A experiência Edimburgo

Artigo sobre os Festivais de Edimburgo

22 de dezembro de 2014 Estudos

Vol. VII, nº 63, dezembro de 2014

Resumo: O maior conglomerado de festivais do mundo – os Festivais de Edimburgo – são uma conquista de 64 anos de trabalho continuado que envolve toda a cidade, em 12 diferentes festivais, ao longo do ano. Neste texto procuro dar uma pincelada na oportunidade ímpar que é vivenciar os seis festivais de verão, que acontecem em agosto, com seus mais de três mil espetáculos em cartaz. Uma Babel artística que transforma esta viagem cultural em uma experiência inesquecível.

Palavras-chave: curadoria, teatro, festivais de Edimburgo

Abstract: The largest pool of festivals in the world – the Edinburgh Festivals – are an achievement of 64 years of continuous work that involves the entire city in 12 different festivals throughout the year. In this paper I try to give a glimpse of the unique opportunity that is to be there for the six summer festivals, which take place in August, with more than three thousand shows. An artistic Babel Tower that transforms this cultural trip into an unforgettable experience.

Key-words: curatorship, theatre, the Edinburgh Festivals

A experiência Edimburgo

Há 4 anos comecei a me envolver de certa forma com a cidade de Edimburgo e seus festivais. No começo eu não sabia nada sobre Edimburgo a não ser o obvio: que tinha um grande festival, que tem muitos castelos cenário de Harry Potter, que é a capital da Escócia e terra do whisky e do haggis, uma comida típica que não passa de uma buchada de bode à escocesa, sendo que lá o bucho é de carneiro.

Minha primeira ida a Edimburgo, para os Festivais, em 2012 foi um choque tremendo. Mesmo que uma pessoa saiba o que acontece por lá, mesmo que lhe tenha sido explicado tudo nos mínimos detalhes, mesmo que ela tenha preparado a sua viagem, e a lista de espetáculos que quer ver, com antecedência, nunca ela estará preparada para a experiência que vai enfrentar.

Durante todo o ano acontecem doze festivais em Edimburgo sendo oito deles no verão – entre junho e agosto – e os outros ao longo do ano.

Tudo termina e recomeça em dezembro com o Hogmanay, festival de três dias de música, dança e comidas que comemora o Ano Novo. Em abril acontece o Festival Internacional de Ciência, em maio o Festival da Imaginação – para crianças – e em outubro o Festival Internacional de Contação de Histórias.

No verão concentram-se o Festival Internacional de Cinema em junho, o Blues & Jazz Festival em julho e a grande massa de festivais de agosto que é composta do “carro-chefe” o Festival Internacional de Edimburgo, o Art Festival, o Fringe Festival, Military Tattoo (Festival de bandas militares do mundo), Mela Festival (musica do mundo, dança e comida) e Festival Internacional do Livro.

“O Festival Internacional de Edimburgo foi fundado em 1947 por Rudolf Bing, e pelo gerente geral de Glyndebourne Opera, Henry Harvey Madeira, o Chefe do British Council na Escócia, e um grupo de líderes cívicos da cidade de Edimburgo. Trabalhando na esteira da Segunda Guerra Mundial, os fundadores tiveram uma visão de um Festival que poderia animar e enriquecer a vida cultural da Europa, da Grã-Bretanha e da Escócia e “fornecer uma plataforma para o florescimento do espírito humano”. Os Fundadores do Festival também entendiam que, se o Festival conseguisse atingir as suas ambições artísticas, seria capaz de criar uma nova e importante fonte de receitas no turismo para Edimburgo e para a Escócia. Este princípio fundamental – que um evento cultural de classe mundial, que reúne o público e artistas de todo o mundo, também pode gerar benefícios culturais, sociais e econômicos para Edimburgo e a Escócia – é tão relevante hoje como era 60 anos atrás.

“O Festival tem sido continuamente classificado como uma das festas culturais mais importantes do mundo e é o mais antigo festival permanente do mundo com 67 anos de existência.” (1)

No mesmo ano em que o Festival Internacional foi fundado, alguns grupos, descontentes por não terem sido convidados a participar, decidiram fazê-lo à revelia, e com recursos próprios, e assim inventaram uma espécie de mostra paralela. O mesmo se repetiu nos anos seguintes e à iniciativa autônoma dos artistas foi dado o nome de Fringe.

O Fringe atualmente é o maior de todos os festivais e conta com a participação de mais de três mil espetáculos de teatro, dança, música, stand up, exposições, instalações e performances (3.193 em 2014, espalhados por 299 espaços num total de 49.497 apresentações) (2) e acontece entre os dias 01 e 24 de agosto. É uma quantidade avassaladora de trabalhos que por mais que uma pessoa se organize para tal nunca conseguirá sequer arranhar a superfície do que os Festivais de agosto têm a oferecer. Simplesmente não dá tempo.

Fringe quer dizer literalmente “franja”, a franja do tapete, que fica para fora de sua área central. Esta alegoria faz parecer que o Fringe, ou a franja, seja menos importante do que o tapete, mas não é o que acontece. O Fringe é o terreno mais fértil dos Festivais de Edimburgo, onde surgem os novos talentos, onde acontecem as experimentações e as discussões estéticas mais acaloradas. Dentre os festivais de agosto é o mais dinâmico e sem dúvida o mais caótico. Pode-se assistir espetáculos desde as nove horas da manhã até a meia noite. Este ano apenas o Fringe contou com 299 espaços de apresentação que podem ser desde grandes teatros, passando pelas igrejas, pelos espaços de renome como o Assembly, o Uderbelly, o Playhouse e o Summerhall até chegar às micro-salas nos porões dos pubs, lojas e até casas e quartos de hotel.

Como se organizar para tudo isso? IMPOSSÍVEL! E é isso que faz de Edimburgo uma experiência única para cada pessoa.

Em 2012 permaneci em Edimburgo durante todo o festival. Consegui assistir a 84 espetáculos em 20 dias, não conto aí as festas e brunchs e lunchs e coffees e os momentos para deitar na grama e aproveitar o sol. Com uma temperatura que no verão não passa dos 19 graus, aliás quase nunca chega aos 19 graus, qualquer momento ao sol é uma benção. Não dá pra perder. O mais engraçado de tudo é que as casas todas desligam a calefação mesmo fazendo 7 graus à noite, afinal de contas, é verão!

Este ano, com apenas 8 dias de Fringe na minha agenda tudo ficou muito mais concentrado e vi apenas 34 espetáculos. Uma bagatela, um quase nada.

Não há uma fórmula para se encontrar os espetáculos que mais tenham a ver com o gosto de cada um. Como são muitos trabalhos em cartaz o espaço de divulgação de cada peça é mínimo e a guerra para se conseguir mais espaço é travada em cada centímetro quadrado dos locais oficiais de divulgação. No decorrer do festival os espetáculos vãos sendo criticados e as produções vão colando as sequencias de estrelas recebidas sobre os cartazes espalhados pela cidade. Isso parece direcionar o publico para esta ou aquela peça. A meu ver esse critério é meio duvidoso e subjetivo demais, então preferi buscar outros para escolher o que assistir.

Entender o tipo de programação que acontece em cada espaço é essencial. Conhecer algo da produção internacional também, ler o catálogo do Fringe idem, e seguir a intuição sem dúvida é a melhor coisa a fazer.

Uma outra forma de escolha é através dos núcleos de programação internacional que os países, que investem em seus artistas, organizam para levar a Edimburgo.

Existem as mostras de vários lugares como Rússia, Polônia, Bélgica, Austrália, Nova Zelândia, etc. No caso do Brasil – apesar de todos os esforços do produtor Sergio Saboia, que parece ser uma das únicas pessoas que entende a potência e importância em participar dos festivais de Edimburgo – não há nenhum pensamento estruturado que possibilite o envio de trabalhos produzidos aqui para este grande evento.

É realmente impressionante como a mentalidade colonizada está arraigada nesta terra. Se eu, enquanto produtor, propuser para o Minc, para as Secretarias de Cultura, seja através de leis de incentivo, ou de apoios diretos, a apresentação de espetáculos internacionais no Brasil, estas iniciativas são levadas a sério e muitas vezes consegue-se trazer estes trabalhos pra cá. Os exemplos estão por aí, é só olhar em volta.

Agora, se invertermos esta lógica, ou seja, se propusermos levar trabalhos brasileiros para o exterior, caímos em um mar de impossibilidades e somos tratados como se quiséssemos usar o dinheiro público para ficar passeando pelo planeta. Aliás isso foi exatamente o que me foi dito certa vez quando questionei o Minc a este respeito.

Faço aqui uma ressalva aos editais de concessão de recursos para viagens que ajudam nas despesas com passagens e hospedagem, o que inclusive me possibilitou ir a Edimburgo neste último ano, através da Secretaria Estadual de Cultura. Estes editais abrem a possibilidade de viagens individuais ou coletivas porém partem do pressuposto de que existe um investimento internacional, um convite de alguém interessado em ter este ou aquele artista no exterior. Esta lógica de pensamento deveria ser, a meu ver, reestudada porque ela não inclui o fato de que o país esteja investindo em seus artistas e de que estes artistas sejam propositores do seu trabalho e representantes deste país.

Edimburgo é uma grande feira. As produções vão para lá com recursos próprios, ou com investimentos estatais, com o objetivo de inserir-se no grande mercado internacional. A cada ano, no mês de agosto, circulam por Edimburgo cerca de mil curadores internacionais ávidos por comprar trabalhos de todo o globo para os seus festivais e teatros. Por um lado esta lógica é massacrante, transforma tudo em produto, por outro lado é dinâmica e nos mostra como é possível criar um mercado forte para o que produzimos.

Vivendo num país onde a simples circulação de espetáculos é algo quase impossível, onde os teatros não possuem recursos para comprar espetáculos e fazer coproduções, onde o investimento passa prioritariamente pelo crivo das empresas patrocinadoras, ir a Edimburgo e ver toda essa efervescência é uma injeção de ânimo e um soco na cara. Fica muito claro o quanto estamos atrasados, o quanto nossas políticas públicas são engessadas e entregues a uma lógica que diminui o poder e a potência que a cultura têm.

Este ano tive a oportunidade de assistir a vários bons espetáculos, desde produções feitas para um espectador por vez até os grandes trabalhos nos teatros de renome. O que mais me chamou a atenção é que quanto mais ascendemos na linha, digamos assim, hierárquica, das produções e quanto mais chegamos perto das produções internacionais, mais vai morrendo a vivacidade das performances. O compromisso com o espetacular muitas vezes despolitiza e engessa as grandes produções e o próprio Festival Internacional. Falta provocação, falta coragem para pautar obras que possam incomodar os patrocinadores e os mecenas.

Já no Fringe a coisa é totalmente diferente e vemos um vigor, uma determinação e um envolvimento por parte dos artistas com suas obras que transforma toda esta relação. Apesar de eu achar que estes artistas são explorados pelos donos dos grandes espaços, ainda acredito que o dinamismo no revezamento dos espetáculos cria um lugar de comprometimento que não deixa a coisa esmorecer. Geralmente os espetáculos têm em torno de uma hora de duração e mais ou menos 15 minutos para montar e outros 15 para desmontar e dar lugar ao outro grupo que entra no espaço. Parece impossível, não é? Mas é assim que acontece na maioria dos casos.

Para aproveitar uma estadia em Edimburgo é preciso estar aberto para as novidades, pois por mais que você monte a sua grade de espetáculos sempre vai surgir um convite para uma outra peça, uma festa, um show. A sensação que tenho quando estou em Edimburgo durante os festivais é que não tenho nenhum controle sobre minha própria vida e o meu tempo. Em todo lugar onde você entrar vão estar acontecendo coisas que você não sabia estarem ali. Nas ruas da parte central da cidade acontecem performances o dia todo e nos lugares mais inusitados você vai poder ver as peças mais inesperadas. Tive esta experiência quando fui assistir, em uma igreja, à nova peça da dramaturga transexual Jo Clifford The Gospel According to Jesus Queen of Heaven uma espécie de trans-missa onde as parábolas de Jesus são reinventadas num universo queer. Só mesmo no meio de tamanha efervescência cultural é possível imaginar que uma igreja possa se abrir para este tipo de experiência.

Mas o que mais me fascina em Edimburgo é o fato de que estes milhares de pessoas que vão para lá no verão estão ali pra assistir teatro! E têm suas agendas marcadas com dezenas de peças e shows. Como um grupo de sete contadores que conheci (contadores mesmo, daqueles que cuidam das nossas empresas) que têm um escritório em Glasgow e que durante o mês de agosto fecham à tarde para irem ao teatro. Ou o motorista de taxi que me indicou algumas peças segundo ele “muito profundas”.

Há um interesse das pessoas em ver os espetáculos, em discutir sobre o que viram, o que me faz crer ainda mais que a crise que vivemos agora no Brasil, e mais especificamente no Rio de Janeiro, com os teatros vazios e o desinteresse das pessoas em frequenta-los, está profundamente ligada à falta de fomento deste interesse. Neste sentido Edimburgo é um dos maiores exemplos de que a continuidade das iniciativas é a um dos pilares na construção da identidade de um povo, e de que ter o público em geral envolvido com as atividades artísticas é algo totalmente possível mas que se conquista aos poucos.

Notas:

1 – Do site oficial dos Festivais http://www.edinburghfestivals.co.uk/

2 – Do site oficial do Edinburgh Guide http://www.edinburghguide.com/events/edinburghfringe

Joelson Gusson, juntamente com Daniela Amorim, é criador do Projeto_ENTRE e diretor artístico do Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, RJ (2010/14). É ator, diretor, cenógrafo e dramaturgo. Fundador da Cia Dragão Voador Teatro Contemporâneo, integrou ainda a Cia de Ópera Seca, o Coletivo Improviso e o Studio Stanislavski. É colaborador da revista inglesa Total Theatre Magazine e jurado do prêmio Total Theatre Awards.

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