Sobre Saxo, Hamlet e a performance

Tradução de Humberto Giancristofaro do texto sobre Ur-Hamlet, do Odin Teatret

22 de janeiro de 2010 Traduções

Hamlet, Don Juan, Doutor Fausto e Arlequim são arquétipos bastardos que não conhecem suas mães e seus vários pais. Eles adentraram em nossa cultura moderna através das primeiras companhias profissionais especializadas em vender entretenimento no nascimento do teatro Europeu, na ‘Era de Ouro’ entre os séculos XVI e XVII.

Estes foram anos de pragas, suspeitas, massacres, intolerância e guerras religiosas. Hamlet, Don Juan, Doutor Fausto e Arlequim chegaram ao palco escondendo sua natureza bárbara e feroz sob um arco-íris de comentários bem-humorados e pensamentos profundos. Todos os quatro eram peritos na arte de se livrar de seus adversários com armas, sagacidade e feitiços. O cheiro de uma cultura refinada dissimulou seus odores acres de sangue, sexo e violência, transformando-os em jóias da arte. Assim, eles não são mais capazes de nos assustar. Nesse traje fantasioso, poético, filosófico e melancólico, eles vivem nos livros escolares e perfumam a nossa vida intelectual adulta. Mas a sua substância original, crua e sem ilusões, faz deles nossos irmãos zombeteiros e repugnantes, bem ajustados ao nosso século XXI. 

Hamlet de Saxo

O primeiro relato de um herói, que mais tarde se tornou o protótipo da dispersiva mente filosófica, foi contado em latim por Saxo Grammaticus uns bons três séculos e meio antes de Shakespeare. Amlethus era seu nome e ele foi o protagonista em um de muitos episódios na luta por poder no Gesta Danorum Histórias dos Dinamarqueses – escritas por Saxo. Nesta crônica que ocorre em tempos pré-históricos, Hamlet aparece como nosso contemporâneo. Ele caminha para uma fúria sem rumo da História e joga fora sua máscara – um líder furtivo e astuto, um profissional da violência, um tiranicida que se torna um tirano.

Pouco se sabe de Saxo (1150-1220), o mais antigo cronista e escritor da Dinamarca. Mais de um século depois de sua morte ele ganhou o nome de Grammaticus (O Letrado). Tal título, na Idade Média, geralmente indica que o seu proprietário era um clérigo. Seguidor do brilhante Bispo Absalon, e provavelmente teve sua tarefa definida por ele, Saxo passou a recolher e editar material mítico, chegando até a história atual. Os 16 livros do Gesta Danorum fiam a genealogia de reis em parte lendários – entre os quais também Hamlet, soberano de Jutland. A primeira tradução de Saxo para o dinamarquês data de 1575.

Os livros III e IV registram a vida e a morte de Hamlet. Podemos reconhecer a maioria dos personagens de Shakespeare. Gertude é Gerutha; Claudius é Fengi; Polonius é o conselheiro anônimo de Fengi, vivendo apenas para seu mestre, sendo seus olhos e morrendo em seu lugar. Ele não tem família. Não há nem Ofélia nem seu irmão Laertes, com sua tragédia especular e paralela à de Hamlet. Não há lugar, obviamente, para Horatio, o jovem intelectual educado na Universidade de Wittenberg. Há, no entanto, um anônimo casal de irmão e irmã adotados, crianças humildes da babá de Hamlet. Eles sugaram o mesmo leite e são os cúmplices sombrios de suas intrigas sexuais e sangrentas. O pai de Hamlet, soberano de Jutland e irmão de Fengi, a vítima do fratricídio e da usurpação, é chamado de Orvendil. Não há fantasmas nas muralhas da fortaleza do governante de Jutland. O íntimo drama familiar de remorso e incesto, de amor e abandono, de inocência e suicídio, desapareceu. Só a luta pelo poder é deixada, nua, essencial, física: uma carnificina sem alma.

O conflito entre tio e sobrinho, entre Fengi e Hamlet, começou quando Rørik, rei da Dinamarca, confiou o poder da província dinamarquesa de Jutland aos irmãos Orvendil e Fengi. Orvendil desafiou o rei da Noruega para um duelo, o matou e também trucidou sua irmã depois de estuprá-la. Por causa dessa ação, o rei Rørik o promoveu soberano de Jutland e deu a ele sua filha Gerutha em casamento. Hamlet nasceu. Mas Orvendil foi assassinado por seu irmão Fengi que tomou Gerutha como sua esposa. De acordo com as normas de honra pagãs Hamlet deve vingar seu pai, portanto Fengi, seu tio, deve eliminá-lo. Mas Fengi não pode recorrer abertamente à violência: ele teme as reações do rei Rørik e de Gerutha, bem como a raiva do povo. Nem mesmo um tirano pode desafiar impunemente todas as leis e condenar um louco por traição. E Hamlet é louco, ou finge ser. Ele finge estupidez como uma defesa contra o poder absoluto de seu tio, usurpador da posição que lhe pertence.

A farsa da loucura de Hamlet não é de um tipo melancólico ou filosófico. Não esconde um humor negro, um taedium vitae ou nem as sutilezas de um estudante de Wittenberg que caracterizam o Hamlet de Shakespeare. É a loucura do possuído e idiota, similar ao de Junius Brutus no Titus Livius. Nos dois casos a loucura do herói é posta à prova. Brutus, em Titus Livius, decapita as papoulas com sua espada, fingindo que são guerreiros hostis. Na verdade, Brutus está mandando uma mensagem em código para seus camaradas conspiradores: matem os líderes dos seguidores do Rei Tarquinius. Nas crônicas de Saxo, Hamlet também, pelo absurdo de seu comportamento irracional, frustra todas as tentativas de prendê-lo.

Fengi duvidava da loucura de Hamlet. Ele arma para que Hamlet encontre uma garota na floresta para testar se ele se renderia à tentação. Pessoas loucas não fazem amor. Hamlet reconheceu a garota como sua irmã adotiva. A irmã adotiva deu-se a ele sem traí-lo. Ela conta aos cortesãos que o jovem homem louco não foi capaz de fazer nada. Enquanto isso ele, o idiota, orgulha-se de suas próprias proezas sexuais fazendo todo mundo rir dele em descrença.

Hamlet comporta-se como um obcecado. Coberto de sujeira, ele imita um galo, cacarejando e batendo seus braços como se fossem asas. Ele mata – como que por engano – o conselheiro de Fengi que estava escondido sob a palha no quarto onde Hamlet é deixado a sós com sua mãe. Ele desembainha sua espada e a finca; corta o corpo em pedaços, cozinha e o dá de comer aos porcos. Depois disso, ele força sua espancada e ferida mãe – o laceratam matrem, nos escritos de Saxo – a reconhecer o horror de seu comportamento por ter se casado com o assassino de seu marido.

Fengi, expert em intrigas e conspirações, sabe que mesmo um louco pode buscar vingança. Ele decide enviar Hamlet para a Inglaterra. Ele entrega uma carta secreta para dois jovens nobres acompanhantes de seu sobrinho, na qual ele pede ao Rei da Inglaterra para eliminar o príncipe insano. Hamlet adultera a carta de Fengi e substitui seu nome pelo de seus companheiros. Como resultado, os dois agentes de Fengi são enforcados assim que chegam. Na Inglaterra, Hamlet adquire a reputação de homem sábio, o rei inglês o tem em alta conta e lhe dá sua filha em casamento.

Um ano se passa e Hamlet retorna para casa. Ele chega no dia de seu próprio funeral. Todos pensam que ele está morto, tão grande é a crença de Fengi no sucesso de sua trama. Hamlet, que parecia um patético mendigo, é na realidade uma besta com sede de sangue. Um banquete celebra o funeral sem cadáver. Quando os convidados bêbados caem no sono, Hamlet os talha e ateia fogo ao prédio. Ele entra no quarto onde Fengi está dormindo e troca a espada do rei pela sua, que pregara na bainha. Então ele acorda seu tio. O aterrorizado Fengi tenta desembainhar sua espada, mas ele é incapaz de faze-lo e Hamlet o trucida sem macular a lâmina de sua espada com o sangue do traidor.

Nesse momento, o feroz vingador parece mudar de natureza. Ele não é mais um idiota escondendo uma perspicácia tão nítida, mas comporta-se como um sábio pastor do povo. Ele tem um discurso tranquilizador para a população que está desconcertada após o incêndio no palácio e a morte do rei: “O homem que matei não era um rei, mas um assassino do seu próprio irmão. Sozinho eu tenho cumprido a tarefa que deveria ter sido de vocês, eu trouxe ordem para este país, tão conturbado pelo abuso de poder. Eu não quero colocar sobre seus ombros tamanha tarefa dura e sangrenta. Eu queimei os cortesões abusados, mas deixei o corpo de Fengi para vocês. Vocês devem queimá-lo. Vocês devem a sua liberdade a mim. Agora cabe a vocês mostrar se merecem isso.”

O guerreiro implacável seduz o seu povo e faz deles cúmplices desse ato de vingança. Falando com uma voz confortável como a de um pai, anuncia os princípios do seu futuro governo: “A Traição não pode se evitada. Trair antes de ser traído.” Aliviado da fúria de vingança, Hamlet agora é o jovem soberano em um país em perpétuo estado de guerra.

No seu Gesta Danorum, Saxo descreve os riscos da desordem interna, das facções, dos feudos, da fome e da pestilência. Guerra – real ou potencial – é a fundamento da ordem no interior dos estados e uma fonte de respeito às hierarquias e leis. Hamlet, um soberano de Jutland, precisa governar todo o reino e pegar em armas contra o seu soberano, o Rei da Dinamarca. Ele perece enquanto executa a última ação de sua astuciosa causa e ânsia pelo poder. Maquiavel, o cientista político renascentista, teria ficado à vontade neste reino do Norte.

Hamlet era apenas um dos heróis míticos com quem Saxo embelezou a História da Dinamarca. Ele estava destinado a uma ilustre vida e uma eterna cadeia de encarnações por François de Belleforest, um escritor francês que recontou as histórias de Saxo no seu popular Histoires Tragiques em 1570. Belleforest foi bastante fiel a Saxo mesmo tendo expandido ao dobro e feito várias mudanças em sua história. Ele adicionou uma aura de cavalheirismo, como por exemplo, quando Hamlet exerce sua própria honra e glória; ele deixou Fengi seduzir incestuosamente a mulher de seu irmão antes de assassiná-lo; e ele transformou a anônima irmã adotiva de Saxo em uma jovem donzela da corte (a futura Ofélia) que amou Hamlet desde a infância, devotada a ele e preparada para fazer tudo por ele.

Alguns anos depois dessa publicação, Histoires Tragique de Belleforest foi traduzida para o inglês, inspirando uma série de escritores de teatro na Londres elisabetana. Em 1596, Thomas Lodge, no seu Wit’s Misery, alude a Hamlet com sua performance no The Theatre (no qual Shakespeare também trabalhou por um tempo). Esse Hamlet deve ter sido feito bem antes de 1596 porque uma rememoração dessa peça foi satirizada por Thomas Nashe no seu prefácio ao Menaphon de Robert Greene’s em 1589. Ninguém sabe ao certo o verdadeiro autor desse Hamlet. O mais provável candidato é Thomas Kyd.

Estudiosos aceitam que Sheakespeare escreveu Hamlet no meio de sua carreira, entre 1599 e o final de 1601. Publicações de seu Hamlet começaram com a entrada no Stationers’ Register em 26 de julho de 1602, quando James Robert “deu entrada em seu Copie… um livro chamado The Revenge of Hamlett Prince [or] denmarke as yt was latelie interpretado por Lord Chamberleyne seu servo.”

A performance do Odin Teatret

Saxo, o monge, desenterra o esqueleto de Hamlet dos porões do castelo, evoca sua vida e a interpreta em latin. Ele aborda o espectador nessa língua arcaica e extinta, revelando e comentando as vis intenções do personagem e de suas ações. Ele vagueia pela performance, está no centro da ação, se identifica com o seu desenvolvimento e luta para evitar os eventos incontrolados, buscando uma maneira de escapar.

O espaço nu é iluminado por tochas que podem ser tanto portáteis como fixas no chão. Os movimentos das chamas modulam a intensidade das ações e a percepção do espaço. Os atores se movem em meio ao labirinto de tochas, eles as carregam e as utilizam para sublinhar – como numa pintura de Rembrandt – um fragmento da cena ou um detalhe. A ação no palco segue a narrativa de Saxo, pontuada pelos arroubos de loucura de Hamlet. Momentos de indolência são interceptados por crises frenéticas, enquanto assassinos ou cúmplices crédulos correm atrás de Hamlet para interpretar seu comportamento. Às vezes toda a realidade devém delírio. Os eventos se passam num castelo que é sitiado não pelo “outro mundo” e seus fantasmas, mas – muito mais concretamente – pelo lado de fora e seu subsolo.

Do subsolo emergem ratos que carregam praga, esses inimigos da raça humana emergem como miasmas da escuridão e das camadas subterrâneas de uma sociedade ordenada.

Espera-se invasores vindo de fora. Até agora vem chegando pessoas miseráveis e famintas procurando refúgio. Serão eles contaminados pela praga ou são eles os portadores? Os moradores do castelo livram-se deles metodicamente, mas sem raiva: uma mera operação de limpeza territorial. No cemitério, algumas covas estão sempre abertas em prontidão. Os coveiros tentam manter a ordem nesse reino onde forças letais circundam.

Enquanto cadáveres queimam e a louca noite de vingança parece ter acabado, Hamlet, como numa oração solitária ou num hino de guerra, proclama novas regras, invocando o nome de seu pai. E não é o fantasma de seu pai que aparece, mas uma criança pronta para lutar pela Nova Ordem.

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