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Com outro público

Crítica da peça Fome, o musical – Do broto ao bacon everybody rocks

18 de agosto de 2017 Críticas
Paulo Tiefenthaler. Foto: Maurício Martins.
Paulo Tiefenthaler. Foto: Maurício Martins.

Em cartaz no Teatro Poeira, a peça Fome, o musical – Do broto ao bacon everybody rocks é das melhores coisas em cartaz no Rio de Janeiro. Faço essa observação com assumido cinismo, afinal, não vi nem metade do que está em cartaz na cidade e no momento em que escrevo esse texto estou há mais de 10 dias fora do país. Mas o caso é que o espetáculo de Paulo Tiefenthaler é fora de série, no sentido literal da expressão. Ele não se encaixa em nenhuma categoria prévia e só isso já vale a ida ao teatro.

O “musical” do título é como uma provocação, mesmo que não seja essa a intenção. Por mais diversa que seja a presença da música no teatro carioca, e inclusive no teatro de pesquisa de linguagem do Rio, quando uma peça coloca essa palavra no título, somos levados, por um instante, a pensar nos enlatados Broadway wannabe. Soma-se a isso o choque com a palavra fome, que pode ser tomada com peso de problema social, mesmo quando esta não é a questão. Nada está em paz nesse título meio cretino, ou seja, a coisa já começa bem. Além do apresentador-crooner, os músicos-performers Daniel Castanheira e Bernardo Pauleira dão um tom de rock bem humorado ao preparo da comida.

Diante da atual enxurrada de programas de TV voltados para a culinária, é curioso ver uma versão desse formato para o teatro. A peça, com vídeos documentais e comentários sobre digestão que jamais entrariam nos roteiros assépticos do GNT, não deixa de ser uma espécie de paródia. Mas a versão teatral reinventa a proposta porque no final da peça os espectadores podem de fato comer o que estava sendo preparado, podem ter uma experiência daquela comida, o que torna o formato mais coerente e autêntico no teatro que na TV. E não é só a cancha e o sucesso de Larica Total (programa que Paulo Tiefenthaler apresentava no Canal Brasil) que dão suporte para esse trânsito, mas uma inteligência cênica específica do ator, que criou uma linguagem que corresponde à sua índole artística, que permite que ele abuse da qualidade de presença que é característica do seu trabalho.

Além da comida servida ser muito boa, a peça consegue estabelecer uma rara relação de convívio com o espectador. Para além da ação óbvia da partilha dos alimentos, um território confortável para a interação, há uma destreza singular na atitude, no modo como o ator se relaciona com os espectadores, deixando espaço livre para quem quer interagir e para quem quer ficar na sua. E me pareceu especialmente interessante a atmosfera de descontração criada no Teatro Poeira, um espaço cujo público guarda uma certa formalidade. A peça recebe os espectadores, como alguém recebe amigos para o jantar. Fome, o musical ainda conta com participações especiais de chefs convidados a cada apresentação, o que poderia ser um mera jogada de marketing, mas que se encaixa perfeitamente na proposta do espetáculo, funcionando na chave certa da atitude de “receber” convidados-espectadores.

É provável que a peça esteja atraindo um outro público ao teatro. Penso que existe um desencontro imenso entre o teatro contemporâneo e o seu público. Em diferentes situações, percebo que o público mais tradicional não se conecta com o que tem de mais interessante na cena carioca porque vai ao teatro com expectativas engessadas. E percebo que há peças que estão conseguindo atrair outros espectadores, que não vão ver qualquer coisa no teatro, que não vão gostar de qualquer coisa no teatro – e é bom que seja assim. Teatro não é tudo igual, então público de teatro também não é tudo igual. Fome, o musical é um exemplo disso. É uma ótima oportunidade para quem acha que não gosta de teatro entender que existem noções muito diferentes de teatro dentro do teatro.

Daniele Avila Small é doutoranda em Artes Cênicas pela UNIRIO. Editora da revista eletrônica Questão de Crítica, autora do livro O crítico ignorante – uma negociação teórica meio complicada (7Letras, 2015) e da peça Garras curvas e um canto sedutor (Cobogó, 2015). Dirigiu em 2017 a peça Há mais futuro que passado – um documentário de ficção. É presidente da seção brasileira da Associação Internacional de Críticos de Teatro (AICT-IATC) e coordena a seção brasileira do site internacional de teatro The Theatre Times.

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