Críticas
Sexualidade em cena desenhada

Apresentado desde a primeira metade da década de 80, Porcos com asas volta à cena destacando o modo intenso e passional com que adolescentes administram a sexualidade. Os personagens desse texto de Mario Sergio Medeiros, inspirado no livro de Marco Radice e Lidia Ravera, despontam menos como individualidades e mais como símbolos de uma juventude em conflito, seja pelas questões que vêm à tona ao longo do rito de passagem para a vida adulta, seja pelo destemor em contestar uma arbitrária ordem pré-estabelecida no Brasil da ditadura militar.
Estética, cultura e teatro

Jacinta é uma comédia-rock muito bem-vinda na cidade que tem um gosto especial pelos musicais. Sua estrutura congrega uma espécie de exposição de quadros que perfazem a trajetória artística da protagonista e indica uma forma de pensar. Podemos fazer uma alusão, se quisermos, aos milagres medievais que contavam a história de santos, também compostos por golpes de teatro. Mas ao passo que nos chamados milagres os golpes de teatro são, muitas vezes, manifestações divinas, aqui eles tomam uma feição inversa, mundana, e suscitam, como os primeiros, uma boa dose de humor, porém, alicerçados por releituras de citações históricas. As produções do gênero musical que normalmente assistimos são versões de musicais importados, o que é revolucionado em Jacinta, notando que não se trata de um musical biográfico que conta a vida de um compositor, alternando cenas com suas músicas (particularidade de um gênero mais explorado na produção de musicais no Rio). A fábula trata da saga de uma histriônica atriz portuguesa – considerada a pior de sua época – que promove, com sua atuação, a morte da rainha de Portugal e a desgraça do renomado dramaturgo Gil Vicente. Em vista disso, ela se vê em um exílio forçado em terras brasileiras.
Uma homenagem despretensiosa

A reinauguração do Teatro Ipanema, a cargo do coletivo Pequena Orquestra, atualmente encarregado pela ocupação do espaço, contou com uma homenagem a Hoje é dia de rock, a célebre montagem que se tornou uma febre teatral em 1971, marco do grupo liderado por Rubens Corrêa, Ivan de Albuquerque e Leyla Ribeiro. Agora, a Pequena Orquestra volta a evocar a peça de José Vicente através de um projeto conjunto que também reúne integrantes da Cia. das Inutilezas e da Cia. Dani Lima, todos sob a direção da argentina Lola Arias, encarregada ainda da dramaturgia.
Um drama musical

O espetáculo musical Quase normal, adaptação brasileira para o musical americano Next to normal, esteve em cartaz no Teatro Clara Nunes no ano passado e segue temporada nos palcos da cidade de São Paulo.
A estrutura mais descritiva do musical constrói um nexo causal entre as cenas que cria um princípio unificador. Assim, a recepção pode acompanhar o desenrolar da fábula. Sem dúvida, não se trata de uma história cheia de glamour evidente, mas se aproxima de uma linha de musicais da Broadway que se situam no universo temático do uso de drogas, de problemas sociais ou de questões ligadas à AIDS. Este viés mais deslocado chegou a gerar um dos espetáculos mais premiados – o musical Rent, que conta a história de um grupo de amigos morando na Nova York dos anos de 1980. O tratamento do tema familiar pela ótica do luto no texto de Tom Kitt em Quase normal, ganhador do prêmio Pulitzer em 2010 por ocasião de sua estreia, coloca o movimento do trabalho de arte que imprime o imaginário do espetáculo.
Era vidro e se quebrou ou um comentário sobre a peça

Joaquim Goulart poderia ter escolhido mais um Plínio Marcos para levar à cena. Ele e seu Núcleo Caixa Preta também poderiam ter recapitulado a Medeia de Riaza, anos depois do fechamento do Teatro Augusta*. Ou, numa terceira via, poderiam ter empreendido levar ambas as peças, nalgum lugar entre a Boca do Lixo paulista e a Espanha pós-Revolução de Luis Riaza.
Mas, com a escrita de seu dramaturgo, Vadim Nikitin, O Abajur Lilás ou uma Medeia perdida na Augusta? recorre ao cruzamento dessas obras sobre o asfalto gasto de uma Rua Augusta (Rua Angústia?, como pergunta a certa altura o Ator ao seu Analista), para gerar uma quarta obra. São três as tramas a trafegar pelo fluxo intenso da rua paulistana: as duas obras citadas e cenas de uma sessão psicanalítica, que – segundo o diretor e ator Joaquim Goulart – têm carácter biográfico, e trazem para a cena questões inquietantes, latejantes a esse artista, também ex-proprietário do Teatro Augusta, casa que abrigou realizações teatrais frutos da parceria com sua irmã, a atriz Cácia Goulart. Essas escolhas fazem do espetáculo um exercício de espelhamento entre as duas peças atravessado por cenas da sessão psicanalítica.