Críticas
Para saber ler estrelas

O texto foi elaborado durante a Oficina de Crítica ministrada por Dinah Cesare no Projeto Teatro na Contramão do Espaço Cultural Escola SESC.
Cachorro Morto, da Cia. Hiato de São Paulo faz o espectador vislumbrar o mundo por meio dos olhos de um menino portador da síndrome de Aspenger, semelhante ao autismo. A dramaturgia inspirada no livro Nascido num dia azul de Daniel Tammet, aparentemente despretensiosa, se desenrola a partir da morte do cachorro da vizinha. O papel do protagonista, que busca uma resposta sobre o crime, é fragmentado pelos cinco atores. Cada um construiu características individuais peculiares, como ter o talento com os números ou a obssessão pelo estado de Massachusetts, que acabam formando um quadro único da personalidade do menino, que recebe o nome do ator que está interpretando-o no momento.
Imersão na materialidade

O espetáculo Auch, apresentado no Rio de Janeiro na segunda edição do Festival De Trupe: encontro de grupos teatrais, organizado pelo grupo Milongas, situa o espectador no encontro de uma pletora de teatralidades, calcada no empenho dos integrantes do grupo chileno Teatro Phi de elaborar situações, ritmos, sonoridades e visualidades a partir do preenchimento de objetos como baldes, galões, latas e outros elementos, de utilidade cotidiana definida, no espaço do palco. A escrita cênica da peça se define pelo rigor com que os atores-performers executam partituras de movimento e outras criações coreográficas de visível complexidade.
Vida e arte em suspeição

Inglaterra – versão brasileira, dirigida por Bel Garcia e com texto de Tim Crouch, materializa questões latentes do mundo atual em um nível de entrelaçamento que causa, no mínimo, nossa perplexidade. Reconhecer que o curso dos acontecimentos é entrecortado pelo intempestivo é um processo doloroso. Compreender ainda que esse curso é interrompido por coisas que estão imersas em uma dimensão sem territórios definidos pode ser avassalador. A peça expõe a crueza do poder financeiro em que o comércio se solidariza com a noção de arte, sendo ambos importantes elementos que fomentam o par vida/morte. Existe um refinado jogo de imagens tensionadas entre o que se apreende com os termos agradecimento e reconhecimento.
A presentificação do passado

Miguel Falabella olha com esperança para as personagens de A Partilha, irmãs que se reencontram no velório da mãe e promovem um acerto de contas doce-amargo ao longo do processo de divisão dos bens familiares. Maria Lúcia, Regina e Laura se esforçaram para reescrever suas histórias, mesmo que através de relacionamentos nem sempre norteados pelo amor. Se não acertaram, contabilizam, pelo menos, o esforço da mudança. Selma, apesar de ter se acomodado num casamento burocrático, começa a ensaiar uma transição.
Correspondências que ultrapassam os tempos

A narrativa do espetáculo que está em cartaz no Poeirinha, Eu é um outro, dirigido por Isabel Cavalcanti e com dramaturgia assinada por Pedro Brício, constitui-se de fragmentos que recriam, no palco, a vida particular do poeta francês Artur Rimbaud. Intercalam-se a essas imagens, outros dois episódios que se aproximam do nosso tempo presente, instaurando conflitos que se deixam afetar pelo legado literário do poeta.