Críticas
O peso do referente

Vazio é o que não falta, Miranda, espetáculo do Teatro Inominável, dirigido por Diogo Liberano, expõe o cansaço de uma companhia jovem em lidar com a autorreferência do teatro contemporâneo. Possivelmente, o grande risco da peça, tão mencionado pelo diretor, seja a falta de tônus em segurar (refletir sobre) o referente, entendendo o grande vácuo presente no próprio e a falta de conhecimento (experiência) sobre o mesmo. Por isso, cabe uma reflexão sobre o sentido de vazio presente na peça do grupo. A obra segue o seguinte mote: um diretor, Liberano, e quatro atrizes, Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello resolvem montar Esperando Godot de Samuel Beckett. Imersos na obrigação inalcançada de fazer uma peça canônica de teatro, o grupo constrói diferentes jogos no palco. É o caso do jogo de improvisação com o dicionário e do sorteio com a plateia das intérpretes que farão as personagens na peça de Samuel Beckett.
O tempo de Nelson

Introduzir uma questão sobre Vestido de noiva não é uma tarefa fácil. Mesmo um texto crítico pode sofrer do fato de toda a dramaturgia de Nelson Rodrigues ter sido amplamente montada, vista e analisada. Claro que isto tem a ver com a peça ser um texto ícone da dramaturgia brasileira. O texto de Nelson tornou visível uma formação estrutural e uma temática, cujo desdobramento foi o de se mostrar como um clássico. Um texto pode ser considerado um clássico por sua capacidade de mimetizar a atualidade em que é encenado, na medida em que traz questões e modos de encenação ainda não plenamente identificáveis e que, por isso, podem ser reconhecidos, ou traduzidos por diferentes épocas. Então, de alguma forma, estamos falando e pensando na questão do tempo quando nos referimos aos textos que, como o de Vestido de noiva, são capazes de trânsito entre épocas.
Cena de experimentação

A característica marcante de Duo sobre desvios, em cartaz em março no Art Hostel Rio, é o fato de que a ação investigativa constrói sua cena. A investigação sobre o abandono não se dá propriamente com uma proposição em que os atores mostram contornos decididos a respeito do tema. Tudo se passa como uma instância que vai se formando ao longo da exposição, mesmo que, como sabemos, exista uma partitura de falas e ações preparadas e ensaiadas anteriormente. Outra coisa que conta para esta perspectiva é que se trata de um trabalho que não se encaixa em determinações de linguagens, mas se forma pelo atravessamento entre a dança e a atuação teatral, ou seja, modos de representação que nos ligam a essas ideias. Existem ainda outros atravessamentos entre poesia, texto dramatúrgico propriamente dito, relatos autobiográficos e sobre o processo de criação, projeções de imagens e música que compõem a dramaturgia elaborada em conjunto por Fabrício Moser e Cadu Cinelli.
Metáforas e arestas

A peça Céu sobre chuva ou Botequim, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de Antônio Pedro Borges, teve uma única montagem em 1973, e agora é encenada 40 anos depois, no Centro Cultural dos Correios. A tensão entre duas épocas, dois governos e duas realidades brasileiras não poderia ser maior. As montagens de 1973 e 2013 resistem como peças-irmãs, ligadas a partir de um esforço de reeditar a poética teatral de Guarnieri, porém partilhando de um inequívoco dissenso em face de seus respectivos contextos históricos.
A construção da história, o jogo da cena

Há uma evidente contradição no título do espetáculo da Cortejo Cia. de Teatro, que procura questionar a história oficial como verdade única, perspectiva que inviabiliza a transmissão e o valor de outras abordagens. Em determinado momento da montagem de Rodrigo Portella, um dos personagens afirma que a história precisa de heróis para ilustrar os livros, sinalizando que a realidade é mais complexa do que as versões normalmente estampadas.
A história oficial é produto de uma construção, assim como a cena teatral – parece frisar Rodrigo Portella ao promover esta associação. A concepção da cena fica à mostra diante do público. No início da apresentação há apenas um cone no palco, que os atores retiram para dar início ao jogo teatral. Trazem da coxia todos os elementos para a construção da cena: fachadas de casas (janelas e portas acopladas), banco, mesa, malas, gaiola, livros, relógio, copo, bule, arma, boneco, retratos (não por acaso, a cenografia é assinada por Rodrigo Portella). O vento é produzido por um ventilador acionado no palco. A música surge no instante em que um ator toca instrumento ou quando uma fita é acionada no aparelho (concepção de som e trilha original de Lucas Soares). A atriz ressalta o uso de peruca. Há proposital desconexão entre a descrição dos personagens e o physique du role dos atores.