Nós amamos o centro e o centro nos ama     

24 de dezembro de 2015 Conversas

Vol. VIII n° 66 dezembro de 2015 :: Baixar edição completa em pdf

Resumo: o ensaio a seguir pretende dar visibilidade a algumas questões inter-relacionadas: políticas para urbanidade e cidadania, administração pública e programática sociocultural de equipamentos ociosos, e processos de interlocução social, a partir de episódio recente, ocorrido em novembro deste ano na cidade de São Paulo, em que um grupo teatral e um coletivo de ação social viveram uma espécie de sobreposição espaço-temporal no Vale do Anhangabaú.  Busca-se ampliar a discussão a respeito do episódio, pensando a cidade como palco para ações distintas, que não precisam necessariamente ser conflitantes.

Palavras chaves: A motosserra perfumada; Ateliê Compartilhado TM13, Vale do Anhangabaú, heterotopias, administração pública, São Paulo.

Abstract: the following essay intend to give visibility for some interrelated issues: policies to citizenship, public administration and socio-cultural programmatic of idle equipment , and processes of social dialogue , since aspects of a recent episode , which took place in November this year in the city of São Paulo, envolving a theater group and a collective social action in a kind of spatial and temporal overlap in the Valley of Anhangabaú . The aim is to broaden the discussion about the episode, thinking the city as stage for various actions, which need not be conflicting.

Key-words: A motosserra perfumada; Ateliê Compartilhado TM13, Vale do Anhangabaú, heterotopias, public administration, São Paulo.

 

São Paulo, dezenove de novembro de 2015: entre 12h30 e 14h30 estive conversando com lideranças do Ateliê Compartilhado TM13, todos sentamos na praça ampla do Vale do Anhangabaú. Perguntava à Carla Pena e Kevin Aguero, duas lideranças do coletivo, sobre o histórico de atuação na região, e mais especificamente a respeito do episódio de ocupação das áreas do subterrâneo do Teatro Municipal – assumida publicamente por eles em redes sociais. Entre outras coisas, a dupla me contou a respeito das atividades de cunho sociocultural que oferece a adolescentes e jovens em situação de risco, sobre a ocupação realizada anteriormente (do espaço onde, não sei em que condições, funciona a Escola Municipal de Bailados) e sobre estarem inseridos em ações no Vale com a parceria de outros cem coletivos – a maioria formada por artistas e ativistas das bordas da cidade – há mais de uma década. Havia marcado esta conversa via facebook (desde o início chamei de conversa, e não de entrevista, apesar de me identificar como jornalista) e avisei sobre meu interesse em ouvi-los. Até aquele encontro, nós não nos conhecíamos. Pedro Paulo Rocha, artista e ativista da performance, também participou da conversa. Conheço Pedro há quinze anos – quando ainda éramos estudantes de comunicação social e participávamos de movimentos estudantis e intervenções urbanas num mesmo agrupamento de artistas e estudantes, em Bauru, interior de São Paulo. Com a presença e alguma mediação dele – (que iniciou há pouco um processo de laboratório social performático com o TM13), consegui estabelecer bases para uma conversa com os demais e que, apesar de truncada por eventos tumultuados que ocorriam a todo momento em nosso entorno,  teve proximidade suficiente para que eu conseguisse de fato escutá-los, e chamá-los para uma situação recíproca. Não sei se consegui a reciprocidade.

Na véspera, dia dezoito de novembro, estive com integrantes do grupo de teatro A Motosserra Perfumada por conta do mesmo assunto. Eles ocupavam o subterrâneo do Teatro Municipal – em acordo de cessão de espaço firmado com administradores da Subprefeitura da Sé, no qual o grupo era responsável pela manutenção e infraestrutura necessárias para realização de temporada aberta em onze de novembro da peça Aquilo que me arrancaram foi a única coisa que me restou. Uma semana após a estreia já haviam retirado materiais de trabalho (objetos de cena, equipamentos locados de som e luz, figurinos, etc.) do equipamento público, e cancelado a continuidade da ação, prevista para seguir até meados de dezembro, com apresentações semanais, cobrança de ingressos a preços populares e funcionamento simultâneo de um pequeno bar no mesmo local. O bar servia como uma segunda fonte de arrecadação, além da bilheteria, para cobertura de custos decorrentes da temporada, que não tinha nenhum patrocínio direto ou indireto.

Conversamos em uma roda, sentados em mesa de plástico em frente a uma padaria do bairro Santa Cecília, região central de São Paulo. Estiveram comigo Biaggio Pecorelli (diretor e dramaturgo do grupo), o ator Bruno Caetano, e os músicos Jonnata Doll e Edson Van Gogh (que também integram elenco da peça). Foram cerca de três horas esmiuçando o assunto, tentando entender as circunstâncias que resultaram no abandono do subterrâneo. Segundo Biaggio, decidiu-se por deixar o espaço após verificar que a ação do outro coletivo havia deixado um cenário de destruição, com a violação de material cênico, furto de dinheiro do caixa do bar, sumiço de objetos, e a consequente sinalização de desrespeito ao que estava em andamento. Daí um sentimento geral do grupo de impossibilidade para compartilharem um mesmo espaço, e criarem meios para ação artística em comum com o TM13.  Dentre os integrantes do grupo, eu apenas conhecia Bruno Caetano, parceiro profissional e amigo – com quem trabalhei em três ocasiões e contextos diferentes, desde 2013. Não assisti à peça (até a data de revisão deste ensaio). Durante a conversa, tentei estabelecer ambiente para escuta recíproca, priorizando aspectos do episódio que eu não conseguia até então entender – e que culminaram na interrupção da temporada da peça. Acho que consegui alguma reciprocidade.

Poucos dias antes destes dois encontros, entre a madrugada do dia catorze e o dia quinze de novembro, a área cedida pela Subprefeitura da Sé ao A Motosserra, foi palco para uma espécie de sobreposição de ocupações, com a entrada do TM13 no mesmo subterrâneo onde acontecia temporada teatral. Este episódio poderia ter resultado no encontro entre perspectivas de trabalho, ou poderia ter gerado modos de atuar conjuntos – visto que há interesses em comum aos dois grupos, e condições precárias para ambos estabelecerem espacialidade ao que realizam. Diversamente, se direcionou para um conflito pautado em diferenças e, mais tristemente, para uma situação de incomunicabilidade. Meu entendimento é de que os ruídos começam quando a comunicação entre as partes é precedida da ação de reocupação do local e, sobretudo, porque há sinais físicos de desinteresse em localizar o(a) outro(a) como sujeito, seus pontos de partida, historicamente e afetivamente. Descolar alguém de sua história e afetividade, em grande medida, é negar a existência dele(a). Como coexistir a partir da negação das diferenças e alteridades?

Por outro lado, acredito que houve inabilidade por parte do grupo teatral em realizar leitura mais ampla dos acontecimentos. A dificuldade se dá porque, primeiramente, valorizam uma pertinência ao espaço que é frágil – apoiada  em termo de cessão que acredito, é bastante lacunar, e que não explicita meandros sobre as responsabilidades das partes, as funções não estão muito definidas, e que responsabilizam o grupo por quase tudo, sem garantias ou apoios públicos para estarem ali, em tal espaço. E esta leitura também deriva do pouco entendimento de aspectos deste(a) outro(a) – o TM13 – histórica e afetivamente, ali no Vale do Anhangabaú.

Para além das dificuldades recíprocas de reconhecimento de seu(sua) outro(a), paira a silenciosa omissão do ator responsável tanto por administrar o espaço, enquanto materialidade, como também por ser a instância democraticamente legitimada para mediar convergências e divergências de ação sociocultural, quando inseridas no espaço público. Onde estiveram os possíveis interlocutores da Subprefeitura da Sé, ou outros atores igualmente legitimados para realizar o próprio papel? Não se trata de um duelo entre grupos diferentes de uma mesma cidade. Há uma tríade para agir conjuntamente que está manca, porque incompleta. Esta conta não há de fechar quando o que deveria ser um trio se transforma em duelo entre dois grupos que poderiam, por uma série de compatibilidades, estarem parceiros num mesmo espaço público – ou minimamente, não se sobreporem em tempo/espaço.

Minha intenção é fazer, a partir das escutas, este ensaio ser uma espécie de palco para algumas reflexões a partir deste acontecimento tumultuado. O acontecimento pontua antagonismos de difícil entendimento, porque o cenário é amplo, o centro da cidade de São Paulo. Vamos lá.

São Paulo, novembro de 2015: centro nervoso (como bem apelidou o escritor Fernando Bonassi, em peça homônima de sua autoria). Ruas emporcalhadas de lixo, calor insuportável de uma primavera que anuncia um verão para o qual não temos sombras suficientes sob as quais suportá-lo. Veículos particulares circulando por artérias estreitas demais de uma área antiga demais para suportar tamanho tráfego. Ônibus dançam o impossível para ligar bairros ao coração cansado de uma vila gigantesca – aquela cruzada em sua fundação por Anchieta e seus séquitos, durante largas cruzadas teatrais. Cidades invisíveis de moradores de rua, dormitórios a céu aberto nas calçadas e praças da região, dia e noite. Cheiro de urina evapora de cantos e quinas dos velhos edifícios (edifícios históricos?) e das raízes das poucas árvores remanescentes no local. Os banheiros públicos são poucos, são químicos, quando há, ou estão dentro de shoppings e centros de compra para quem compra. O vapor de urina se mistura à emissão radicalmente descontrolada de gás carbônico, respira-se pesadamente. Se Iracema de Adoniran Barbosa atravessou na contramão há décadas, hoje perdemos a mão, partes de um corpo; há algo de mutilado neste corpo, e seu centro, músculo cardíaco, quando crianças e adolescentes brincam lado a lado à circulação mais ou menos livre do crack, ou são adultos precoces em praça aberta. Desempregados despacham documentos em repartições públicas. Gente sem lenço e sem documento emite seus primeiros documentos, números, códigos para identidades impressas. Desvalidos anunciam finais para o mundo, pregam aos poucos ventos, espectadores imaginários. Trabalhadores empregados procuram onde almoçar sob um sol violento que escalda a antiga Piratininga – e que, de indígena, conservou apenas o nome do velho Vale. Este cenário já esteve bastante pior. Dez anos atrás dificilmente uma mulher caminharia sozinha e tranquilamente por esta região, como eu caminhei. Hostil, mas habitável. E ainda belo. Há belezas pequenas, detalhes de arquitetura, crianças árabes caminhando com suas mães recobertas por véus passam em frente à antiga loja de um comerciante judeu. Um casal se beija apaixonadamente entre a música aflitiva dos veículos. Outras belezas exuberantes, altas copas de árvores centenárias, o edifício do Municipal, prédios modernistas em meio ao caos. E um céu espetacularmente anil de novembro.

Eu me furto por instantes, após dois dias intensos, longas conversas com integrantes de A Motosserra e do TM13, emoções afloradas em ambos os lados, meus esforços às vezes árduos por escutas delicadas, e começo a lembrar e pensar em voz alta sobre as lições legadas por Jacques Lacan em sua libertária psicanálise – a ciência e arte da escuta – enquanto Pedro Rocha caminha comigo, e quase rebate minha fala com pontos da Esquizoanálise – abordagem psicanalítica que emprega em dinâmicas de trabalho e performance junto a integrantes do segundo coletivo. Diferentes perspectivas, dentro um campo comum do conhecimento… As diferenças não me assustam, nem me paralisam ou afastam (sobre violências não afirmo o mesmo). Seguimos a conversa quase aos berros, estamos competindo em desigualdade absoluta com a estridência de buzinas, infernais anúncios de promoções relâmpagos, ruídos de escapamentos velhos, freadas dos coletivos lotados. Em poucos minutos chegamos ao tema do feminismo no Brasil, e daí inicia uma tensão – talvez de gêneros, talvez histórica, talvez menor que isto – quebrada em seguida por ele, que após algumas provocações, me diz entre um largo sorriso pacificador: “isto aqui é uma cena para um filme do Glauber Rocha”. Voltamos, então, ao tema da psicanálise, e eu digo que ela devia ser serviço gratuito oferecido pelo SUS, se quisermos falar em saúde pública democrática algum dia no Brasil. Me despeço dele, um dos filhos do cineasta bahiano, e tento ver a câmera imaginária de Glauber que captaria nossos diálogos, as passadas largas nas calçadas abarrotadas de gente que aguarda ônibus, que vende eletrônicos, que delira apocalipses, todas estas simultaneidades típicas do Anhangabaú, do centro de São Paulo, e já estamos longe da Praça Ramos. Termino a etapa de interlocuções sobre os acontecimentos que se deram no subterrâneo do Municipal, e sigo de volta à Santa Cecília, para escrever este texto que poderia ser uma reportagem, mas não é.

O episódio me remete às questões de simultaneidades, justas e sobreposições, ruídos e conflitos, espaços de dentro e fora – e, ainda, sobre ações de difícil compreensão, porque apontam para ausência de instâncias do poder público, gestores e programadores socioculturais – em diálogos urgentemente necessários para um centro que amamos e nos ama[1]. Para tentar desenrolar novelos destas tramas reais, demasiadamente reais, sobre espaços complexos ao extremo, peço ajuda ao legado do filósofo francês Michel Foucault. Não conseguiria completamente sozinha. Desde que soube dos eventos bastante agressivos que envolveram as ocupações do subterrâneo, as discussões sobre heterotopia não me abandonavam. Acredito que elas são capazes de revelar aspectos importantes, porque propõem pontos nevrálgicos sobre modos tão divergentes, que se tornam concorrentes, para a ocupação de espaços públicos em comum.

Dentro deste palco pequeno e breve, texto bidimensional para leitura em tela, algumas pinceladas de noções e reflexões que podem contribuir para um debate já deflagrado.

Cabe esclarecer de onde venho ou parto, e que minha pesquisa em teatro e performance é mais direcionada ao que o crítico francês chama de “espaços de dentro”, próprios aos âmbitos dos estudos da fenomenologia, sem, no entanto, desconsiderar a noção de heterotopia. Conforme Foucault:

O trabalho monumental de Bachelard, as descrições dos fenomenologistas nos ensinaram que não vivemos em um espaço vazio e homogêneo, mas, pelo contrário, em um espaço completamente investido de qualidades e mesmo frequentemente atormentado por fantasmas; o espaço de nossa percepção primária, o espaço de nossos sonhos, aquele de nossas paixões inclui dentro deles mesmos qualidades que parecem intrínsecas; é um espaço volúvel, etéreo, transparente, ou novamente um espaço escuro, rústico, carregado: um espaço das alturas, dos cumes, ou pelo contrário um espaço do baixo, um espaço da lama, é um espaço que pode ser veloz como a água, ou um espaço que pode ser fixo, como a pedra ou como o cristal. Ainda que fundamentais para a reflexão contemporânea, estas análises se referem sobretudo a um espaço “do dentro[2].

As heterotopias, segundo Foucault, dizem respeito aos espaços “de fora” – não em oposição aos “de dentro”, mas como categorias distintas e complementares.

Neste caso específico vejo atravessamento do que é considerado “dentro” e “fora”, ou a impossibilidade de excluir uma esfera da outra. Porque, por um lado, trata-se de equipamento público, administrado (sob certas regras, condições e termos) por gestores de uma Subprefeitura, que deveria ser responsável por sua manutenção (limpeza, infraestruturas de abastecimento de água e luz, conservação predial), preservação (considerando que é um anexo de edifício histórico, o Teatro Municipal de São Paulo, e igualmente um equipamento com potencialidade para ação sociocultural), por medidas seletivas de disponibilização ou cessão a outras instituições e grupos interessados em geral (já que se encontra ocioso, sem funções específicas, que poderiam ser determinadas por ações programáticas regulares ou pontuais organizadas pela própria administração municipal).

Mas, por outro lado, este mesmo subterrâneo anexo ao museu e ao teatro, tem qualidades particularmente fantasmagóricas, foi palco para acontecimentos artísticos e embates políticos do passado, traz traços arquitetônicos e subjetivos daquilo que já foi. E está inserido em região de atuação de coletivos e movimentos sociais, como também de festas, carnavais, eventos privados de grande porte, especulação imobiliária, etc… É centro e alvo de vetores, de forças e modos de atuação completamente distintos, de interesses conflitantes. Ignorar suas qualidades contraditórias, de um “dentro”, assim como negar também suas qualidades territoriais, características históricas e implicações sociais, e – mais ainda – não pensar no entrecruzamento destas esferas sobre sua territorialidade, como fatores que constituem este espaço, simplifica, e talvez impossibilita enxergá-lo em toda sua complexidade.

Como colabora para esta discussão, novamente Foucult e as heterotopias contemporâneas:

O espaço no qual vivemos, que nos conduz para fora de nós mesmos, no qual a erosão de nossas vidas, nosso tempo e nossa história acontecem, o espaço que agarra e nos ataca, é também em si mesmo um espaço heterogêneo. Em outras palavras, nós não vivemos em uma espécie de vazio dentro do qual poderíamos colocar indivíduos e coisas. Nós não vivemos dentro de um vazio que poderia ser colorido com diferentes gradações de luz, vivemos dentro de um conjunto de relações que definem sítios, que são irredutíveis uns aos outros e certamente não superponíveis uns aos outros.

De fato, a colocação de indivíduos e coisas em espaços com tais qualidades (aquelas que já descrevi desde o início do texto, e muitas outras nas quais não me deterei aqui) e potências é, para dizer o mínimo, abstrair-se das particularidades inerentes aos  processos de atuação para e com o coletivo urbano. É subestimar jogos de poderes intrínsecos às noções de ocupação (termo, aliás, que sugiro ser abolido dos jargões socioculturais nossos, porque, em si, traz a carga bélica, remonta às guerras por territorialidade datadas do período medieval, na Europa velha, e, provavelmente, não cabem em nossas tentativas de inventar esta porção de América de Sul). É, ainda, ignorar aspectos das demandas sociais, urgências e carências de toda ordem que rondam a espacialidade de um centro historicamente marcado por degradação de seus equipamentos públicos, das suas populações (as que moram nas calçadas, sobretudo), e regido por ações ainda tímidas, que vêm revertendo tal quadro. Tudo isto, e muito mais do que isto apresenta, constitui o espaço público do Anhangabaú.

Em carta publicada no dia 17 de novembro, em página que alimenta no facebook, o grupo A Motosserra Perfumada conta detalhes e sua visão sobre o ocorrido entre os dias 14 e 15 de novembro, neste que foi um embate por um mesmo espaço:

A ARTE DE OCUPAR O QUE JÁ ESTAVA OCUPADO

Carta aberta do grupo A MOTOSSERRA PERFUMADA a toda classe artística paulistana

Na manhã deste domingo, 15 de novembro de 2015, nós, d’A MOTOSSERRA PERFUMADA, fomos surpreendidos em nossa ocupação artística na passagem subterrânea da rua Xavier de Toledo, no Anhangabaú, por integrantes de um movimento de ocupação intitulado TM13 (?), que na madrugada da sexta pro sábado arrombaram os cadeados do local, entraram nos nossos camarins, roubaram dinheiro, quebraram objetos cênicos, espalharam figurinos, usaram indevidamente equipamentos de som e beberam toda a bebida que havíamos estocado para vender durante a temporada e angariar fundos para a RE-EXISTÊNCIA do nosso trabalho no local.

As chaves do túnel e do Museu do Theatro Municipal (MTM) nos foram confiadas pela Secretaria Municipal de Cultura e pela diretoria do Theatro Municipal, em trâmites absolutamente legais, em meados de outubro desse ano, para que implementássemos ali um projeto de ocupação/ativação do espaço público que estava até então ocioso. Este projeto se iniciava com a realização de uma temporada do espetáculo Aquilo que me arrancaram foi a única coisa que me restou, que estreou há pouco mais de uma semana no Centro Cultural São Paulo, durante a X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo. No subterrâneo, a temporada da peça iria até o início de dezembro, às quartas e quintas à noite, contando semanalmente com atrações musicais após o espetáculo.

A MOTOSSERRA PERFUMADA é um grupo de pesquisadores, artistas, poetas, atores, atrizes, rockeiros que desenvolve uma pesquisa teatral mesclando performance e rock’n’roll. Aquilo que me arrancaram foi a única coisa que me restou foi montado com incentivo do edital “ProAC – Primeiras Obras” no primeiro semestre de 2015. Após diversas tentativas frustradas de aprovação em novos editais para o financiamento da primeira temporada da peça em São Paulo, assumimos a posição POLÍTICA e ESTÉTICA de ir literalmente ao underground da cidade, realizando essa temporada na garra, sem edital nem patrocínio, por própria conta e risco.

Quando entramos naquele espaço há um mês não havia energia elétrica. Tudo estava empestado de ratos e baratas. As fechaduras estavam quebradas. As escadas que dão acesso ao local serviam apenas de banheiro público para os moradores de rua. Os ralos estavam entupidos. O cheiro de mijo e merda era impregnante. Nós transformamos, em menos de um mês, esse espaço em um espaço vivo, pulsante, atentos para não higienizar, para não varrer seus vestígios de podridão. Nós transformamos esse espaço em trincheira para uma peça radical, que traz à cena uma reflexão urgente sobre o patriarcado e sobre a construção do gênero masculino, fazendo desse subterrâneo um antro de desobediência poética, num embate necessário com a assepsia do teatro e da sociedade paulistana. Valmir Santos, em crítica publicada semana passada, saudou a encenação da peça, seu sentido anárquico, dizendo que A MOTOSSERRA “pisa firme a cena com consciência estética e crítica para reagir ao estado de abatimento que está no ar”.

Agora reparem na gravidade política da situação: não fomos desalojados por um poderoso grupo empresarial nem por uma truculenta política de Estado, movida por interesses da iniciativa privada que estende – todos nós sabemos – seus tentáculos diariamente sobre o espaço público. Não fomos desalojados por movimentos sociais de moradia –  quem dera. Não fomos assaltados por bandidos – quem dera. Fomos desalojados e assaltados por um grupo supostamente de esquerda, um grupo artístico.

O movimento de ocupação TM13 (?) errou e errou feio ao ocupar – e ocupar sem qualquer respeito aos sagrados objetos teatrais – um espaço que já estava ocupado artisticamente. Ignoraram ou quiseram ignorar o trabalho TEATRAL e AFETIVO que já estava sendo feito ali, inclusive com os moradores de rua do entorno. Não tiveram a sensibilidade de perceber sequer a posição estética e política d’A MOTOSSERRA, mesmo tendo alguns dos seus integrantes comparecido, traiçoeiramente, à sessão de quinta-feira da peça. Pelo visto, não entenderam nada.

Gostaríamos de deixar claro que nosso trabalho artístico em nada se opõe aos pleitos do pessoal do TM13 (?), pleitos mais que justos pela apropriação de espaços públicos em uma região como o Anhangabaú, que pertenceu, num passado remoto, aos SEUS, aos NOSSOS antepassados indígenas. Ao contrário. Acreditamos na mesma via de um ARTEVISMO, e levamos à cena com este espetáculo um poderoso veneno contra as hegemonias de classe, de gênero, de raça, confrontando com nossa voz e nossos corpos os discursos/práticas que, dentre outras filhadaputices, entregam a cidade ao domínio de poucos.

Não faltavam canais de interlocução possíveis, TM13 (?)… Que vacilo, bebê. Não conseguimos entender ainda porque um movimento que se diz tão sólido age de maneira tão rasa e juvenil. Não conversaram antes de invadir e nos roubar porque não quiseram, porque mais importa a demarcação dos seus territórios de poder do que a construção de uma cidade realmente aberta à diversidade de suas manifestações artísticas. Ao nos roubar, talvez pensem que se apoderam do que lhes foi historicamente expropriado, mas na verdade estão apenas provando que são ruins de mira, que em seu desespero político, disparam aleatoriamente.

Por questões de segurança, claro, retiramos do local todo o nosso equipamento. Consequentemente, nossa temporada no local está CANCELADA. Perdemos, além de tudo, o que arrecadaríamos (bilheteria e bar) para repor os gastos que tivemos com a adequação do espaço e com o aluguel de som e luz.

Aquilo que NOS arrancaram
foi a única coisa que
NOS restou

Um beijo pra vocês, TM13 (?)

EVOYEAH!

 

Não me interessa restringir às questões sobre os modos como foram concorrentes as chamadas “ocupações” destes dois grupos, espero colaborar para um aprofundamento, ou para alargar o que pertence apenas ao evento em si, e tirá-lo do ensimesmamento, ou do risco da simplificação. Faço tentativa de dar a ele a dimensão que, suponho, ele possui. Considerando tamanha complexidade de seus “foras” e “dentros”, o espaço do subterrâneo, e os acontecimentos que têm se dado nele, requeriam e continuarão requerendo a presença ativa daquele ator que, diferentemente destes que se atacaram reciprocamente por meio de gestos e palavras – é responsável legítimo (ou legitimado no sistema democrático no qual estamos inseridos) por estabelecer condições pacíficas e aptas às ações de diferentes abrangências e objetivos, mas igualmente públicas: gestores públicos.

Não houve, até o presente momento, participação da mesma Subprefeitura que administra, cede, e responde por este equipamento público, ou de qualquer outra instância do município, neste entrave. Dois dias depois, em carta resposta, também publicada em redes sociais (em página do grupo no facebook) o Ateliê Compartilhado TM13 se posiciona:

 

CARTA ABERTA

DIREITO DE RESPOSTA – MARCO DE RESISTÊNCIA

Nós, do Laboratório Compartilhado TM13 ocupamos às 00h da última sexta 13 de novembro, o Museu do Theatro Municipal. Frente  acusações recebidas pela Cia Motosserra Perfumada, esclarecemos:

  • Quanto a alegação de que foram subtraídos objetos, que a cenografia e figurinos foram danificados, esclarecemos que não procede. Há gravações que comprovam que, antes da saída dos integrantes da Cia Motosserra, os mesmos confirmam conosco que as coisas da Cia. estavam “nos conformes”. No mesmo dia, 15 de novembro os equipamentos da Cia estiveram na Casa Amarela durante o Festival Volume Morto, onde alguns integrantes da Cia participaram com bandas e produção do evento, portanto, não procede também que o equipamento foi danificado, pois foi perfeitamente utilizado no Festival.
  • O acesso da escadaria das Casas Bahia, não teve troca de cadeados, justamente para que a Cia pudesse adentrar ao Museu e retirar os pertences e, por que não, dialogar conosco – o que de fato aconteceu com o diretor Biaggio. Se quiséssemos nos “apropriar” dos bens alheios teríamos restringido o acesso total do espaço. Como somos focados na Luta com alvo definido – o poder público – não há por que danificar ou subtrair bens de outro grupo artístico.
  • Foi conversado entre nós e Biaggio que trabalharíamos juntos no espaço, que pelo fato de ser grande, possibilitava o trabalho conjunto, conforme as palavras do próprio Biaggio que ele só utilizaria a parte do túnel. Porém, optaram por se retirar do espaço por conta de não concordarmos com a cobrança de valores altos no espaço público.
  • Nosso alvo na ocupação são a Secretaria Municipal de Cultura e a Subprefeitura da Sé, que, desde a desocupação da Escola de Bailado do Theatro Municipal no ano passado (que voltou a ter utilidade pública após a nossa ocupação), se comprometeu a disponibilizar um espaço na região do Vale do Anhangabaú, para que os nossos coletivos que atuam a mais de 10 anos na região possam desenvolver suas atividades voltadas à população carente e de rua – promessa esta ainda não cumprida pelo poder público, que ao invés disso, aluga o espaço público sem conhecimento geral para grandes empresas da indústria cultural e outros grupos que utilizam o espaço para realizarem iniciativas com fins lucrativos. Tendo em vista esta situação e a pendência de respostas para conosco por parte do poder público, levantamos a ocupação em nossa área de atuação em um dos locais que poderiam ser direcionados a nós, segundo a promessa da prefeitura. O Museu foi escolhido ainda, por conta de, como já citamos, ser direcionado a um grupo que não tem representatividade na Região, que aguarda o cumprimento da promessa da prefeitura e o espaço que abrigará os coletivos atuantes do Vale do Anhangabaú.
  • Após 6 dias de resistência no espaço do Museu, o IOPE mais uma vez retirou nossos artistas que ocupavam o local, após repercussão na imprensa e nas redes sociais, da nova ocupação. Porém, estamos acampados no Vale por tempo indeterminado, dando sequência as atividades que vinham sendo desenvolvidas no Museu. Estamos aguardando a Sub-Prefeitura da Sé e a Secretaria Municipal de Cultura para a continuidade da negociação acerca do espaço prometido para o desenvolvimento de nossas atividades. Com teto ou sem teto, com chuva ou sol, na Praça ou no Museu, a proposta é a mesma e estamos de olho, agora com mais atenção às movimentações que correm nas entrelinhas que continuam privilegiando grupos e empresas com a exploração financeira do espaço público.
  • Por fim, com base nos comentários de integrantes da Cia Motosserra Perfumada e de seus seguidores na internet nos acusando de Xenófobos, Ladrões, entre outras depreciações morais que serão levadas a juízo junto com as provas, como registro de circuito interno e câmeras internas das adjacências, que comprovarão que a Cia estacionou um caminhão e retirou o seus pertences, bem como os vídeos do dialogo com o Biaggio que não serão publicados por orientação de nossos advogados, por ser mais uma prova de que as acusações apresentadas são inconsistentes. Entendemos o destempero e reações com grande carga emocional dos integrantes e simpatizantes da Cia no que diz respeito aos ataques dirigidos ao TM13 e sua honra, embora as acuações não podem ser provadas, da mesma forma que dirão que estamos mentindo se disséssemos que foram encontrados no espaço junto aos pertences da Cia, coisas como: preservativos usados pelo chão, cápsulas de cocaína, ácido lisérgico entre outras coisas, mas preferimos nos manter focados na Luta contra o poder público e os privilégios ocultos que vem ocorrendo nos bastidores do exercício da função pública.
  • Seguiremos na Luta, focados no objetivo e desejamos boa sorte a Cia Motosserra Perfumada na sequencia dos trabalhos, sem ironias, com a sinceridade e disposição para futuros diálogos. Para vocês foi injusto “ocupar” o que já estava ocupado, mas para nós é mais injusto ainda sermos ignorados por quem privilegiou a vocês e outros grupos e empresas.

Paz, TM13.

São Paulo, 19 novembro de 2015

Acusações de furto de equipamentos e dinheiro, ou sobre uso de drogas, ou sobre sexo no local dispersam o cerne do que me parece ser central aos acontecimentos. Julgamentos de natureza criminalizadora ou moralizadora podem minar ambas as ações (de cunho social e artístico), reduzir, ou conduzir aspectos do conflito por vias que inviabilizam interlocuções reais entre as partes, e a busca de soluções para a não destruição do outro/outra neste processo, daquilo que é pertinência de cada qual, e não mais ou menos importante à cidade. Não há hierarquia ou possibilidade justa de julgamento sobre quem é mais ou menos pertinente ao espaço público, justamente porque ele é público. Mais que isto, corre-se o risco de não abrir espaço ao questionamento mais abrangente sobre a convivência coletiva, sobre a cidade como palco para compartilhamentos, sob administrações democráticas, ou que deveriam atuar de modo democrático, com esforços para escutas, diálogos, trocas e interlocuções, para participar realmente, como corpo e pensamento, das relações que, apesar de tensas, não precisam de requintes violentos para se darem.

Eu não pretendo fazer apologia a uma paz fácil. Nada disto é fácil, simples, nem eu teria, a partir apenas da escuta de integrantes dos dois grupos envolvidos neste conflito, de meus vínculos pessoais com integrantes de ambos, e dentro das condições de minha pertinência, como traçar um esboço de termo final. Nem é a função de um ensaio ensejar finais felizes. Acredito neste migrar por derivas escritas com a colaboração de muitas vozes para uma finalidade não pragmática, e para contribuir um pouco à reflexão cuja importância pede muito.

Prefiro pensar que a interlocução pacífica e mediada por quem tem, de fato, a responsabilidade por uma gestão de espaços públicos, reescreveria esta história em que a cena de um grupo teatral foi atravessada pela cena da ação social, e/ou vice-versa. Para terminar, vou recorrer à Lina Bo Bardi[3], de quem sou leitora em meu trabalho e no âmbito da pesquisa já há alguns anos, e que por aqui, nesta fatia de América do Sul passou, deixando como rastros projetos e legados de ações concretas para arquiteturas de convivência pacífica, pensando programática, funcionalidade, estética, ética e política do espaço por modos conexos, e por vias afetivas:

Se fosse necessária uma definição de arquitetura, seria talvez de ‘aventura’, na qual o homem é chamado a participar como ator, intimamente; a definir a não gratuidade da criação arquitetônica, a sua absoluta aderência ao útil, mas nem por isto menos ligada à parte do homem “ator”; e talvez esta pudesse ser, sempre que fosse necessária, uma definição de arquitetura.

Uma aventura estreitamente ligada ao homem vivo, verdadeiro, ligado aos problemas mais urgentes da vida humana, à experiência verdadeira, viva e intimamente ligada à capacidade de criar seus pressupostos teóricos, sem crítica, a priori, aquela que na linguagem filosófica se chama ‘suspensão do juízo’, isto é, ao abandono absoluto à realidade vivida, à vida real, da parte do arquiteto, condição essencial para a vitalidade da sua obra. (BARDI, 1958)

Diferentemente de um conto de fadas com vilões e benfeitores, finais mágicos ou desfechos moralizantes, esta história diz sobre a São Paulo de muitas São Paulos, século XXI, sobre cidades mais ou menos visíveis e entranhadas em sua geografia imprecisa, conflituosa, em suas superfícies e subterrâneos, topos e vales, sociabilidades muitas de uma São Paulo, cidade desigual, e diversa, e bastante real. Sobre as cenas artística, social e cidadã em seu centro, coração e nervos.

O final ou os próximos episódios deste acontecimento – e daqueles todos que se referem ao como estar e ser nos espaços públicos – talvez sejam das matérias que temos em comum, como coletivo heterogêneo, e imenso, e mesmo assim, o mesmo. Vale a pena iniciar o futuro aqui, agora.

 

Referências bibliográficas:

BARDI, Lina Bo. Centro Cultural e Desportivo “Fábrica da Pompéia”. In: PATRIMÔNIO Cultural de São Paulo. CJ Arquitetura, Rio de Janeiro, FC Editora, 1978. Ano 5, n.19. p.78-81.

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FERRAZ, Marcelo e VAINER, André. Cidadela da Liberdade. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2013.

MARTINS, Carlos A. Ferreira. Construir uma arquitetura, construir um país. In: BRASIL 1920-1950 : da antropofagia a Brasília. Jorge Schwartz. curad. São Paulo: Cosac e Naify, MAB – FAAP, 2002. p.371-435.

 

Natália Nolli Sasso é brasileira, paulista. Ainda apaixonada pelo centro, vive nele. Formou-se e trabalhou como jornalista (Rede TV!, SBT, Revista Imprensa, MST e agências de comunicação) até 2003. Trabalha desde 2004 como programadora e curadora, integrando o corpo técnico do Sesc SP; e como autônoma em projetos relacionados à performance. É poeta e pesquisadora, e mestranda em Artes-Teatro na Universidade Estadual Paulista – Unesp/Instituto de Artes – São Paulo.

 

[1] Referência e paródia ao título de peça co-criada pelos coletivos de teatro e performance Nya Hapen e Instituet (Suécia e Finlândia, sob direção de Marcus Ohrn): We love Africa and Africa love us (2011), sobre relações afetivas bastante truculentas, historicamente bélicas entre Europa e África, em que o amor é um flerte com a destruição, e em que a segunda é território para ações de cunho imperialistas da primeira.

[2] De outros espaços (1967), Heterotopias. Michel Foucault, Dits et écrits 1984 , Des espaces autres (conferência no Cercle d’études architecturales, 14 de março 1967), in Architecture, Mouvement, Continuité, n°5, outubro 1984, pp. 46-49. M. Foucault só autoriza a publicação deste texto escrito na Tunísia em 1967 na primavera de 1984.

[3] BARDI, Lina Bo. “1a conferência na EBA”. Escritos de Lina Bo Bardi para o Magisté- rio. Salvador, 17/ abr.1958.

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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