que com estas hormonas fico sem erecção. Para mim é um sacrifício porque quando as tomo não posso trabalhar e não ganho dinheiro e isso deprime-me, mas faz-me valorizar o investimento. Durante este período com hormonas penso em muita coisa mas quase sempre na minha casa e na minha mãe. E eu me pergunto o que é resistência: Insistência ou desistência? Eu não me sinto seguro ao fazer aquilo que faço e sei que não será para sempre. É uma medida de emergência para pagar algumas dívidas. Eu nem sei se quero viver para sempre na Europa (…)”

O que é resistência? Insistência ou desistência? Eis a pergunta que o jovem prostituto deixa no ar, aquilo em que pensa antes de pensar em segurança de vida.

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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