Percursos-experiência:

propostas performativas para rever a cidade

16 de abril de 2020 Processos

Neste texto comento o projeto performativo Três percursos e um desvio para um mesmo fim, que realizei em 2019 no âmbito do Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, como parte da investigação “Dramaturgias do Quotidiano. Especulações sobre a dimensão ficcional do real”[1]. O projeto desenvolvido na cidade do Porto é composto por quatro percursos-experiência, propostas de percursos performativos, que funcionam com instruções para serem vivenciados por um grupo de participantes. Este trabalho partiu do meu interesse em pensar a dimensão da ficção no quotidiano e em ambiente urbano.

Na minha prática como cenógrafa, pude presenciar certa tensão no trânsito entre realidade e ficção no espaço cénico. Ou seja, quando as narrativas alternam entre a realidade tangível dos corpos e espaços, ora adquirindo dimensão ficcional, ora voltando a ser “reais”. Este momento de passagem entre a ordem da presença e a ordem da representação, tal como nota Erika Fischer-Lichte (2013), é propício a deixar o espectador num “estado liminar”[2], com sua percepção desestabilizada. Na elaboração dos percursos-experiência procurei trabalhar a partir deste lugar liminar (ambíguo), aproveitando os espaços da cidade para propor leituras paralelas e em convivência com os próprios.

Assim, foquei minha prática artística na rua desenvolvendo as questões que tenho vindo a experimentar em palco. Diferente do teatro à italiana, onde usualmente nos instalamos a ver a cena, na cidade atravessamos “as cenas” com nossos corpos. Concentrei-me em meu quotidiano, trabalhando numa análise aos espaços que percorro diariamente. Os percursos-experiência foram pensados a partir de trajetos que realizava para levar meu filho para a creche.

O bairro do Bonfim, onde vivemos, possui mapa peculiar – com quarteirões irregulares, ruelas e muitas diagonais – de modo a propiciar vários caminhos diferentes com duração aproximada para irmos de casa até o infantário. Assim podíamos ziguezaguear cada dia numa combinação diferente. O estudo desse mapa e nossa experiência diária impulsionaram a criação do projeto Três percursos e um desvio para um mesmo fim. Quando nos mudamos para o Porto, vindos do Rio de Janeiro, nosso filho tinha um ano e ao final do projeto completou três. Essas idas e vindas com uma criança em crescimento foram marcantes para perceber outras relações com os trajetos.

A investigação me aproximou das errâncias urbanas das vanguardas européias, como as flanêries, as deambulações – dadás e surrealistas – e as derivas situacionistas, que utilizam a caminhada para a exploração e questionamento da vida quotidiana nas cidades (BERENSTEIN, 2012). Estes errantes, na análise de Paola Berenstein, se aproximam do que Michel de Certeau (CERTEAU, 1994) chamou de anti-disciplina, astúcias e táticas quotidianas desviantes, e, simultaneamente, se distanciam da sociedade disciplinar teorizada por Michel Foulcault (FOUCAULT, 1977).

Os experimentos situacionistas, em particular as situações e a arte por instrução, foram inspiradores para a criação dos percursos-experiência. A respeito da relação entre o real e o ficcional, por um lado, operei a partir da ideia de soma e embaralhamento na criação dos percursos. Ao mesmo tempo, busquei mapear diferentes abordagens destes domínios. Gosto da definição de Jacques Rancière de que a arte e a política constroem ficções, isto é, “rearranjos materiais dos signos entre o que se vê e o que se diz, entre o que se faz e o que se pode fazer” (RANCIÈRE, 2018, p. 59). Por esta perspectiva apontada por Rancière, os percursos-experiência são todos ficções.

O projeto acontece num quadro conceptual que entende a rua como matéria de trabalho. Dialogando com propostas que procuram pensar a cidade sob diferentes aspectos, tais como: a ideia de delirium ambulatorium de Hélio Oiticica (1937-1980), na qual o artista sintetizou a relação da rua com o seu trabalho; as propostas do Rimini Protokoll (f.2003), que utiliza recorrentemente a rua e o quotidiano para propor interações com o público; os projetos performativos do grupo Circolando (f.1999) em locais específicos do espaço urbano e os audio-walks da artista Janet Cardiff (n.1957) que exploram a percepção do corpo no espaço através do uso do áudio.

Os percursos-experiência que compõem o projeto são: Variação de uma manhã, Percurso como narrativa, Os lugares e as quase-coisas e o Percurso Z. A proposta se inicia à porta de minha casa, os 12 participantes se posicionam ao longo da escada que conecta a minha casa à rua, numa situação que remete a um teatro. Ali, explico o funcionamento dos percursos-experiência e realizo o sorteio para cada participante. Como utilizei medias e procedimentos diferentes para a idealização dos trajetos, elaborei um kit para cada um deles com mapa, instruções e demais aparatos necessários. Cada espectador sai individualmente e percorre seu trajeto a seu tempo. Como são quatro percursos diferentes, os espectadores se espalham pelas ruas e eventualmente se cruzam nas intersecções dos caminhos. Ao final, todos nos reunimos no último ponto dos percursos, em frente à creche, para troca de impressões e confraternização.

Três percursos e um desvio para um mesmo fim, 2019. Arquivo pessoal.
Três percursos e um desvio para um mesmo fim, 2019. Arquivo pessoal.

Em Variação de uma manhã o espectador caminha escutando o áudio de uma ida minha com o Joaquim (meu filho) à creche passando pelos mesmos lugares. Neste percurso pretendi provocar uma interferência entre o espaço mental do espectador e a cidade. O áudio atua em sua percepção, deixando-o num estado intermédio, entre duas realidades atreladas, a que se percorre e a que se escuta na gravação. Outra proposição do trabalho é a oportunidade de testemunhar o tempo da criança a descobrir a cidade em concomitância com o aprendizado da linguagem – seus comentários, pausas e interesses – em um ritmo não linear. No mapa assinalo áudio-localizações que ajudam no sincronismo entre as caminhadas. Como numa cápsula do tempo, o áudio registra e nos conecta a detalhes que contam as modificações ocorridas no caminho. Uma árvore com flores passa a estar seca, uma parede tem um novo desenho, uma obra não está mais presente…

Variação de uma manhã, 2019. Arquivo pessoal.
Variação de uma manhã, 2019. Arquivo pessoal.

Já o Percurso como narrativa se relaciona aos espaços da cidade. Pensado como um texto tridimensional, o percurso é dividido em sete momentos-lugares – espaços de interesse para a narrativa que pontuam momentos no trajeto. Cada espectador recebe um conjunto de envelopes com textos para serem lidos nestes locais específicos. No primeiro envelope, com o título Porta 177, peço que se dê atenção aos detalhes do caminho e “o que eles contam”, afim de ativar a percepção do espectador para o momento. De lá, segue-se até o 2º sinal, que está localizado em um cruzamento, ponto em que o texto propõe que o 3º sinal toque na imaginação e “abre-se a grande cortina entre a esquina do talho e da florista”. Assim, de um momento-lugar ao outro o espectador caminha observando a cidade, atravessando a narrativa proposta, até chegar ao envelope final, a Porta 40, que é a da creche. A narrativa é construída pelo somatório das leituras e a experiência subjetiva de cada participante.

Percurso como narrativa, 2019.  Arquivo pessoal.
Percurso como narrativa, 2019. Arquivo pessoal.

No caso do percurso-experiência Os lugares e as quase-coisas, criado em co-autoria com a artista Louise Kanefuku, o pensamento foi direcionado pela vontade de revelar múltiplos olhares a partir de um mesmo trajeto. Pontuam o caminho: a Praça Jardim da Moreda, o Café Asa de Mosca e a Creche Fofinhos. Cada local possui instruções que funcionam como um roteiro a ser completado pelo participante. Na praça sugerimos que se escolha uma janela e imagine quem ali vive: “um viúvo na contemplação de sua casa vazia”, “na sacada da bandeira do Porto, um adolescente”, “Dona Custódia. Em dias bonitos, fecha a janela” foram alguns dos imaginados nas sessões realizadas. O espectador segue pelo caminho exercendo ações como coletar ou deixar um objeto, fotografar, mapear e criar pequenas dramaturgias urbanas. Ao final, já na creche, sugerimos que inventem uma cena a partir dos lugares-cenários, pessoas-personagens e objetos encontrados no trajeto.

Os lugares e as quase-coisas, 2019. Arquivo pessoal.
Os lugares e as quase-coisas, 2019. Arquivo pessoal. Foto: Tomás Ribas.

A última proposta de percurso-experiência é o Percurso Z. Entrelaçando-se aos demais, este representa o desvio. Percorrer o Z tende a conectar-nos a um tempo subjetivo e não-funcional, na medida em que o caminho se desvia do ponto de chegada, podendo nos levar a um acesso à memória e ao devaneio. A criação do “Z” foi desencadeada pela leitura de Helder Gomes (2009) que se refere à ficção como “ferramenta de subversão simbólica do real”. Assim o Z surgiu como um desenho a ser percorrido, materializado num mapa-jogo sem nomes de ruas para se guiar. Procurando respeitar sua natureza desviante e manter multiplicidade, funciona metaforicamente como uma escala: de viagem, de vida, ou algo que o espectador crie. Houve uma participante que optou por relacionar o percurso com a escala de sua gestação. No mapa, há várias propostas de interação e jogo com os lugares do bairro, como escutar o som de uma cabine telefônica obsoleta e observar a cidade, adentrar uma “zona desconhecida” e gravar um áudio do que se vê. A última paragem, antes da creche, é na Praça da Alegria, onde se propõem: “Se fosses criança o que farias nessa praça?” Subir. Pular. Correr…

Mapa-jogo preenchido por participante do Percurso Z, 2019. Arquivo pessoal.
Percurso Z. Mapa-jogo preenchido por participante Amanda Copstein, 2019. Arquivo pessoal.

Curiosamente, no exercício teatral, por vezes parto da ficção para a construção de algo concreto. Neste trabalho parti do real, da cidade e do quotidiano, como impulsionadores da criação. A dimensão ficcional do espaço urbano parece poder ser revelada pelo olhar de cada um e acionada pelo uso que damos para a cidade (de que forma a modelamos). Uma brecha, um objeto deslocado, um acontecimento que desvie o fluxo do andar são potências dramatúrgicas que podem levar a outras relações com os espaços. A ideia de desvio se apresentou neste processo como um campo de possibilidades capaz de multiplicar as formas de experienciar o quotidiano. E se formos por aqui e se formos por acolá?

Notas

[1] Mestrado coordenado pela professora Doutora Gabriela V. Pinheiro e pesquisa de investigação sob orientação da Professora Doutora Sofia Ponte.

[2] O conceito de “liminaridade” tem sua génese no trabalho do antropólogo Victor Turner (2013) e está relacionado a um estado ritual de passagem, em que o indivíduo se encontra em um umbral entre dois momentos.

 

Referências bibliográficas

BERENSTEIN, Paola. “Errantologia”. Elogio aos errantes. Salvador: EDUFBA, 2012, p. 25-38.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. Tradução Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 2000.
FISCHER-LICHTE, Erika. “Realidade e ficção no teatro contemporâneo”.Tradução Marcus Borja. Sala Preta 13 (2), 2013, p.14-32. Disponível em <http://www.revistas.usp.br/salapreta/article/view/69073> [Acesso: 09 julho 2019].

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987.

GOMES, Hélder. “As possibilidades do possível: a ficção como experiência de realização do real”. VOCA nº2 – Efe de Ficção, Porto: Calote Esférica- Associação Cultural, apoio: FBAUP, Universidade do Porto, 2009, p.15-22.
RANCIÈRE, Jacques. “Se é preciso concluir que a história é ficção. Dos modos da ficção”. A partilha do sensível: Estética e Política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2018, p. 52-62.
TURNER, Victor. “Liminaridade e communitas”. O processo ritual: Estrutura e antiestrutura Tradução de Nacy Campi de Castro e Ricardo A. Rosenbusch.
 Petrópolis: Vozes, 2013, p. 97-126.

Foto em destaque: Travessa Poço das Patas, Bonfim, Porto. 2019. Foto: Aurora dos Campos.

Aurora dos Campos é cenógrafa e pesquisadora carioca; Mestra em  Arte e Design para o Espaço Público pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e Bacharel em Cenografia pela Faculdade de Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). 

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