Sobre narrativas e martelos

Crítica de Festa de Inauguração, do Teatro do Concreto, de Brasília

2 de abril de 2020 Críticas

Festa de inauguração, espetáculo do Teatro do Concreto, foi apresentado no CET no dia 1º de setembro de 2019, ainda na primeira metade do 34º Festivale, que em poucos dias já colocou em cena uma grande diversidade de linguagens, apontando noções diversas de teatro para diferentes públicos.

O grupo de Brasília apresenta uma série de provocações que convidam os espectadores e espectadoras a pensar sobre as construções narrativas que formam nossas visões de mundo. O principal aspecto desse processo abordado pelo grupo é a dinâmica de construção e desconstrução que constitui as grandes narrativas. O foco crítico da dramaturgia está, a meu ver, nas construções da coisa pública (a história, a cultura, a arte, os costumes) nas materialidades dos espaços públicos (os museus, os monumentos, as cidades), em contraste com os pequenos gestos dos indivíduos – e as dimensões possíveis da repercussão desses gestos.

A criação da peça tomou como ponto de partida um fato real e bastante simbólico acontecido em Brasília em 2011, quando um vazamento provocou uma obra no Congresso Nacional. Entre as paredes que quebradas nesse processo, foram encontradas, em uma parte oculta do edifício, frases escritas pelos operários que construíram o prédio nos anos 1950. Na parte visível, um monumento arquitetônico histórico da capital do país, centro das decisões políticas mais significativas sobre a vida concreta dos brasileiros e brasileiras. Na parte invisível: os rastros dos trabalhadores que construíram esse lugar, seus pensamentos deixados para um acaso no futuro, suas vozes praticamente inaudíveis e a potência poética dessa despretensiosa micro-insubordinação em segredo.

Assim, no contraste entre o público e o privado, o grande e o pequeno, Festa de Inauguração faz um exame dos modos narrativos das instituições e das estratégias de inscrição dos indivíduos. Diante de referências imponentes como o teatro grego e as ruínas de Pompeia, são as vozes e os corpos dos atores e das atrizes que dão o contraste da individualidade, da subjetividade e dos afetos em escala humana diante dos acontecimentos acachapantes de um mundo imenso e imprevisível. Embaixo dos nossos pés, placas tectônicas guardam movimentos ancestrais, mas nós estamos aqui, tentando achar laços de pertencimento e uma narrativa de vida que valha a pena. O que fazem os nossos gestos? O que eles destroem ou preservam?

No início da peça, um convite para pegar um martelo. Em seguida, a proposta de que os espectadores destruam partes do cenário que simulam obras de arte aparentemente feitas de cacos de uma destruição prévia. Há quem se entregue à diversão de martelar objetos aleatórios, só pelo prazer de desopilar a tensão do cotidiano. Mas há também quem hesite antes de dar a primeira martelada. Devo mesmo aderir? Quem se beneficia com a minha adesão? É essa a cena que institui o espaço onde a maior parte da peça vai acontecer. Tudo acontece muito rápido, mas não à toa. Mesmo no teatro, mesmo na condição de espectadores, em que aparentemente não temos nenhum poder de decisão sobre os acontecimentos, ainda assim estamos cumprindo um papel.

O gesto de desconstruir não é necessariamente um impulso negativo. Nesse sentido, a arte e a crítica fazem o mesmo trabalho: quebrar uma ideia, expor suas estruturas, pode ser o caminho necessário para encontrar outras inscrições. Mas a arte e a crítica, por sua vez, também precisam de umas marteladas. A ânsia de preservação de qualquer tradição a despeito das suas violências intrínsecas, as homenagens acríticas aos mesmos homens brancos ricos que protagonizam a história da arte e do teatro, tudo isso pode estar na mira dos martelos que somos convidados a empunhar.

Entre tantas ideias, tantas perguntas relevantes que o espetáculo propõe (e é difícil segurar o desejo de tentar falar sobre tudo), uma das coisas que mais me chamou a atenção nesse trabalho do Teatro do Concreto foi a convocação à responsabilidade que temos sobre as narrativas que nos incluem ou excluem, que nos matam ou nos recolocam no mundo, que nos embalam no conforto de uma coerência linear ou que nos sacodem pelo bombardeio de incertezas. Esse chamado, no entanto, não se dá pela cobrança de uma eficiência de participação no mundo, mas por um convite à criatividade, à invenção, ao reconhecimento dos marcos e inaugurações das nossas próprias narrativas e da capacidade que temos de romper, cada um com o seu martelo, com o concreto armado da história.

 

Daniele Avila Small (Rio de Janeiro, 1976) é Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, crítica e curadora de teatro.

Este texto foi publicado originalmente no Jornal O Vale, em setembro de 2019: https://www.ovale.com.br/_conteudo/viver/2019/09/87005-critica–espetaculo–festa-de-inauguracao—por-daniele-avila-small.html

Foto em destaque: Paulo Amaral.

 

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