Críticas
A dor e a esperança do amor (e do teatro)

A ocupação artística Vem!, do Teatro Gonzaguinha, no Centro Cultural Calaouste Gulbenkian, tem em sua programação uma plataforma que se dedica aos trabalhos recém saídos do âmbito acadêmico, que se chama Incubadora. Essa plataforma leva ao palco do teatro os trabalhos de companhias recém formadas, de jovens produtores, atores e também diretores. Esse espaço é o lugar em que esses jovens artistas podem mostrar suas experimentações a um público mais amplo e diversificado do que aquele que frequenta, normalmente, as universidades e escolas de teatro. É um espaço em que o novo ator/diretor/produtor e as companhias possam exercitar, bem como construir, sua liberdade artística, ao mesmo tempo em que desenvolvem sua autogestão, podendo trilhar um caminho mais profissional. Considero importante essa iniciativa dentro da programação do Teatro Gonzaguinha porque dissemina a possibilidade de reunir projetos artísticos que procuram de alguma forma encarar o teatro como o lugar da pesquisa, do campo da experimentação de novas linguagens estéticas, e dos riscos que isso pressupõe, e também a possibilidade do risco no campo das produções independentes e a sua exposição para um público além daquele do âmbito acadêmico. Acho importante disseminar o pensamento crítico sobre esses trabalhos. Muitas vezes, vêm carregados de forte caráter colaborativo, tanto na sua produção como na sua estrutura poética.
A morte que ninguém pode ver

O grupo Dragão Voador Teatro Contemporâneo se apresentou com o repertório denominado Trilogia da Matéria, até o início de junho, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto. As três peças – Manifesto Ciborgue (2009), Paisagem Nua (2011) e Amérika! (2012) – tratam de vícios específicos da sociedade contemporânea: o vício ciborgue, sobre o desejo e viabilidade de transformar o corpo com o uso de próteses; o vício da espetacularização midiática da morte, e a consequente banalização da mesma; e, o vício do consumo, iniciado pela sociedade americana. O que une as dramaturgias é um pensamento voltado para ideia de deterioração, sobre aquilo que, nos atos sociais, contribui para a transfiguração do corpo (a prótese, a morte) e a descaracterização do humano (o consumo). A Trilogia inverte o valor das novidades do nosso tempo, o que para a maioria das pessoas pode ser visto como um comportamento favorável, para este conjunto de artistas, trata-se de um anúncio de falência – da “Matéria” em decomposição.
A história que permanece

“Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado.”
Walter Benjamin
A companhia Alfândega 88 apresenta, no palco do Teatro Serrador, o espetáculo A negra Felicidade. Sob a direção de Moacir Chaves, a montagem é organizada a partir da alternância de diferentes registros de escrita, entrecruzando vozes de elementos narrativos diversos, como dois autos de um processo jurídico, retirados dos arquivos públicos da cidade do Rio de Janeiro, de fins do século XIX, classificados do Jornal do Commercio da mesma época, um sermão religioso e, por fim, o fragmento de um solilóquio, extraído da peça O jardim das cerejeiras, de Tchekov. Os quadros são dispostos de forma fragmentada e forjam sentidos na medida em que a sucessão dos fatos deixa entrever uma necessidade do diretor de trazer, para o debate público, as mazelas que herdamos dos procedimentos de conduta éticos e morais do passado.
Sobre os questionamentos e as dificuldades das relações afetivas

Existe a possibilidade de duas pessoas permanecerem juntas sem saber, com absoluta certeza, o que sentem e como sentem o que sentem uma pela outra?
A Probástica Companhia de Teatro tenta responder a esta pergunta ao trazer para o Teatro Gláucio Gill o seu primeiro trabalho, a peça [Des]conhecidos que segue em temporada até o dia 11 de junho. A peça se escora em um enredo um tanto quanto trivial nos dias de hoje. Um encontro às cegas é marcado para acontecer em um bar. O primeiro contato se dá através de um site de encontros na internet. Um dos envolvidos chega, encontra o bar lotado e não avista seu par. Em uma das mesas há uma pessoa sozinha. O primeiro então se aproxima, pede licença para se sentar apenas para aguardar um lugar vago que possa ocupar. Neste momento, meio que casualmente, um rápido diálogo se estabelece e com o desenrolar do papo, os dois descobrem que eram eles que se falavam via internet. Os dois desenvolvem uma relação – fortuita, sem garantias de compromisso duradouro ou laços rígidos – mas há um problema: um deles não acredita no amor. A partir desta constatação, o casal recém formado esbarra nas fragilidades e inseguranças que um relacionamento aberto sugere e os dois passam a questionar seus conceitos sobre o amor, cada um sob seu ponto de vista.
As palavras de Pinter

Em cartaz no teatro do Centro Cultural dos Correios, A volta ao lar, sob direção de Bruce Gomlevsky, traz ao circuito teatral carioca mais um texto de Harold Pinter. Em 2008 foi encenada Traição, com direção de Ary Coslov, que está novamente em temporada no mesmo Teatro Solar de Botafogo. Em 2011, foi a vez de Outros tempos, dirigida por Pedro Freire.
A dramaturgia de Pinter sugere um mundo nebuloso e ao mesmo tempo mostra uma objetividade por meio das palavras diretas e vorazes que seus personagens carregam. Os diálogos são entrecortados por silêncios e pausas que ditam o ritmo da cena; as ações dramáticas parecem estagnadas, mas vêem carregadas de falas que iludem o entendimento do espectador (o não dito é mais presente diante do que se diz). O universo do autor no qual as falas escondem o enigma do “não dito”, personagens com subjetividades destituídas de afeto aparente, que se dão como seres ambíguos e vagos e a crueza com que as palavras violam o espaço – geralmente espaços fechados, sombrios, desgastados, como no caso de A volta ao lar – é um campo vasto, principalmente para a atuação.