Entre a sala e o céu

11 de julho de 2018 Processos , e
Foto: Luis Gustavo Meneguetti.
Foto: Luis Gustavo Meneguetti.

No verão de 2017 (inverno europeu), o coletivo brasiliense Aisthesis[i] viajou para Lisboa na expectativa de encontrar o mundo. Pegou casacos emprestados e desafiou os próprios limites (geográficos, a princípio) se lançando na aventura essencial e milenar da viagem, tão primitiva quanto o próprio movimento de migração e povoamento dos continentes. Reservou hospedagem numa casa portuguesa e enfrentou uma madrugada inteira de horas-voo e fila de imigração para se encontrar com a coreógrafa Vera Mantero, durante seis horas por dia ao longo de um mês, em seu estúdio no Espaço da Penha, no velho continente.

Toda viagem carrega em si uma atitude potencial de salto no mundo – assim como Yves Klein salta no vazio[ii]. Na obra Caminhar, uma revolução, Antonio Labucci (2013, p. 10) cita Hofmannsthal para lembrar que o homem descobre no mundo apenas aquilo que já tem dentro de si, mas que precisa do mundo para fazê-lo. Seria preciso, em outras palavras, saltar no mundo, provocar o choque para ativar os processos que transformam em descoberta essa força particular e subjetiva que pulsa como potência. E a viagem, logo, seria uma oportunidade de redescobrir modos de operar no cotidiano – se come, mas com outros temperos e combinações; se dança, mas sobre outro chão; se atravessa a rua, mas com outra paciência – para, assim, descobrir-se a si mesmo.

Com efeito, a viagem oferece uma oportunidade para desenvolver os cinco sentidos: sentir e escutar mais profundamente, olhar e ver com mais intensidade, degustar e tocar com mais atenção – o corpo desassossegado, tenso e aberto a novas experiências, regista mais informações do que habitualmente […] (ONFRAY, 2009, p.51-52).

O que criar? Nosso encontro com Vera Mantero tinha dois objetivos principais. O primeiro deles buscava retomar a reflexão e a experimentação das práticas e processos que tinham a escuta e a presença como foco (dando continuidade a um primeiro encontro com Vera, ainda no Brasil, no ano de 2015). Já o segundo objetivo envolvia a participação da artista portuguesa na criação de rascunhos para duetos e cenas, os quais fariam parte de um futuro espetáculo do coletivo. Imersos, então, nas dinâmicas arquetípicas do estrangeiro e do hospitaleiro – presentes em boa parte dos escritos sobre a teoria da viagem – nos debruçamos sobre narrativas que nos aproximavam e nos deslocavam. Como anfitriã, Vera teve o impulso de ouvir, sentir, vibrar, esclarecer o que esperávamos lograr estando fora de casa. Com a fluidez sintética que lhe é característica, indagou motivações, desejos, temas de interesse, estéticas e procedimentos que configuravam nosso espectro de buscas artísticas no momento, e nos conduziu à escolha de três palavras que se tornariam o principal tema de trabalho ao longo da residência: luta, resistência e esperança.

Como criar? O processo criativo se desdobrou de modo fortemente colaborativo e envolveu incialmente três atividades principais: (1) o aprofundamento sobre o tema – por meio de entrevistas com artistas, pesquisa de vídeos e leituras; (2) sessões de prática cênica, direcionadas pelo tema escolhido, com forte carga improvisacional e duração de seis horas diárias; e (3) exercícios de combinação do material criado. As etapas se deram simultaneamente. Além disso, interessava ao grupo seguir investigando sua poética híbrida, indisciplinar, sem hierarquia entre os modos de expressão e os criadores, coerente com a noção de fluxo presente desde o início da pesquisa, mas também interessava praticar procedimentos inéditos trazidos pela própria Vera.

Dessa forma, na etapa de aprofundamento do tema, entrevistamos em seus locais de trabalho o ativista social João Azevedo, empreendedor e militante do comércio justo; o crítico literário António Guerreiro, professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa; e recebemos em casa o escritor, filósofo e professor Gonçalo M. Tavares. Cada um deles pode abordar, em alguma medida, elementos ou aspectos que dialogavam com nosso tema principal e oferecer novas referências, imagens e possibilidades de desdobramento. Também nos debruçamos sobre uma entrevista em vídeo com o escritor Rui Nunes, sobre o filme Eu, Daniel Blake, além de outros materiais que apareceram espontaneamente. Procuramos abordar a perspectiva das macropolíticas – as grandes decisões, as grandes revoluções – e também das micropolíticas – o impacto da política em nossa intimidade, em nossas relações mais diretas – de modo que o recorte político do processo foi ficando explícito com o passar do exíguo tempo.

Para chegar aos entrevistados caminhamos juntos pela cidade. A caminhada coletiva, logo, se tornou um procedimento artístico. Diversos materiais surgiam na rua: imagens, sonoridades, texturas de movimento, textos poéticos, diálogos, vídeos, situações para improviso. Ao nos darmos conta da relevância metodológica desse procedimento passamos a ficar entre a sala e o céu. Ora, se no conceito de residência mora o conceito de viagem como experiência, as seis horas diárias dentro da sala de criação, necessárias ao trabalho do corpo e da cena – que se dá sobretudo no corpo – seriam suficientes para viver esse processo em sua integralidade? Por que seis horas de ensaio num estúdio seriam diferentes em Dubai ou Lisboa? Ou em Brasília? Como os corpos trariam para a sala a luz de cada lugar, por exemplo? Ou a linha musical do idioma falado nas calçadas? Entendemos, então, que era preciso incluir o céu e trazê-lo para dentro da sala de ensaio. Morávamos juntos, cozinhávamos juntos, criávamos juntos e agora caminhávamos juntos como prática de criação e disparador poético para pensar o tema proposto no cotidiano. Queríamos ir de encontro ao mundo, saltar dentro dele.

À medida em que o processo avançava, retomávamos eventualmente o material criado assistindo aos improvisos em vídeo[iii]. Em sessões coletivas, que duravam às vezes dias inteiros, selecionamos os materiais que mais nos interessavam: textos transcritos, personagens marcantes, dinâmicas de improviso e contracena, cenas com acabamento mais definido. Importante ressaltar que a câmera – que esteve sempre presente nas práticas de Lisboa – buscava planos que não necessariamente abarcavam o todo da cena. Nesse sentido, editávamos o material a partir de uma versão já editada pelo operador de câmera do que seriam os registros, adicionando mais um autor, mais um ruído, mais uma camada na teia criativa. A criação audiovisual, além disso, foi uma vertente essencial para que olhássemos o céu e o trouxéssemos para dentro da sala, juntamente com os sabores e os cheiros das refeições, o fluxo das ruas e a lógica de imensas rotatórias, os esbarrões com sotaque e os velhos de sobretudo nas praças. Consultamos, ainda, os diários de bordo e as anotações individuais.

Numa residência – que passamos a definir, portanto, como a prática artística entre a sala e o céu de uma cidade estrangeira – afirma-se a possibilidade de emergirem temas, técnicas e procedimentos que interessam ao grupo de artistas sem o atravessamento habitual de demandas ordinárias e condicionadas, permitindo um investimento de tempo qualificado na criação artística. Aprende-se a dosar as horas de sala – que o aprendizado da cena demanda – e as horas de céu. A possibilidade de convívio imersivo entre os artistas participantes dá continuidade às trocas, ao compartilhamento de reflexões, e acentua diferenças, semelhanças e preferências de cada artista como indivíduo. O tempo-espaço da criação se expande.

O que guardar? Responder a essa pergunta parece difícil como tentar mapear o legado incomensurável de um encontro significativo. Não conseguimos, durante a residência, chegar a uma edição final do material criado. Isso só aconteceu seis meses depois, em formato de roteiro, para o qual cada intérprete – incluindo Vera Mantero – propôs uma versão. Diversas sugestões de encenação foram apontadas como possibilidades para a continuidade do processo no Brasil.

Portanto, se por um lado ficou o conjunto de esboços de cenas, as propostas de roteiros, as horas de registro em vídeo, as abordagens criativas vivenciadas, por outro, ficou também o dia em que caminhamos juntos e paramos para ver o pôr do sol em um jardim; a típica moqueca brasileira que oferecemos no jantar para os novos amigos portugueses; o modo como Vera movia as mãos pelos cabelos enquanto nos observava improvisar; as perguntas e provocações que nos fazia; as questões que nós nos fizemos e tantas outros momentos dessa experiência imersiva.

Se viajamos para encontrar o mundo e, assim, descobrir o que há dentro de nós, o encontro com Vera nos ensinou muito sobre nossa indignação política, nossa crença no discurso e na potência da arte; despertou e solidificou danças particulares, entendimentos técnicos, cena e contracena, presença, instante; ampliou nosso repertório de procedimentos de composição; ofereceu modos de aproximação e registro dos materiais criados no devir das práticas e experimentações.

Até onde essa vivência poderá nos atravessar como artistas em outros percursos criativos? Até quando poderá reverberar em nosso fazer pedagógico? Para essas perguntas, uma possível resposta: o céu é o limite! Porque um encontro carrega uma potência de afetos que se expande pelo tempo, pela memória do corpo e pelo corpo da memória.

 

Referências bibliográficas

LABBUCCI, Antonio. Caminhar, uma revolução. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

ONFRAY, Michel. Teoria da Viagem: uma poética da geografia. Lisboa: Quetzal, 2009.

Notas

[i] Aisthesis é uma palavra grega que significa “faculdade de sentir”, “compreensão pelos sentidos”, “percepção totalizante”. Esse é o nome do coletivo brasileiro formado em 2014 por seis artistas que decidiram sair dos territórios conhecidos em busca de novos caminhos inventivos: Édi Oliveira, Francis Wilker, Giselle Rodrigues, Glauber Coradesqui, Kenia Dias e Jonathan Andrade.

[ii] Leap into the Void, 1960. Suporte: fotografia.

[iii] A criação audiovisual ao longo da residência foi realizada pelo artista Luis Gustavo Meneguetti.

 

Francis Wilker é curador e diretor do grupo brasiliense Teatro do Concreto. Mestre e doutorando em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo, é professor do curso de Teatro do Instituto de Arte e Cultura da Universidade Federal do Ceará.

Giselle Rodrigues é coreógrafa, intérprete e professora do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília, onde cursa atualmente o Doutorado em Arte. Em 2016, ganhou o Prêmio SESC do Teatro Candango pelo espetáculo Fio a Fio nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Direção e Melhor Espetáculo.

Glauber Coradesqui é professor de teatro, pesquisador e dramaturgo. Mestre e doutorando em Arte pela Universidade de Brasília, é autor do livro Canteiro de Obras: notas sobre o teatro candango.

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