Imagens documentadas de um urro!

Crítica da peça Cabeça (Um documentário cênico)

14 de fevereiro de 2017 Críticas

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A imagem da capa do disco Cabeça Dinossauro dos Titãs de 1986, a mesma do programa da peça aqui discutida, é a de um homem urrando inspirada num estudo de uma gravura de Leonardo da Vinci, conhecido pintor do Renascimento. A imagem de uma cabeça que urra reforça a ideia de um disco em que o título Cabeça Dinossauro evoca uma força de resistência dos Titãs diante da caretice e do moralismo de uma sociedade que, apesar do recente fim da ditadura militar, ainda se ancorava em princípios reguladores ultrapassados.

30 anos depois, Felipe Vidal constrói o espetáculo “Cabeça – um documentário cênico”, que é uma homenagem ao disco e ao mesmo tempo uma reflexão poética, documental e afetiva sobre a criação do álbum e a sua reverberação histórica. Álbum é uma palavra que cabe bem aqui, uma vez que cada música se torna, na peça, uma imagem poética na qual o espetáculo vai refletir sobre os desdobramentos de ideias presentes no disco dos Titãs.

Foto: Ricardo Brajterman.
Foto: Ricardo Brajterman.

O desafio lançado é em duas direções: o de relatar uma espécie de recepção do disco via documentário (entendido como reflexão-montagem de relatos) e o de apresentar o vigor das músicas e das letras em um espetáculo que também não deixa de ser um show de rock. Daí decorre algo inesperado, a junção de duas culturas num mesmo espetáculo: a do entretenimento, via show, e a de pesquisa acadêmica teatral, via investigação historiográfica do teatro documental.

Esse interessante jogo cênico potencializa a peça ao armar o documentário num palco que é show. O espaço do tablado assumido como tribuna, no sentido brechtiano, intensifica o lugar de um teatro que se coloca publicamente como ação política. Aqui, ação não deixa de ser reflexão. Mas isso se faz sem a secura dos métodos teatrais e do academicismo retórico de algumas pesquisas cênicas. Explico melhor: a ideia de ser um documentário cênico não é um apoio acadêmico à peça. O documentário surge ali com o nível de fluência das músicas e se mistura à produção de textos ficcionais que mesclam jogos de palavras e cenas de extremo lirismo.

Sobre o tratamento do documentário deve-se dizer que a montagem mescla testemunhos gravados apenas com voz, imagens filmadas, depoimentos dos atores e leituras de blogs no palco. Produz-se um jogo vivo com o próprio arquivo dando a essa variação de textos e de imagens uma coloratura rica. Ou seja, o depoimento de um senhor sobre o disco, as audiogravações de testemunhos sobre rock e música de protesto, as imagens da pregação de Jimmy Swaggart e da cantora gospel Ana Paula Valadão surgem ali criando um ensaio crítico sobre o presente e não como mera citação documental. Tais imagens edificam uma reflexão polissêmica e artística sobre a reverberação do disco, mas, fundamentalmente, sobre o tempo atual e o fato de em 2016 termos provado um retrocesso de nossa experiência democrática.

Foto: Ricardo Brajterman.
Foto: Ricardo Brajterman.

Junto a essa fina montagem, fina porque consegue experimentar a fluência de matérias tão díspares em uma colagem documental, a obra traz o mesmo urro de protesto do disco dos Titãs. Esse urro se vê na música “AA UU”, mas nos jogos metafóricos que o texto de Vidal provoca como na legenda “ode a Brecht” que forma uma imagem irônica ao aludir a empresa Odebrecht, alvo de vários escândalos que tem se reverberado na vida política brasileira atual.

No caso, essas imagens documentais de urro são portadoras de uma inteligibilidade iconoclasta que mostra o descontentamento com o status quo político e a intensa ligação que a igreja (Evangélica neopentencostal) tem construído com o poder público no Brasil. Ao testemunho do ator Guilherme Miranda sobre o pastor Jimmy Swaggart de levar em 1986 seus familiares ao maracanã, e o escândalo sexual do pastor e o seu pedido de perdão, somam-se, de modo crítico, no espetáculo, a fala histérica de Ana Paula Valadão em que se vê o projeto de poder de uma religião tomar conta de um Estado laico.

Sem ser um manifesto de verdades, com pretensões de doutrinamento moral, “Cabeça – um documentário cênico” é um urro ético sem respostas diante do anacronismo que a sociedade brasileira atual vem experimentando. Urra-se até porque não se vê uma possibilidade racional de respostas diante do mundo público que nos tem sido apresentado de modo achatado. Do ponto de vista formal, o espetáculo opera com a citação em um nível de fluência que é difícil de se conquistar. Os arquivos são vistos na peça com a destreza que um músico competente muda um acorde difícil para outro. Há aí um mérito do dramaturgo e do diretor Felipe Vidal, que se formou como dramaturgo dirigindo os melhores textos da dramaturgia contemporânea atual (Sarah Kane, Martin Crimp) e de sua equipe de atores-músicos-cantores que estão ocupando com presença o espaço cênico. Nesse espetáculo, Vidal nos mostra seu conhecimento dramatúrgico e cênico ao operar com fluidez uma proposta artística e conceitual de grande dificuldade. E como espectadores captamos o jogo reflexivo de sua análise social pela ampliação de sentidos que um disco produziu e continua produzindo na cultura brasileira.


João Cícero Bezerra é crítico e teórico de arte e teatro, dramaturgo e escritor. Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO, é Mestre em Artes Cênicas pela mesma instituição e Doutor em História Social da Cultura pela PUC-Rio. De 2008 a 2015, lecionou Estética e História da Arte no bacharelado de Artes Visuais do Senai-Cetiqt. Leciona no Bacharelado de Teatro da CAL.

 

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