Críticas
Como dedicar uma Balada

(Atenção: contém spoilers)
A peça de David Greig The Strange Undoing of Prudencia Hart, dirigida por Wils Wilson e realizada pelo National Theatre of Scotland (NTS), acontece em espaços alternativos, como pubs, bares ou restaurantes. No Festival Cena Brasil Internacional, no Rio de Janeiro, o palco dessa experiência fantástica foi o restaurante Cais do Oriente. Uma banda de Folk já está em plena ação enquanto o público entra no restaurante. Há a opção, amplamente aproveitada pelos espectadores, de acompanhar o espetáculo tomando vinho, cerveja ou alguma outra bebida. Os atores recebem o público em suas mesas e logo os engajam na função de rasgar guardanapos – que servirão como tempestade de neve no universo fictício em que se inicia a jornada da heroína Prudencia Hart.
Irresponsabilidades aos olhos do voyeur

Ser espectador diante de um espetáculo da companhia colombiana La Maldita Vanidad é assumir a posição de voyeur. A encenação hiper-realista oferece-se como um pacto de ilusão, pelo qual se falseia o testemunho de um acontecimento da vida alheia. Eis o paradoxo no qual o grupo envolve o público: quanto mais persegue o real nos menores detalhes de ações, falas e espaços, mais se torna capaz de fazê-lo suspender a descrença, ou seja, de iludi-lo. O efeito de ilusão, contudo, depende da radicalidade no uso dessa linguagem e da complexidade da situação em que é empregada, e está sempre sob o risco de se desfazer. No limite do hiper-realismo, qualquer fissura pode desestabilizar o pacto.
A impossibilidade da representação do trauma

Ao redor de uma mesa de reunião, três mulheres jovens debatem o destino de um terreno. A cena armada com tal simplicidade pelo dramaturgo e diretor chileno Guillermo Calderón vem de encontro à noção da impossibilidade da representação do trauma que sustenta o espetáculo Villa, apresentado no 11º Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte. O terreno em debate é o vestígio de um antigo centro de tortura e extermínio mantido pelo governo chileno do general Pinochet. A Villa Grimaldi foi cenário de atentados contra a vida e de todo tipo de outras atrocidades, até mesmo o estupro de mulheres por cachorros, antes de ser derrubada pelos militares. A questão posta em discussão pelas personagens é como tratar esse passado atroz sem desrespeitá-lo ou diluí-lo. Como falar que mulheres eram estupradas por cachorros sem criar não mais que uma frase de efeito sensacionalista?
Histórias de família e a poética do real
A Cia Amok, através da trilogia da guerra, vem propondo uma reflexão sobre as subjetividades que vivenciam grandes conflitos bélicos e também uma nova forma de fazer um teatro político. Em Dragão, de 2008, o tema era o conflito entre palestinos e israelenses, a partir de depoimentos tirados da realidade, como no teatro documentário. Em Kabul, de 2010, a matéria principal partiu do romance Andorinhas de Kabul e de uma imagem real de uma mulher de burca sendo assassinada no estádio de Kabul para falar da total perda de humanidade. Em Histórias de família, a Amok optou por representar um texto dramático de uma escritora sérvia que vivenciou a guerra da Bósnia.
Para falar do aniquilamento de pessoas que a guerra causou na Bósnia, Biljana Srbjanovic escreveu Histórias de família. O conflito na ex-Iugoslávia testemunha uma limpeza étnica comandada pelas tropas sérvias, marcando a irrupção da barbárie na própria Europa. Neste caso, o real se torna tão imediato e possui uma tal dimensão de barbaridade que foi preciso fazer uma elaboração estética complexa. A autora trata de um drama familiar interpretado por atores que interpretam crianças, que por sua vez brincam de representar os adultos. Ela quis mostrar a falta de coerência do mundo dos adultos e de como eles podem se comportar como crianças de uma maneira irresponsável com as questões do mundo.
O instante fugidio

O desejo de reter um brevíssimo instante em relação ao qual não se tem (ou quase não se tem) acesso sobressai na dramaturgia de Dentro, concebida pelos integrantes da Pequena Orquestra a partir de argumento de Michel Blois, que acumula as funções de diretor e ator.
Em determinada passagem da encenação em cartaz no Teatro Ipanema, um dos personagens destaca a sensação de vácuo no momento em que a água do chuveiro é desligada. Em outra, alguém discorre brevemente sobre como seria lembrar da própria morte, uma “personagem”, aliás, importante em Dentro. O medo de morrer decorre das ameaças advindas da guerra que explode fora do apartamento (onde os personagens se encontram confinados), mas não apenas. Também se impõe fora da lógica da realidade, a exemplo daquele que teme a própria morte, noticiada no jornal, apesar de permanecer vivo.