Aprendendo a agir quase como um médico legista

11 de julho de 2018 Processos

 

 

Workshop com Krystian Lupa. Foto: Guto Muniz.
Workshop com Krystian Lupa. Foto: Guto Muniz.

Escrevo esse texto para contar um pouco da minha experiência no workshop proposto pela MITsp 2018 e coordenado pelo diretor polonês Krystian Lupa. Minha intenção aqui é tentar expor brevemente o que eu vivi em companhia de mais 19 outros artistas (10 diretores e 10 atores) e também de dividir as questões que foram levantadas dentro desse mesmo contexto.

Gostaria de começar pela minha chegada um pouco conturbada no workshop que começava na segunda-feira, pois ela determinou a forma com a qual eu entrei nessa aventura. Por questões pessoais, não podia estar presente no primeiro dia e isso iria comprometer a minha participação no curso. A MITsp tinha recebido instrução da parte do Lupa e da sua produção de que os participantes deveriam estar presentes 100% do tempo. Caso contrário, eles não poderiam participar do trabalho. Além disso, o primeiro dia era essencial. O diretor falaria sobre ele e sobre os conceitos que o acompanham ao longo de toda a sua carreira: os conceitos de “paisagem” e de “monólogo interior” (falarei deles ao longo desse texto)[i]. Sem o entendimento prévio de ambos, o trabalho se tornaria complicado. Seria nesse momento também que nos apresentaríamos, o que era importantíssimo para entrar no universo de cada um e para o entrosamento do grupo. Dadas as condições, fiz de tudo para chegar nesse primeiro dia (taxi, ônibus, avião…), mas infelizmente só foi possível chegar às 14h, hora de término da sessão. Porém, graças à Maria Fernanda Vomero, responsável pelas ações pedagógicas do festival, e à equipe envolvida no workshop, consegui manter a minha vaga. Faço questão de citá-los, pois sem a disponibilidade e a boa vontade deles eu não teria vivido essa experiência.

É com o meu mundo interior completamente chacoalhado devido à odisséia que eu vivi até chegar no teatro que eu peço a um dos participantes que compartilhe algumas anotações sobre o que tinha sido dito ao longo daquele dia. Ele me diz coisas como “o ator dança com o personagem, devemos agir como crianças fazendo parte de um corpo selvagem (sem pensamento); Jung: criar a partir do sonho, o ator é matéria e sonho. Como o animal que está dentro de você pensa?, etc”. Mesmo parecendo ideias jogadas no ar de forma muito abstrata, era como se tudo fizesse sentido para mim. Já tinha visto um dos trabalhos do Lupa e ouvido falar brevemente no tal do “monólogo interior”. Já tinha até me atrevido, em um dos meus trabalhos, a experimentá-lo. Então, aparentemente, não terei nenhum problema em fazer as tarefas que ele havia pedido para o dia posterior àquela segunda-feira: a transcrição de dois minutos do nosso fluxo do pensamento; transcrever de forma bastante detalhada uma memória; transcrever o fluxo do pensamento de um personagem do qual o trabalho não me satisfez, inscrevendo-o em algum lugar; e enfim, a sua presença fora de cena: abordá-lo como se ele fosse um amigo que fizesse parte dos seus pensamentos.

Na terça-feira começamos a sessão falando de como tínhamos vivido a realização da tarefa e levantando questões relativas ao monólogo interior. Como não tinha participado da conversa do dia anterior, preferi ficar observando, mesmo que os questionamentos que atravessavam a minha mente fossem infinitos naquele momento. A primeira questão levantada foi a exigência que temos ao escrever um texto e como isso interferiria na realização do monólogo interior. Lupa diz que isso seria a “vergonha de você na frente de você mesmo”. Ele fala então da insegurança que impede a prática. Assim como no palco, quando por inúmeras razões somos atravessados por qualquer que seja a insegurança, perdemos o fio do pensamento e consequentemente o fio da trama e do personagem. Devemos então estar abertos às vergonhas e às coisas selvagens que surgem nesse momento.

Escrever o monólogo interior é justamente o caminho para acessar a nossa mais profunda intimidade. Se somos atravessados por pensamentos de insegurança, a viagem é interrompida. Ele diz também que existe aquele monólogo que não leremos para ninguém, pois é importante termos mistérios na frente do nosso parceiro de cena: o que ele chama de “monólogo interior misterioso”. É nesse último que iremos expor as nossas essências mais indecentes, sexuais, monstruosas; e isso será o nosso motor de jogo, a nossa paisagem. Por que o personagem quer tal coisa? Por que ele tem sede de tal coisa? Por que ele sempre quer essa tal coisa mesmo que seja difícil de se adquirir? Seria tentando responder a essas perguntas que construiríamos o corpo interior do personagem, a matéria, pois nem tudo está presente no texto. Daríamos profundidade às entrelinhas, ao que não é dito, pois o homem é o lugar em que combatem duas forças antagônicas: ele pode estar dizendo alguma coisa e sendo atravessado por outra. Foi aí que eu decidi me arriscar na leitura do fluxo do meu pensamento de dois minutos que ele tinha pedido, com a certeza de que eu tinha visitado o lugar mais profundo do meu ser:

Os meus olhos penam para abrir. Tudo o que eu quero é deitar na cama e fechá-los de novo e esse barulho de obra misturado com o latido de um cachorro me faz pensar que não sei exatamente onde estou e é uma mistura de cidade grande com interior.”

Acabada a leitura: silêncio. Normalmente Lupa pedia para ler o monólogo duas vezes, uma de forma lenta para a tradução e outra da maneira e do ritmo com que ele tinha nos surgido na hora da sua realização. Porém, no meu caso, ele me disse apenas que o que eu tinha escrito era literatura e não monólogo interior. Fiquei arrasado. Como eu podia ter fugido de mim mesmo a tal ponto de não escrever nada sobre o que realmente estava se passando dentro de mim naquele momento? Eu, que havia previamente passado um pouco pela experiência desse monólogo interior. Qual a diferença entre escrever sobre o que nos atravessa e escrever, colocar no papel, o que realmente nos atravessa?

Segundo ele, durante esses dois minutos, devemos filtrar o que se passa ao nosso redor e escrever o que realmente se passa dentro de nós. Escrever “Nesse momento vejo uma plaquinha escrito reservado.” é diferente de escrever “Oh! Aqui está escrito reservado”. A intenção é a de se aproximar cada vez mais dos pensamentos que estão acumulados de forma autêntica e assim poderemos ter monólogos que construirão a viagem dos pensamentos do personagem. E cada um deles aparece com a sua própria literatura. A questão não é escrever sobre o que você sabe, mas sim deixar surgir o desconhecido. A questão não é se perguntar como eu devo atuar em cena, mas qual é o fluxo do pensamento do personagem que permite ao meu corpo se movimentar. Como ele próprio diz: “o corpo é a dança dos pensamentos”. A literatura não é útil para o ator. Só quando você encontra o que há debaixo dela é que você encontra a vida. E o monólogo é uma das ferramentas para isso.

Depois desse discurso sobre monólogo interior e paisagem, Lupa nos dá as diretrizes a serem seguidas para a realização das improvisações que seriam feitas ao longo da semana. A situação seria a seguinte: eu e o meu parceiro (que é sorteado previamente) tínhamos uma relação, mas por algum motivo tivemos que nos separar por muitos anos. O momento da improvisação será o momento do reencontro. Ele nos pede, primeiramente, para escrevermos sobre o que está acontecendo dentro de nós e em seguida de construir um personagem; devemos escolher uma situação interior onde estamos em perigo, mas não necessariamente revelaremos qual é esse perigo no momento da improvisação, mesmo que precisemos da ajuda do outro. Em seguida, ele nos pede para escrever algo que não precisa ter forma de um monólogo interior (como uma carta que não foi entregue, por exemplo) contendo tudo o que vivemos e a razão pela qual nos separamos. Além disso, temos a possibilidade de decidir com o parceiro sorteado, através de três mensagens de texto cada, qual foi a história vivida. A partir do momento em que ela seria estabelecida, poderíamos nos enviar inúmeros SMS como se fossemos os personagens. Poderíamos nos escrever para marcar o dia e o local do encontro, para nos falarmos, nos agredirmos, trocarmos mensagens de amor, etc.

Dada a largada, eu me lancei na escrita de diferentes “monólogos interiores”, me servindo do que Lupa tinha dito em relação ao exercício anterior. Ia deixando fluir os meus pensamentos mais profundos transcrevendo-os para o papel. Quando minha parceira e eu decidimos qual seria a nossa história, fui introduzindo-a aos meus escritos. Conforme a nossa história ia evoluindo, graças às mensagens de texto que íamos nos enviando, os monólogos e consequentemente os personagens iam ganhando corpo. No dia seguinte, como todos os outros dias anteriores, começamos a sessão contando as dificuldades que tínhamos encontrado ao longo da redação dos monólogos e dizendo como estávamos procedendo para a escrita deles. Dessa vez eu estava contente com o que escrevia. Eu me entregava cada vez mais, indo cada vez mais longe no abandono do pensamento inteligente. Esquecia cada vez mais a exigência do início e escrevia o que não sabia.

Como diz o próprio Lupa, “o fato de escrever provoca o pensamento e o coloca em movimento”. Aqui, falo do fluxo do pensamento e não do pensamento inteligente citado mais acima, pois escrever um monólogo interior se trata de não pensar, de deixar o pensamento livre para caminhar sozinho. E o fato de colocar esse pensamento em movimento nos faz criar camadas que vão nos levar a não necessariamente mostrar o afeto perante algo, mas a proteger os fragmentos dos quais são construídos os personagens. O que cria toda a profundidade e o mistério é o passado, a história que cada um carrega dentro de si – a paisagem, como ele chama. Assim criamos uma osmose entre o personagem e o ator até o momento em que o personagem o devora. Não estou falando aqui da má interpretação de Stanislavski, na qual atuar é ser. A questão é ir nas áreas mais profundas do personagem e, quase como um médico legista, dissecá-lo para descobrir seus inúmeros fragmentos. A questão é deixar o fluxo do pensamento rolar e abandonar cada vez mais o pensamento inteligente que nos diz como atuar, em que tom, com que voz e qual corpo usar. Lupa diz: “o personagem deve pensar o que o autor não escreveu”.

Começam as improvisações e com elas começamos o trabalho de observação e dissecação dos personagens que vão aparecendo diante dos nossos olhos. Os únicos materiais que os atores possuem são os seus monólogos interiores e as suas paisagens, seus passados. Quando a cena terminava, Lupa nos dava a palavra para que tentássemos realizar esse trabalho. Tentávamos descobrir o que tinha acontecido entre os dois personagens. por que eles tinham se separado? Será que os dois estavam afim de retomar uma relação? Quais eram os atos ou falas que nos davam indícios necessários para atingirmos o núcleo do conflito? A questão ali não era julgar o trabalho de interpretação dos atores, mas sim avaliar o quão detalhada tinha sido a construção de suas paisagens, o que faria o personagem se tornar mais consistente. Nós não sabíamos quando faríamos a improvisação, pois a passagem das duplas era sorteada no próprio dia. Então, quanto mais o tempo passava mais tínhamos a possibilidade de escrever monólogos interiores, alimentando as paisagens e assim dando uma maior consistência ao personagem. Eu tive a chance (ou o azar, pois o nível de exigência ia aumentando, evidentemente) de fazer a minha improvisação no penúltimo dia de workshop. Tinha escrito uns cinco monólogos, cada um mais longo do que o outro. O que, segundo Lupa, é muito bom, pois conforme entramos no caminho do “monólogo interior”, seguimos os impulsos mais loucos e escrevemos monólogos diferentes para usá-los, todos, nas improvisações.

Lanço-me então na cena. Claro que no começo nos observamos, tentamos descobrir um pouco do segredo do outro e às vezes escolhemos um caminho muito inteligente que não funciona, é claro. Mas chega uma hora em que somos surpreendidos pela nossa paisagem e o corpo e a fala fluem sozinhos como expressão de algo que está muito mais profundo. Chega o momento em que a cena dá uma reviravolta sem que você perceba e temos a sensação de que estamos vivendo, existindo. Por alguns momentos tive a impressão de atingir a verdade do personagem, verdade essa que era a minha também. Acabada a improvisação, chega o momento da dissecação.

Gostaria de expor aqui tudo o que foi dito, mas como não é possível transcrever a cena, vou apenas dizer uma das coisas que o Lupa disse, com o risco de me repetir: “Algo começa a falar dentro de mim, sem o controle do pensamento. Os monólogos descobrem coisas que nós mesmos não descobriríamos nunca. Nem o diretor, nem o ator que executa exatamente o que é pedido, vão encontrar esse caminho que o monólogo encontra.” Depois dessas observações nós lemos os nossos monólogos, como era feito sempre, e gostaria de dividir o que eu escrevi. Pode ser que não faça sentido também, pois ele fala muito do que foi construído com a minha parceira de cena, mas ao menos poderemos compará-lo com aquele primeiro que não chegou nem perto do que seriam os meus pensamentos naquele momento.

“Essa separação acabou comigo. Nós fazíamos tudo juntos. Como era bom estar com você. Por que tudo mudou? Por que você começou a se tornar essa pessoa fútil e leviana que você é? Eu comecei a ser um qualquer na sua vida. E os meus finais de semana… sim! Eu os usava para me perder nas festas, me perder nas pessoas… e daí? No fundo eu sabia que era para te atacar. Você mudou o seu jeito de ser. Me deixava sozinho, deixava de sair comigo. Foi o quê? Deixei de ser interessante para você? Que bom que eu tinha outros amigos, que bom que eu fazia festas com eles em casa. Qual o problema? Você não estava e o apartamento também era a minha casa. Mas sabe de uma coisa? Tenho saudades de antes. Tenho saudades do tempo em que passávamos juntos nos divertindo nos restaurante que íamos. Uma pena termos acabado com tudo isso. Será que é o momento de retomar tudo? Será que eu tenho que pedir desculpas pelo o que eu falei de você? Não sei. Só sei que estou com uma vontade imensa de te ver…”

No último dia aconteceram outras improvisações e outras dissecações cada vez mais precisas. Os espaços escolhidos pelos participantes eram cada vez mais a serviço da situação, pois dependendo do lugar os corpos eram mais ou menos aproximados, tornando a relação entre eles mais ou menos difícil. E vai ser num espaço amplo, porém com corpos bastante aproximados que o workshop chegará a seu fim. Como o próprio Lupa disse, tudo o que nós experimentamos nesse período, o monólogo interior e a construção de uma paisagem, é apenas um dos muitos outros caminhos para não deixar com que o nosso trabalho de ator, ou diretor, seja apenas a reprodução mais ou menos bem feita da realidade. O que queremos é construir o mistério das relações, tratar o que não foi escrito pelos autores, criar profundezas, possibilidades. “E, como uma semente, nós podemos regar isso tudo, até que cresça e vire uma bela árvore, e continuar regando para que ela não morra. Mas também podemos parar de regá-la e isso vai ser apenas algo que passou pelo caminho de cada um.”

O que eu sei é que tenho certeza que o meu trabalho de ator nunca mais será o mesmo depois dessa experiência. Foi muito agradável poder pensar o personagem e o seu fluxo de pensamentos de outra forma e não ter medo de se deixar levar pelas suas profundezas. Muitas vezes a nossa formação de ator nos limita a uma camada muito superficial do trabalho e esse workshop me permitiu ir um pouco além. Agradeço muito ao Lupa e à sua equipe, à sua tradutora Aleksandra Pluta que fez um super trabalho, a toda a equipe da MITsp por ter feito com que esse workshop acontecesse, aos meus colegas incríveis que fizeram com que essa semana fosse ainda mais agradável, formando um super grupo e à Questão de Crítica pelo convite de escrever esse texto que me permitiu reviver isso tudo de alguma forma.

Nota

[i] Há uma entrevista com o Krystian Lupa feita por Béatrice Picon-Vallin e Jean-Pierre Thibaudat no documento cartografias publicado no site da MITsp http://mitsp.org/2018/publicacoes/

 

Carlos Carretoni inicia a sua formação de ator no teatro O Tablado passando pela UNIRIO e UFRJ. Aos 20 anos ele se muda para Paris e continua seus estudos em Artes Cênicas na universidade Paris 8. Mais tarde, integra o conservatório do 5° arrondissement, onde segue uma formação por três anos. Após a sua conclusão, Carlos atua em peças como As noites brancas de Dostoievski, que coadapta para as ficções radiofônicas de France Culture e participa de festivais como o Festival d’Automne de Paris e o Festival d’Avignon em colaboração com o coletivo belga Tg Stan. 

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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