Críticas
Eu, ele, e o conflito

“Aí está uma das razões pelas quais evito falar tanto quanto possível. Porque sempre falo demais ou de menos, o que sempre me faz sofrer […]”.
Samuel Beckett, em Molloy
Falar de Beckett é deixar ver suas lacunas. Moi Lui, adaptação de Isabel Cavalcanti do romance Molloy, está em cartaz no Poeirinha, como parte do “Projeto Beckett”, no qual a atriz Ana Kfouri encena duas peças a partir de obras do autor; a dramaturgia Primeiro Amor, e a adaptação em questão.
A força do primitivo

Concebido como um ato de criação conjunta entre artistas, Farnese de saudade, não tenta construir uma linearidade biográfica do artista plástico Farnese de Andrade. A encenação fragmentou os materiais pesquisados sobre Farnese e os colocou em uma montagem, criando uma nova série. Se comumente pensamos que os documentos têm seu valor confirmado por atestarem a veracidade dos fatos, quando um material dito documental é particularizado em uma nova visão, o que acontece é semelhante à construção de um acontecimento. O acontecimento pode ser pensado como um momento em que se dão certas confluências que podemos reconhecer, justamente por sua repetição em nossas experiências, por já termos podido compartilhar de tais sentimentos ou situações anteriormente. O fator importante desta nova série parece ser a confluência das experiências artísticas de seus realizadores na consumação da encenação.
Opções diante do relato pessoal

O lugar escuro nasceu como a canalização artística de experiências pessoais de Heloisa Seixas – primeiro transpostas para a literatura e agora adaptadas para a cena –, particularmente no que se refere à convivência dentro da esfera familiar com o Mal de Alzheimer. A autora propõe uma estrutura norteada pela reverberação da doença da mãe nas vidas de filha (personagem que simboliza a própria Heloisa) e, com mais suavidade, neta.
Sensações suspensas e partilhadas

Nível 6 é o mais recente trabalho do Grupo Garimpo, formado por Ricardo Libertini, Vanessa Silveira e Marina Mercier, que desde 2007 se reúne em volta de projetos que têm em seu cerne a pesquisa da linguagem performática, o processo colaborativo e a busca pelo intercâmbio artístico com companhias de diversas origens e lugares. Uma primeira versão do trabalho, em 2010, tinha um caráter performativo, de intervenção no cotidiano da cidade, já que os atores ocupavam lugares públicos e de grande circulação de pessoas na zona sul carioca e em Niterói, apenas observando e tentando aproximações corporais com os transeuntes. Em 2011, Nível 6 fez apresentações na Mostra Fringe do Festival de Curitiba e dentro do projeto Armazém 19, na sede do Grupo XIX de Teatro. Partindo destas experiências isoladas, em 2012 o grupo resolveu levar o trabalho para o Espaço Rampa, em Ipanema, e em seguida realizou quatro apresentações em outro espaço alternativo, destinado a exposições de fotografia, de artes plásticas, e a peças também, o espaço A Comuna. As experiências na rua, em Curitiba, em São Paulo e nos dois espaços alternativos corroboram a proposta vigente na peça e na pesquisa do grupo, preocupado com a relação de interação entre a cena e o público.
Entre dramaturgias, atuações e escolhas

No segundo semestre de 2012, estreou no Rio de Janeiro, na Casa de Cultura Laura Alvim, a montagem de O homem travesseiro de Martin McDonagh dirigida por Bruce Gomlevsky com a sua Companhia Teatro Esplendor. A peça fez ainda uma segunda temporada no Teatro do Leblon no final do ano. O empreendimento do diretor, que também protagoniza o espetáculo, segue uma linha de dramaturgia interessante para o seu grupo. As montagens anteriores, Festa de família de David Eldridge e A volta ao lar de Harold Pinter, apresentavam textos excelentes, ambos sem apelo fácil, encenados com simplicidade: proposta que parece priorizar uma determinada tentativa de relação com o público, uma relação que é, por assim dizer, mais intelectual, no melhor sentido do termo. O diretor não investe muito na visualidade do espetáculo e não prioriza atuações de destaque óbvio. Parece que há uma valorização das ideias que estão em jogo no texto, e acima de tudo, das relações complexas entre os personagens – o que se torna visível, principalmente, em atuações mais discretas e sofisticadas. O foco está na ação, no jogo, e aí o espectador está imerso.