Críticas
O valor do sugestivo

Boi é um trabalho concebido a partir da utilização expressiva de recursos escassos. Em cena há apenas uma mesa e dois panos, um preto e outro vermelho. A natureza genuinamente teatral do projeto já se evidencia no modo com que esses poucos elementos são manipulados para sugerir variadas imagens numa encenação em que o insinuado vale bem mais do que o concretizado.
Único ator presente no palco, Guido Campos Correa se multiplica entre determinados personagens ao contar a história de Zé Argemiro, rapaz da roça que trava vínculo inquebrantável com o boi Dourado, a despeito das restrições da mãe e da fúria da mulher, Das Dores, que se sente desfavorecida diante do animal.
Intimidade em foco

Prazer desponta como um espetáculo de grupo, menos por evidenciar a conexão dos atores em cena ou uma pesquisa artística amadurecida (ainda que tais características estejam presentes, em medida considerável) e mais por uma das questões centrais realçadas na encenação: a dificuldade de abordar esferas íntimas, mesmo entre amigos de longa data. Quando os assuntos privados vêm à tona, o desconforto rapidamente se instala. No informal reencontro marcado pela vibração passional, a tentativa inicial é a de tangenciar temas desestabilizadores.
A dobra da doxa

“A escritura faz do saber uma festa.”
Roland Barthes, Aula.
Se uma janela se abrisse é uma criação do coletivo Mundo Perfeito, de Portugal, uma coprodução do Alkantara Festival e do Teatro Nacional D. Maria II. A peça tem texto e encenação de Tiago Rodrigues, que esteve anteriormente no Rio em 2008 com Yesterday’s Man, espetáculo brilhante de Rabih Mroué, e para dar uma oficina no Teatro Gláucio Gill em 2011, na Ocupação Complexo Duplo. A peça foi criada em setembro de 2010, mas só chega ao Rio em 2013, por ocasião do Festival Dois Pontos, que trouxe para a cidade uma programação que envolve peças de Portugal e criações compartilhadas entre artistas portugueses e brasileiros, apresentadas na Rede Municipal de Teatros.
Nosso balneário turístico não costuma receber o que há de mais interessante no contexto internacional do teatro contemporâneo, a não ser pelos esforços (muitas vezes isolados) dos festivais. O Rio de Janeiro não parece estar nos roteiros de circulação internacional de teatro. Não há um pensamento sobre a cidade – por parte das instituições que podem de fato fazer alguma coisa– que tenha essa preocupação. Assim, a responsabilidade por trazer ao Rio espetáculos como Se uma janela se abrisse fica a cargo da sociedade civil, dos artistas e produtores que estão tentando pensar a programação artística da cidade e fazer algo por ela. É preciso esclarecer que o Festival Dois Pontos acontece na Rede Municipal de Teatros e com patrocínio da Prefeitura, mas não se trata de uma iniciativa da Rede Municipal de Teatros e nem da Prefeitura, e sim dos atuais gestores dos teatros que compõem essa rede, que são gestores temporários, artistas e produtores independentes, que estão provisoriamente na condição de gestores e só podem pensar ações para os teatros que dirigem por um determinado tempo.
A cena invisível

In_trânsito confronta o público com uma aparente ausência da cena. Esse projeto itinerante viabilizado em trens da Central do Brasil e nas estações de Manguinhos, Triagem e Bonsucesso não é “simplesmente” estruturado a partir da realização de cenas em espaços não-convencionais. Existe uma notada intenção de valorizar a escuta em detrimento da visão e, desse modo, investir na imaginação da plateia.
Cowboys das ruínas

Três homens maltrapilhos vagam com pedaços de madeira abaixo do peito, simulando estarem frente a um balcão do bar. Pedem whisky, no melhor sotaque norte-americano. Eles pensam, trocam olhares, fazem proposições, enquanto circulam pelo palco. Um primeiro sugere uma história, logo rechaçada pelos outros dois. Depois, um deles tem uma ideia aparentemente mirabolante, logo abandonada. Por fim, eis que se chega a algum lugar: um objeto é retirado do lixo e uma história começa.