Palhaço de nariz sutil

Crítica da peça Vaca de nariz sutil

15 de dezembro de 2008 Críticas
Atores: Henrique Stroeter e Carolina Tilkian. Foto: Luiz Doroneto.

Vaca de nariz sutil é a segunda adaptação de um romance de Campos de Carvalho que faz temporada no Teatro Poeira. No entanto, é difícil ver rastros e O púcaro búlgaro, encenado por Aderbal Freire-Filho em 2006, nesse espetáculo dos parlapatões que veio para cá depois de fazer temporada em São Paulo. A adaptação do grupo paulista buscou transformar o romance para a cena, opção oposta àquela do romance em cena de Aderbal. Para o público carioca, a experiência de assistir a essas duas montagens é interessante. É possível ver caminhos bem distintos para a encenação do universo de Campos de Carvalho e pensar a relação entre cada romance e cada peça.

A escolha da adaptação de Hugo Possolo prioriza o embate, o encontro entre os personagens e a composição destes pelos atores, enfatizando suas motivações psicológicas. Acredito que essa tenha sido uma opção coerente para essa obra, tendo em vista que a trama gira em torno da atração de um homem esquizofrênico por uma menina com problemas mentais, que culmina numa relação sexual entre os dois. É nesse encontro entre os dois personagens, interpretados por Henrique Stroeter e Carolina Tilkian, que parece estar o que há de mais intrigante na história. Não é muito possível julgar o personagem de Stroeter; ele escapa a qualquer definição precisa. Imagino que uma tentativa de relatar ou narrar suas ações poderia resultar na expressão de um juízo sobre ele.

As projeções em vídeo de Ronaldo Cahin contribuem para relativizar as coisas, ampliando os espaços e, em consequência, as idéias. A dimensão física das projeções invade a cenografia de Luís Frugoli a ponto de problematizá-la, fazendo com que os módulos manipuláveis pareçam pequenos, talvez simples demais, perto da ampla gama de signos visuais dos vídeos. Os dois elementos são bem explorados individualmente, mas me pergunto se a interação entre eles não poderia ter sido mais trabalhada. A trilha sonora de Aline Meyer é grave sem ser dramática, o que parece ser condizente com a encenação.

Mas o que mais parece chamar a atenção nessa montagem dos Parlapatões é a mistura improvável no registro de atuação, que dá leveza e um certo distanciamento para a carga de densidade da situação vivida pelos protagonistas, mas que talvez amorteça o impacto que a trama da peça pode provocar no espectador. A experiência dos Parlapatões, sua trajetória de espetáculos de humor, está impressa na encenação e nas atuações. A experimentação em outro tipo de espetáculo, impulsionada pelo desejo de fazer esse texto especificamente, provocou essa mistura curiosa, que desestabiliza as noções de atuação do grupo e, com isso, desestabiliza também as expectativas do público. De algum modo, os atores deixam transparecer uma forma de ver as coisas que não é tão séria, que consegue mostrar uma relação sexual num cemitério, que quase se configura como um estupro, como algo possivelmente belo, quem sabe até romântico. Tem um nariz de palhaço em algum lugar naquela leitura do romance de Campos de Carvalho, mas não se consegue apontar para esse nariz. Ele está diluído, dissipado.

Vaca de nariz sutil é um espetáculo que com certeza marca a trajetória dos Parlapatões e, não só por isso, é importante ser visto. Ele também é mais um ponto de contato com a literatura de Campos de Carvalho e com o teatro paulista. Acredito que seja importante para o público carioca se deixar atravessar por referências de espetáculos de fora da cidade, além de prestigiar a programação do Teatro Poeira, que se esforça por movimentar o intercâmbio entre o Rio e outras cidades e países.

Vol. I, nº 10, dezembro de 2008

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