Sobrevivemos, sabe como, dentro de casa

Crítica da peça Esta Criança, de Joël Pommerat, com direção de Marcio Abreu

30 de novembro de 2012 Críticas
Foto: Divulgação.

A mutação da forma dramática, na virada do século passado, revela uma crise interna, uma crise da casa e de seus habitantes.*

Jean-Pierre Sarrazac

Em cartaz no CCBB, o espetáculo Esta criança, produzido por uma parceria entre a atriz Renata Sorrah e a Companhia Brasileira de Teatro, apresenta ao espectador carioca a dramaturgia de Joël Pommerat, importante autor/diretor francês contemporâneo. A escolha de um texto inédito no Brasil confirma a importância que a dramaturgia tem na concepção desta montagem, e por este motivo, esta crítica penderá ao texto (assumindo as lacunas que uma crítica deixa sobre uma obra de complexidade), aos seus desdobramentos nos dispositivos técnicos e a ao encontro com este tema que, em alguma instância, nos reflete: a relação entre pais e filhos.

Uma casa: uma forma retangular que se inicia no fundo do palco e termina sobre as cadeiras da plateia. A arquitetura encaixada no tablado do teatro – quatro paredes: o chão, uma lateral, o teto e a parede dos fundos – delimita o espaço de vivência dos personagens. A casa projetada, entretanto, apresenta deformações sintomáticas da subjetividade de seus moradores. As janelas estão no teto, pelas paredes não há luz o chão da casa ultrapassa suas fronteiras e toma o público – as tensões se iniciam num ambiente familiar e por ali mesmo escorrem para o mundo. A cenografia de Fernando Marés é a reverberação mais próxima da desestruturação de um espaço íntimo, do desconforto do indivíduo dentro de casa, da psicologia que invade os diálogos e impede a sequência da história.

Como compensar a fábula quando a fábula não é mais viável? As relações entre pais e filhos levadas ao extremo da crise tornaram-se narrativas impossíveis. No texto de Pommerat, são dez as impossibilidades, dez quadros, dez tentativas de se abarcar o tema, dez filhos e outros tantos pais em processo de desconstrução do eu. Na medida em que as histórias se instauram e não se esgotam, não terminam, Pommerat constrói para o espectador um amontoado de restos, de fraturas das vidas alheias. A cada quadro, a contínua busca por solução para uma crise que não parte de um lugar de entendimento lógico. O psicologismo dos personagens é o provocador do desvio, do final que não se alcança; a barreira.

Quando os personagens surgem já estão em crise, no ápice da cena dramática. Neste sentido, a história também não inicia, ela parte do meio e no meio se desfaz. Ao começarem a falar, pais e filhos já são vítimas e culpados, já têm as suas feridas. E a marca deste passado está gritando nas falas, nas roupas, nas reações. Tudo o que se tem são pistas, esses caquinhos de autorretratos. O eu-íntimo que desabrocha da relação pai e filho tateia um contato com o mundo, mas está preso às profusões de ecos do passado. A direção de Marcio Abreu materializa esses ecos em algumas falas que ganham repetições em off com a voz do próprio ator. A repetição se torna distante até sumir no interior da casa. Do outro lado, o mundo (a plateia) vê a catástrofe das relações dos outros invadir o seu lugar através do chão estendido. É como se todos estivéssemos dentro de casa, ou como se a casa fosse o mundo inteiro. A exteriorização da catástrofe do íntimo não tem um fim no mundo, nele ela se expande. Por isso, ao pensar na forma dramatúrgica, na fragmentação do drama, no labirinto das repetições, a relação entre pais e filhos, para Pommerat, só pode aparecer enquanto fissura.

Não que os personagens não tentem dar cabo de seus problemas, eles tentam. No mar dos clichês que reconhecemos, os pais e mães dizem que os filhos sãos obrigados a serem felizes, obrigados a serem melhores do que eles, devem ser bons pais, bons filhos e bons amantes. E, do outro lado, os pais são confrontados em sua falência, seus erros, e imploram desculpas (ou ignoram essa necessidade) e os filhos são obrigados a dizer “tudo bem”. Filho que não gosta do pai, filho molestado, filho morto, filho vivo, filho dado de presente. O eu-filho é de uma imensidão enorme e não está ao alcance de qualquer olhar parental.

Tem sempre um amor mal alocado tentando construir diálogos. É mais um jogo de falar do que de agir, tem que colocar a dor para fora. A clausura dentro de casa os espreme a fala e o que sai deste aperto é uma proliferação de diálogos cruéis e mal-sucedidos, em que muito se joga na cara e pouco se cura. A multiplicação dos enredos, de repente, fala de um eu apenas. Um eu sozinho em casa, um eu sozinho no mundo. Toda a estruturação dramatúrgica, – dez quadros, os primeiros são totalmente voltados para o interior da casa, aos poucos passam por áreas externas, como a escada do prédio, por exemplo, e chega ao exterior com o necrotério na cena do reconhecimento do corpo – esta aparente arrumação, pode ser vista como a ordem que evidencia a desordem. A organizada construção dramatúrgica que dá a ver a desorganização psicológica do íntimo.

O eu- íntimo é um desafio à representação. Ele simula ser um lugar de total privacidade, quando, na verdade, está apontando para todos. A encenação da Companhia Brasileira, aqui, destaca-se na interpretação dos atores, que perpassam personagens de diversas idades, em que se sobressaem as crianças e adolescentes, sem que seja dado alguma ênfase ao fato de os atores atravessarem muitas idades apenas com trocas sutis de figurino. Com isto, o eu-íntimo de que o texto trata sofre um alargamento de horizontes, e, antes de ser um personagem fixo, é um objeto sem idade, de qualquer lugar, que pode preencher qualquer corpo físico. A sua materialidade é constante e diáfana como um eco insistente.

Para desencobrir o íntimo é preciso enxergar a parte que o deforma.

*Tradução: Humberto Giancristofaro

Referência bibliográfica:

SARRAZAC, Jean-Pierre. Théâtres du moi, théâtres du monde. In: Théâtres intimes. Actes Sud, Paris:1989.

Mariana Barcelos é atriz, estudante de Artes Cênicas – bacharelado com habilitação em Teoria do Teatro pela UNIRIO.

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