Dobradinha

Crítica de Tripas, peça com texto e direção de Pedro Kosovski e atuação de Ricardo Kosovski

4 de fevereiro de 2018 Críticas

 

Foto: Bidi Bujnowsky.
Foto: Bidi Bujnowsky.

Ricardo Kosovski entra em cena vestido num paletó largo demais. E descalço. Depois de algum tempo em silêncio, com seu corpo tomado por pequenos movimentos físicos que remetem a certos espasmos involuntários do corpo, provavelmente causados por um grande desconforto, começa a falar:

“Puxo um fio. E depois outro. E mais outro. Desenrolo e chego no ponto onde quase acaba. É o que parece: vai acabar. – A – CA – BA . Você não pode falar. Os fios estão vivos e embolados dentro da sua barriga. Quanto mais eu puxo, sinto que também são meus. Estão embolados na minha barriga também. Eu sei que dói. Está doendo em você também? Você não responde. Você não consegue falar. Quem acredita nisso que estou falando chama esses fios de história. Mas agora esses fios são as suas tripas. E as minhas também. Eu estou falando de tripas. Tripas de todos aqueles que chegaram até essa fronteira, onde tudo acaba. Eu posso falar por você. É o que faço agora.”

Sim, meu caro Pedrinho, cheguei à Ácaba. Teu espetáculo já acabou. E você, malandro, quis me colocar na posição de “observador internacional”. Não chegou ao desplante de me chamar de “observador imparcial”, porque até ironia tem limite. Mas chegou perto. Roçou a fronteira. Não sei muito bem o que você esperava de um “observador internacional”, mas ouvindo a tua provocação pensei que muitos críticos se veem assim. E julgam as peças como se estivessem falando de um outro planeta, habitado por uma espécie exótica e diferente da sua, a espécie dos “artistas”. Espécie decerto menos evoluída, é o que muitos deles devem pensar. Eu não. Acho que é tudo farinha do mesmo saco, que nem pai e filho. E que as posições não são fixas: não é raro ver um pai filho do filho e um filho pai do pai. Depende da situação. Mas às vezes o pai é mesmo pai e o filho, filho. Sem neuras, fora as inevitáveis. Vamos parar com essa babaquice de que autoridade não serve pra nada. Mas autoridade é outra coisa, não tem a ver com autoritarismo, tem a ver com autoria.

Nessa autoria conjunta de Tripas, em que o filho fala pelo pai, até o pai pular pra fora do paletó (de madeira) do início e começar a falar por si próprio, encontrei duas coisas que me tocaram, dois fios que quero puxar. Estão embolados na minha barriga também. Eu sei que dói (felizmente, muito pouco). Está doendo em você também? Só se for a angústia da expectativa. Você não responde. Não consegue falar. Eu posso falar por você. É o que faço agora. Você acha injusto eu falar por você? De você? Mas isso não tem nada a ver com justiça e julgamento. Crítica é outra coisa.

O primeiro fio: não é que a tua história, apesar da imagem das tripas como um emaranhado, tem uma estrutura teleológica? Tripas lembram esse papo deleuziano de rizoma, então você podia ter ido nessa direção, e os saltos que faz no tempo, evocando os ancestrais da família Kosovski e também momentos anteriores nas trajetórias de vocês dois, pai e filho, a princípio parecem construir um novelo de gerações e origens distintas mas indiscerníveis. Mas não é que, no final das contas, tudo acaba se organizando linearmente?

À posição inicial (tese) do pai, incapaz de falar e à mercê do filho, contrapõe-se (antítese) um pai redivivo que, inebriado por ter recuperado a própria voz e peladão como um recém-nascido, desanda a gritar “eu não morri, eu não morri, eu não morri”. (Variação rock’n’roll do “Agora vocês vão ter que me engolir!” do velho Zagallo.) Essa contraposição entre as vozes do filho e do pai é superada dialeticamente (síntese) pelo ponto alto do espetáculo, o momento em que o pai, assumindo a própria fragilidade sem dor, pela primeira vez para de se movimentar freneticamente – “Eu não morri, eu não morri, eu não morri” –, se senta, põe os óculos, e se dispõe a ouvir calma e amorosamente o próprio filho.

Para além da revolta por morrer muito antes da hora, misturada com a revolta de estar ficando velho e ter de ceder a voz e a vez para você, e para além da admiração babona que goza narcisisticamente por ter um filho foda, como se o filho fosse uma obra sua e os feitos do filho tivessem relação direta com a educação dada pelo pai (huahuahua), o Ricardo, teu pai, lê a carta que você escreveu para ele no leito de morte. Por mais que o amor se manifeste como vontade de “fazermos um espetáculo juntos quando você sair dessa”, o tom crítico é inevitável. Você deixa bem claro que pai (pelo menos o teu) só serve para levar no Maracanã e comprar cueca nova! Porra! Que pai, ao ouvir isso, não se rebelaria, não acharia que está sendo injustiçado? Não lembraria de muitas outras coisas que fez com e para o filho? O teu pai, pelo menos na peça, talvez edificado pela experiência de roçar a fronteira de Ácaba, parece ouvir isso com serenidade. Não veste a carapuça! Não tenta se defender! (Como os homens tantas vezes fazem diante das denúncias do nosso machismo estrutural feitas pelas mulheres, os brancos diante das denúncias do nosso racismo atávico feitas pelos negros, e você mesmo num trabalho anterior, Edypop, quando ainda era um pai recente e precisou levar à cena argumentos ad hominem e inúmeras ironias contra as mulheres que exigem demais dos pais modernos). O teu pai senta lá e te ouve. Te ouve como um outro que, apesar de toda a sua alteridade, vale a pena ouvir. Só isso. Ouvir. Ouvir significa: resistir à tentação de sair falando, de sair se defendendo, para calar a voz do outro. Isso não é pouca coisa, em termos de educação política.

E aí, claro, porque em você a ironia é uma doença incurável (ainda bem, pelo menos neste caso), você não resiste à tentação de prometer um final melodramático para o espetáculo: o pai, iluminado pela aceitação da própria finitude, da própria imperfeição, abre a porta do teatro e espera com os olhos marejados pela volta do filho pródigo. Que fecho de ouro! Que síntese final! (Favor confundir com a “solução final” dos nazis e bolsonaros da vida.) E aí você entra em cena sem camisa, naquele tablado que parece um ringue, vindo de um lugar outro, perfazendo uma trajetória distinta da esperada pelo teu pai (como qualquer filho que tenha conquistado a própria voz e parado de ser mero puxa saco do pai). Se viesse um “abração” de pai e filho ao som de violinos, aí eu mesmo ia tirar a camisa e chamar vocês dois pra porrada. Mas o que vem é um beijo de língua interminável, beijo gay e incestuoso, o gozo e o nojo misturados, presença física bruta, em cima daquele tablado absolutamente instável (vocês quase caíram em cima de mim diversas vezes). Você sem camisa e o teu pai de cueca-short preta e joelheira me lembraram muito dos tempos do Ted Boy Marino no telecatch. Mas o telecatch de vocês era diferente, nele a gente não tinha como saber quem era o mocinho e quem o vilão. O teu pai não morreu e a porrada continua. Mais do que isso: o teu pai não morreu, você mesmo virou um pai menos acuado pelos imperativos moralistas dos “relacionamentos modernos”, e conseguiu traduzir cenicamente de forma mais madura (você também está ficando velho, meu caro) a ambiguidade radical, o amoródio que constitui não só as relações entre pai e filho, mas qualquer relação que já saiu da infância, daquela idade deliciosa e politicamente perigosa da projeção narcísica e da identificação empática que caracterizam o cinema e o teatrão biográfico comercial. Como na dialética hegeliana, em suma, a síntese virou tese novamente, o fim virou outro começo. Como nada se resolve de uma vez por todas – nem a morte do pai seria propriamente uma solução final… –, à medida que os espectadores vão deixando lentamente o teatro, ao finalmente perceberem que aquele beijo não tem fim – a peça toda só existe para aquele beijo, por causa daquele beijo, a peça toda é aquele beijo! –, quando olhamos para trás e vemos as portas se fecharem, vocês dois ainda fu(n)didos um no outro, fica só uma certeza: a luta continua. A luta significa: a história, como já dizia aquele velho barbudo. E agora o fio daquela baba elástica e bovina, baba de beijo, pede novamente para ser puxado…

 

Foto: Bidi Bujnowsky.
Foto: Bidi Bujnowsky.

O segundo fio: quando o Ricardo convidou a plateia para subir no tablado junto com vocês, naquele cenário que é um ringue, sem dúvida, mas também um deserto, onde as nossas pegadas vão sendo apagadas à medida que caminhamos – “nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas é preciso edificar como se fosse pedra a areia”, dizia o Borges – fiquei curtindo o final da peça mais confortavelmente. Agora eu estava fisicamente vendo a peça de dentro. Quando vocês começaram aquele beijo interminável, a princípio eu ri por dentro. Pensei: que onda esse beijo incestuoso! (Nada contra o incesto. O sopro no coração é um dos filmes da minha vida. Se o incesto não fosse uma tentação universal, não teria se transformado em tabu. Não tem nenhum mandamento que diga “não comerás cocô”. Apesar de que tem muita gente que come…). E em seguida, ainda rindo: o Pedrinho é um pervertido. Será que eu seria capaz de dar um beijo desses no meu pai? Mas, passados os minutos iniciais do “ósculo amoroso”, o riso começou a afrouxar. A duração do beijo começava a produzir efeitos diferentes do efeito inicial, como toda duração bem construída. Foi só então que olhei em volta. Havia muitos outros espectadores ao meu redor, também sentados no instável tablado de espuma. O meu sorriso de canto de boca foi cedendo lentamente à medida que olhava para rostos muito jovens e outros nem tão jovens assim chorando copiosamente.

“Então essa peça é pra fazer chorar?”, me perguntei. Agora eu estava literalmente a dois passos da fronteira de Ácaba, sentia no ar a iminência do fim do espetáculo, e, bafejado pelo sopro da morte, pude viver o velho clichê da vida toda (pelo menos aquela vida naquele dia naquela sala do Poeirinha) passando pela minha cabeça como um filme. As minhas tripas continuavam bem longe de me exigir uma lágrima sequer. Mas muita gente chorava em volta. Poderia simplesmente aceitar o caráter relativo e a princípio incontrolável dos efeitos de qualquer obra, pensar na riqueza de uma recepção coletiva múltipla, te elogiar por isso etc. Mas isso seria fácil demais.

“A tarefa do crítico é indagar o que uma obra quer, não o que ela consegue”, dizia o Benjamin. E então, pensando em todas as opções cênicas que, como diretor, você fez, comecei a minha investigação: a tua autoficção tinha um tom dramático, autocondescendente, narcisista (como tantas autoficções em que o privilégio de falar ironicamente de si mesmo encobre o outro, isto é, a potência intrínseca da história que se conta independentemente de quem conta)?

Apesar de toda a dureza do enredo – um pai à beira da morte e um filho tendo que lidar com o peso de todas as coisas não resolvidas – em nenhum momento a encenação tendia ao drama (salvo talvez quando o teu pai desafina involuntariamente ao ler a tua carta), preservando formalmente uma leveza invejável e a princípio contraditória com o conteúdo potencialmente melodramático. Seja por causa do texto propriamente dito – com aquelas épicas idas e vindas no tempo que quebravam a progressão linear do drama –, seja por conta do registro de atuação do teu pai, sem empostação e distante de qualquer tendência autocompassiva que pudesse levar a uma incorporação “séria” do personagem – o Ricardo contava e comentava a própria vida sempre na fronteira entre o fora e o dentro dessa ficção de “um si mesmo” –, seja por conta da movimentação de programa de auditório – as paquitas da Xuxa também adoravam correr em volta do tablado e provocar ostensivamente a participação da plateia, quebrando a quarta parede –, seja pela presença rock’n’roll do Pedro Nêgo, seja pela brincadeira caranguejeira com aquele polvo nojento, seja pela performance à la Bowie e Reed (ainda por cima peladão) do “Eu não morri, eu não morri, eu não morri” – uma canção que, na boa, todo mundo deveria cantar todo dia no café da manhã –, seja, finalmente, pela trilha sonora toda feita de guitarras e bateria (nada de violinos, felizmente!), que evitava sabiamente qualquer tentativa de manipular emocionalmente o público no sentido de levá-lo às lágrimas, não, definitivamente o teu trabalho não queria fazer ninguém chorar. E, pra terminar, um argumento decisivo: a canção que acompanhava o beijo – “Bom dia, tristeza”, de Vinicius de Moraes e Adoniram Barbosa, cantada num tom irônico, quase reginaldorossiano por Felipe Storino – avacalhava de vez qualquer propensão melodramática que pudesse haver na cena.

Ainda sentado ali no tablado, com o the end do filme da peça recém revista na tela da minha consciência, tive essa certeza: hoje ninguém quer que você chore. E, no entanto, o pessoal em volta não parava de fungar e secar as lágrimas. Isso significava que a minha reação estava correta e a deles não? Claro que não. Não existe isso de “recepção correta”, já que mil fatores, muitos deles absolutamente pessoais e que pouco têm a ver com o que se tem diante dos olhos e ouvidos, interferem nas nossas respostas afetivas. Menos constrangido pela recepção majoritária, pude então voltar a sorrir, e, apesar do enredo barra pesada, saí da sala com o peso de uma pluma. E lembrei do Adorno, filho amorodioso do pai Benjamin: “A dissonância é a verdade da harmonia”. As distorções da guitarra do Pedro Nêgo apontavam para uma sabedoria brechtiana: quanto mais os procedimentos cênicos contradizem a linha mestra da experiência narrada, daquilo que convencionalmente já sabemos antes de entrar num teatro, causando um estranhamento-distanciamento, tanto mais o trabalho se aproxima da complexidade dessa experiência estranha chamada vida, ou morte, ou amor, ou arte.

Você acha injusto ficar aí, sem poder falar, me ouvindo falar de você? Falar por você? Eu não. Depois de ser xingado a peça inteira de “observador internacional”, o mínimo que pude fazer foi dar uma rebolada – este texto – e deixar bem claro que, “enquanto houver Brasil, na hora da comida, eu sou do camarão ensopadinho com xuxu”. Não, Carmen, camarão não. Camarão é caro demais. Hoje eu estou a fim mesmo é de comer uma dobradinha…

Patrick Pessoa é professor do Departamento de Filosofia da UFF, crítico e dramaturgo.

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