Manifesto da recepção artística pela busca do direito de ser espectador

31 de agosto de 2015 Estudos

Vol. VIII, nº 65, agosto de 2015

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Resumo: O artigo analisa o juízo estético de um espectador comum feito por meio de uma carta de uma sócia de um clube de espectadores criado pelo Espaço Cultural Escola Sesc em Jacarepaguá no Rio de Janeiro. Por meio desse artigo busca-se expor a reflexão sobre a importância da crítica de um espectador não especializado e como a análise de um objeto artístico colabora para a formação de subjetividade e de cidadania

Palavras-chaves: espectador, crítica, cidadania, clube, cultura

Resumen: El artículo analiza el juico estético de un espectador común hecho por medio de una carta de una socia de un club de espectadores creado por lo Espaço Cultural Escola Sesc enJacarepaguá en Rio de Janeiro. Por medio de ese artículo busca-se exponer la reflexión acerca de la importancia de la crítica de un espectador no especializado y como el análisis de un objeto artístico colabora para la formación de subjetividad y de ciudadanía.

Palabras clave: espectador, crítica, ciudadanía, club, cultura

 

No dia 10 de maio de 2013 a senhora Regina Lucia, sócia do Clube de Espectadores desde 21 de novembro de 2010, endereçou um arquivo por e-mail aos responsáveis pelo projeto “Palco Giratório da Escola Sesc de Ensino Médio” com o título “Carta ao Sesc Ensino Médio”. O Clube de Espectadores é um projeto realizado desde 2008 pelo Espaço Cultural Escola Sesc, localizado na Escola Sesc de Ensino Médio em Jacarepaguá, Rio de Janeiro que surge como uma tática para a formação de publico a partir de ações que visam políticas culturais com o objetivo de dar a todos o acesso à uma programação cultural de qualidade.

Regina Lucia se referia à programação do Festival Palco Giratório Jacarepaguá Brasil[i], realizado desde 2010 no Espaço Cultural Escola Sesc. A exposição dessa carta nos ajuda a analisar a estética e a crítica na arte contemporânea. No entanto, será pensada uma crítica que não é a especializada, mas a que qualquer sujeito pode fazer diante de um objeto artístico. Para isso, propomos refletir sobre essas questões a partir do trabalho desenvolvido no projeto Clube de Espectadores.

Esse projeto visa a sistematização de um público e de ações de cidadania cultural que pretendem garantir o direito ao acesso à arte e à cultura para quem quiser. Qualquer um pode se tornar um cidadão estético, pois, se o juízo que se faz de um objeto artístico não tem um conceito a priori, pode ser de qualquer um. Segue abaixo, na íntegra, a carta de Regina Lucia:

Rio de Janeiro, 10 de maio de 2013.

Ilmos. Srs. responsáveis pelo Projeto Palco Giratório da Escola Sesc de Ensino Médio:

Sou frequentadora, há mais de dois anos, do Espaço Cultural da Escola Sesc de Ensino Médio, instituição admirável, que avalio como um grande avanço na Educação. Já assisti a espetáculos maravilhosos, como o Circo Dux e Mangiare, para os quais convidei alguns amigos, ambos bastante elogiados pela qualidade do texto, do elenco, do conteúdo como um todo. Também participei do workshop de Gastronomia, liderado pelo chef Fabiano Dias e achei muito positivo, incluindo as palestras de convidados.

Entretanto, a noite do dia 9 de maio foi muito decepcionante. Convidei um amigo para assistirmos a “O pulo”[ii], do projeto Palco Giratório e o que vimos não pode ser classificado de espetáculo e muito menos ser apresentado para ninguém, que dirá para alunos do Ensino Médio, jovens em formação, quase atingindo o ensino universitário, os quais se pretendem pessoas críticas, questionadoras, que desenvolvam seu raciocínio e consequentemente ajudem a desenvolver o nosso país, tão carente de cérebros pensantes nos últimos tempos.

Não faço esta avaliação levianamente, ou carente de argumentos, nem para “detonar” ninguém, mas com a intenção de fazer uma crítica construtiva, para que esta Instituição reveja com mais cuidado os critérios utilizados na escolha do que é apresentado aos seus alunos e ao seu público em geral. Frequento teatro há cerca de quarenta anos, conhecendo muitos autores e atores brasileiros de respeito. Além disso, sou professora, com formação em Letras, tendo trabalhado na rede municipal e no Colégio Pedro II, por um período total de quarenta e dois anos. Como coordenadora de Língua Portuguesa e posteriormente de Literatura Infanto Juvenil, levava espetáculos de teatro ao colégio, sempre assistindo previamente cada um, para evitar mal entendidos ou inadequações.

Creio que o mesmo procedimento possa não ter sido realizado pelo projeto Palco Giratório porque as companhias são de outros estados, não havendo tempo hábil para uma avaliação prévia, o que incorre no risco de serem selecionados espetáculos de baixa qualidade ou até inadequados.

O pretenso artista, que se disse “artista de rua” apresentou algo que nem sei definir. Parecia não haver um texto, um objetivo, mas mesmo os espetáculos de improviso devem ter alguma diretriz e consistência. Não havia nada de novo, uma piada inteligente, ironia ou expressão corporal que pudesse classificá-lo como artista.

Chamava o público a participar com frequência para preencher o tempo que lhe foi oferecido, e tentava, em vão, fazer graça com suas performances desprovidas de talento, inclusive insistindo para que uma mocinha beijasse seu traseiro, num flagrante mau gosto. Percebendo que eu não movia um músculo para rir de sua apresentação, disse que havia feito aquele movimento “de tigrão” especialmente para mim, ainda assim não me tirando da indiferença. Perguntou se eu era casada, se o rapaz ao lado era meu marido, se eu era professora… E assim continuou, do nada para lugar nenhum e observei, satisfeita, que alguns jovens se levantaram e se retiraram. Pensei que nem tudo estava perdido…

Continuei ali, apenas para ver aonde aquilo ia chegar, mas não consegui permanecer até o final, pois ele extrapolou ao tirar uma bandeira brasileira do seu carrinho de feira e dizendo que “a plateia o ajudaria a realizar um sonho”, colocou-a nas costas e começou, do nada, a cantar o Hino Nacional Brasileiro, enquanto algumas pessoas da plateia, que permaneceu sentada, pois não havia justificativa para se levantar e cantar o hino, riam, ou faziam comentários sobre o flagrante desrespeito ao  maior símbolo de uma nação.

Depois da primeira estrofe, ele resolveu parar da cantar e chamar duas moças para fazer um “concurso” e ver quem sabia cantar o hino corretamente. Revoltada com o desrespeito e o péssimo exemplo dado àquela plateia, em sua maioria formada por jovens, retirei-me com meu amigo, com o firme propósito de escrever esta carta e desejando que o referido ator receba algum tipo de chamada, crítica ou mesmo uma repreensão pela conduta vergonhosa.

Lamentei ter dado prioridade a esse programa, quando havia tantos outros dignos de atenção e me desculpei com meu amigo, por tê-lo feito perder seu precioso tempo. Estou desestimulada a continuar frequentando os espetáculos do Projeto Palco Giratório, e a convidar amigos, com receio de me deparar com outras apresentações da mesma qualidade.

Sem mais para o momento, despeço-me.

Atenciosamente,

Regina Lucia

Regina Lucia inicia a carta falando que é frequentadora do Espaço Cultural Escola Sesc há mais de dois anos e qualifica o referido espaço como uma instituição de Educação. Se utilizarmos sua carta como um exemplo de manifestação do sócio do Clube de Espectadores e público em geral (sócio e não sócio), podemos cogitar que para esse público a noção de formação está atrelada à programação do Espaço Cultural Escola Sesc.

Regina Lucia inicialmente elogia a programação, cita alguns exemplos do que elege como uma boa programação e diz indicá-la aos amigos demonstrando legitimidade como sócia. No entanto, o que vai se revelando na carta de Regina Lucia é o objetivo de reivindicar o seu direito como espectadora, frequentadora do Espaço Cultural Escola Sesc e sócia do Clube de Espectadores, de criticar o espetáculo “O pulo do Rio de Janeiro. No entanto, Regina Lucia afirma ter sido muito “decepcionante” a noite em que foi apresentado o referido espetáculo.

Regina Lucia expõe o seu juízo estético como algo universal tal como o filósofo Immanuel Kant elabora em sua Crítica da Faculdade do Juízo. A análise crítica de Regina Lucia parece estar respaldada pelo juízo estético de seu amigo, fazendo com que ela, por meio do compartilhamento da experiência estética citada, acredite que o seu sentimento seja o mesmo de todos.  A partir de então ela utiliza como argumento, em defesa de seu gosto, que “O pulo “não pode ser classificado de espetáculo e muito menos ser apresentado para ninguém”. Nessa afirmação da sócia está explícito um ideal de espetáculo e a certeza de que o que é ruim para ela é também para todos. Kant diz que:

Em todos os juízos pelos quais declaramos algo belo não permitimos a ninguém ser de outra opinião, sem com isso fundarmos nosso juízo sobre conceitos, mas somente sobre nosso sentimento; o qual, pois, colocamos a fundamento, não como sentimento privado, mas como um sentimento comunitário (…). (KANT, 2005, p. 82).

O mesmo pode valer para quando declaramos algo como feio, de mau gosto ou repugnante. Mas há algo no discurso dessa espectadora que também parece confundir os conceitos de bem e bom na experiência estética. Segundo Kant, o que está atrelado à noção de belo é tudo aquilo que é bom, mas o bem está relacionado à dimensão moral, que também pode se estabelecer numa experiência estética.

O belo age no sujeito gerando sentimentos, pois “esta disposição não pode ser determinada de outro modo senão pelo sentimento (não segundo conceitos)” (KANT, 2005, p. 84), podendo concluir que há uma qualidade de sentimento e por isso é subjetivo. Mas, não é somente particular, pois existe uma necessidade de que o outro concorde com o juízo estético que se fez sobre o mesmo objeto, “visto que a comunicabilidade universal de um sentimento pressupõe um sentido comum” (KANT, 2005, p. 84). Em Kant não é possível negligenciar o sentimento, já que a pretensão de universalidade não ocorre sem os sentidos. Existe a hipótese da existência de uma sensibilidade comum que une a humanidade, pois, se tratando de beleza, o sujeito tem sempre a pretensão de que o outro concorde, pois universal é o sentido e as ideais que propiciam um desejo de compartilhamento. Essa carta escrita por uma sócia do Clube de Espectadores é a manifestação desse desejo.

A matéria é o lugar do conhecimento a priori, e a capacidade de construir uma experiência é o que importa a Kant. A experiência ocorre com a relação entre o sujeito e a forma, propiciando um juízo estético. O juízo de beleza não é o objeto, mas a qualidade da experiência. O que se pretende universal é que todos concordem em relação ao juízo que se faz desse objeto a partir de uma experiência. A arte está ligada à experiência, pois a beleza é um julgamento individual, mas tem uma pretensão universal, como nos exemplifica a carta analisada.

Outra questão também presente na carta parece ser mais de ordem sociológica do que filosófica. A sócia, ao identificar a programação do Espaço Cultural Escola Sesc como sendo de formação, nos apresenta o seu entendimento de espectador crítico como aquele que tem estudo formal. No entanto, a capacidade de ser crítico na experiência artística está mais relacionada ao sentimento e à vivência do que ao grau de instrução do sujeito. Pretende-se com esse artigo comprovar a possibilidade de formação do espectador e de fazê-lo fruir melhor, estando mais disponível para o jogo da recepção artística.

No entanto, essa pretensão de oportunizar uma melhor fruição não é direcionada para as pessoas sem estudo, mas para as pessoas sem hábito de contemplar arte. Sem dúvida que o acesso ao estudo, a condição econômica e o hábito cultural do sujeito estão correlacionados, mas não são relações causais como a autora da carta quis fazer parecer. Não há garantia nenhuma de que um estudante universitário será um melhor espectador ou mesmo mais crítico. Ou que o espectador por ser um propenso estudante universitário tenha um padrão de espetáculo a lhe ser apresentado. Até mesmo porque a arte não tem padrão.

Regina Lucia, na defesa de seu discurso, expõe seus argumentos e a sua autoridade de frequentadora do Espaço Cultural Escola Sesc e de espectadora, além de orientar o que se deve ou não programar. Ela propõe aos programadores do Espaço Cultural Escola Sesc que se “reveja com mais cuidado os critérios utilizados na escolha do que é apresentado aos seus alunos e ao seu público em geral”. A autoridade da sócia do Clube de Espectadores é fundamentada em alguns aspectos como: o fato de frequentar teatro há cerca de quarenta anos, conhecer muitos autores e atores brasileiros “de respeito” e ser professora com formação em Letras há quarenta e dois anos. Regina Lucia também fala de critérios de escolha de uma programação tal como a necessidade de assistir previamente um espetáculo antes de programá-lo para um público “para evitar mal entendidos ou inadequações”. Ela classifica “O pulo” como de “baixa qualidade” e “inadequado”.

No seu discurso, um pouco catastrófico, ela justifica o que considera “mal entendidos” e “inadequabilidades” nessa experiência artística, que acabam por levá-la a classificar o espetáculo como de mau gosto. A espectadora cria uma relação entre esses valores como se eles estivessem dados. No entanto, “mal entendidos” e “inadequabilidades” não são exatamente sinônimos de mau gosto no campo das artes. Utilizo essas classificações de Regina Lucia não em defesa do espetáculo, mas para pensar alguns conceitos que são abordados na artigo a partir de valores atribuídos à experiência estética que não são os mesmos da vida ordinária. A arte tem como pressuposto a criação de mal entendidos e outros entendimentos. Justamente por isso que a arte nunca será adequada.

Em Será que a arte resiste a alguma coisa, o filósofo, Jacques Rancière, fala justamente dessa tensão do jogo em que a arte quer ter algum tipo de exemplaridade para criar uma nova forma de vida. É como se as obras tivessem uma intenção que superassem a vida do artista, pois elas produzem sentidos que não estão dados pela intenção de quem as produziu. Rancière parece se referir a esse jogo próprio da relação entre o sujeito e o objeto artístico quando diz que a arte:

(…) é um perpétuo jogo de esconde-esconde entre o poder de manifestação sensível das obras e o seu poder de significação. Ora, esse jogo de esconde-esconde entre o pensamento e a arte tem uma consequência paradoxal: a arte é arte, resiste na sua natureza de arte, apenas enquanto não é arte, enquanto não é o produto da vontade de fazer arte, enquanto outra coisa que a arte (RANCIÈRE, 2007, p. 6).

Nesse momento ele está considerando a arte como um ato de resistência. Em alguma medida parece que Rancière só considera possível a resistência da arte quando ela não possui o estatuto de arte. Quando a arte resiste em ser arte, por mais que isso pareça contraditório. Porque o objeto artístico já não pode ser arte somente pela intenção do artista, pois ela precisa se processar como tal. A partir das colocações de Rancière, talvez seja possível afirmar que o objeto só pode ser artístico no processamento do jogo que se estabelece entre o sujeito, o objeto e o mundo que o cerca.

Esse sujeito lida com a experiência estética ao mesmo tempo em que está se relacionando com o mundo. Para entender isso é preciso trabalhar com as noções de arte, vida, forma e realidade na medida em que a vida é real e a forma é necessária. A experiência estética está sempre tensionada com a realidade, por isso existe a necessidade da forma artística ter sempre algum tipo de relevância e repercussão na vida. Esse jogo tem a ver com a liberdade da recepção em que o sujeito constitui sentidos à obra que ultrapassam o objeto. Então, o jogo estético pode propiciar ao sujeito a liberdade de se criar para além do que foi pensado pelo artista.

Nesse sentido o sujeito-receptor passa a ser também o criador da obra, na medida em que dá a ela possibilidades de sentidos que estão para além dela e da pretensão do artista, seja positiva ou negativa. Assim a arte pode criar outras realidades. Uma vez no mundo a obra deixa de ser a intenção do artista e, nesse jogo, a obra vai se processando. A obra depende da recepção para ter sentido e, por isso, o receptor também é um criador. O espectador diante da obra – que não é exatamente o que é – se deixa seduzir por alguma sugestão de sentido que está se formando, mas não está formado e sabido exatamente. Rancière propõe que a arte crie a seguinte divergência: “(…) de ser a manifestação de um pensamento que se ignora num sensível extirpado das condições ordinárias da experiência sensível” (RANCIÈRE, 2007, p. 6).

Todas essas reflexões, a partir da filosofia de Kant e de Rancière, são importantes para tentar compreender a experiência estética e as suas dimensões. Em alguma medida, essa abertura que a arte propicia para o novo é a liberdade almejada na recepção artística. No entanto, Regina Lucia fala que ao assistir ao espetáculo “O pulo”, “não havia nada de novo, uma piada inteligente, ironia ou expressão corporal que pudesse classificá-lo como artista”. Para ela, “O pulo” não é arte. E talvez não seja mesmo, por que para algo tornar-se arte precisa ser legitimado como tal por várias pessoas.

Mas o papel de legitimar algo como arte não é exclusivamente do programador e do curador, mas também do espectador. Talvez principalmente do espectador, tendo em vista essa carta como exemplo. Regina Lucia manifesta a sua indignação por achar que o espetáculo não deve ser apresentado a ninguém. Ela discursa em prol do seu direito de reivindicar o que é arte ou não é arte. Evidentemente que esse direito sempre incorre num risco totalitário, mas o que nos interessa neste momento é perceber nessa carta o que algo legitimado como arte (nesse caso pelos programadores do Espaço Cultural Escola Sesc) pode causar no espectador comum. Parece que é exatamente isso que Regina Lucia está reivindicando: o seu direito de ser espectadora que não se encerra na fruição. O exercício da arte é o campo da dissensão, e nesse aspecto a experiência estética é uma afirmação da liberdade. De uma maneira geral a arte contemporânea tem pretendido essa liberdade.

Ainda utilizando o discurso da sócia do Clube de Espectadores como uma possibilidade de análise das questões de valores, cidadania, ética e maneiras de intervenção no cotidiano, a espectadora diz que o “pretenso” artista apresentou algo que ela não sabe definir. Regina Lucia escreve em sua carta a dificuldade de se falar de arte, de gosto e legitimidade em arte.  Ela coloca em xeque o status de artista. Ela sabe o que é arte e, consequentemente, o que é um artista. No entanto, algo de insuportável e de uma repulsa incontrolável toma conta dela fazendo com que a sua recepção artística fosse interrompida antes de finalizar o espetáculo.

Está posto um valor com pretensão à universalidade kantiana. A espectadora afirma que o seu sentimento e o dos demais espectadores foi o mesmo na cena descrita quando adjetiva o ato em cena com a bandeira nacional como “desrespeitoso” e de péssimo exemplo dado àquela plateia – em sua maioria formada por jovens.  Parece que esse foi o maior estímulo para a escrita de sua carta, a “indignação” de presenciar este ato de “flagrante desrespeito ao maior símbolo de uma nação”. Parece que Regina Lucia confundiu realidade e ficção ao nos relatar a sua experiência estética com esse espetáculo.

Vale aqui evocar Clifford Geertz (1997), em sua defesa de que a relação com o objeto artístico falará muito mais do espectador de arte do que do objeto artístico. Mas é importante considerar que a arte não tem os mesmos compromissos que a vida imbuída de seus acordos e regras estabelecidas. Pelo contrário, a arte é justamente o que não tem conceito, nem acordo, muito menos a priori. Por isso a sua importância, para buscar garantir a possibilidade de algo novo, incerto e imprevisível.

Regina Lucia finaliza a carta expondo o seu desejo de que o ator seja punido recebendo “algum tipo de chamada, crítica ou mesmo uma repreensão pela conduta vergonhosa”. Ela está furiosa, mas os critérios de punição e controle são utilizados para pessoas que estão atuando num mundo ordinário de regras, não para artistas ou pretensos artistas. Ao mesmo tempo em que o mais potente na arte – ou pretensa arte – é a possibilidade de despertar no espectador sentimentos variados, desejo de argumentação sobre o que lhe foi apresentado, possibilitando a exposição de seus valores; pois só assim eles poderão ser negociados ou reafirmados, crente da capacidade da arte tornar-se realidade – para o bem e para o mal – podendo criar impulsos de novos sentimentos e relações com o mundo. Mas tudo isso precisa ser estabelecido como um jogo de criança, um jogo lúdico. Não pode ter a dureza da realidade. Para a arte não existe certo ou errado, por isso não há correção.

A partir de gestos de desativação para transgredir a finalidade do objeto foi possível rever determinados conceitos artísticos importantes e fundamentais para a arte contemporânea. A escolha, o deslocamento do objeto e o pensar de outra maneira fazem parte do exercício do juízo estético onde o sentido está em construção. O lugar da recepção criativa gera uma atitude imaginativa que pulsa no espectador. A imaginação passa a ficar à procura de um conceito. Compete à arte e ao pensamento desativar mecanismos para destruir e interromper o fluxo das coisas, não servir de exemplo ao espectador.

Talvez esse seja o desejo mais almejado com o trabalho desenvolvido pelo Clube de Espectadores: auxiliar o sujeito ao longo do seu processo de formação enquanto espectador. Provavelmente a maior indignação da nossa personagem real, Regina Lucia, seja não ter sido surpreendida pelo que foi apresentado e nem estimulada a pensar em outros usos que as coisas podem ter, além de ter sido ofendida moralmente.

Em um jogo de inversão em que se realizasse a crítica do espectador, diríamos que nossa espectadora precisa rever alguns valores morais muito radicais para ter a liberdade de uma fruição mais prazerosa, além de buscar dar seriedade à fruição, mas sem perder de vista que nenhuma experiência é igual à outra, e que a frustração sempre será um risco nesse jogo, enquanto se estiver jogando. É preciso suportar o mal entendido, a inadequação, o equívoco e a frustação.

É preciso não desistir nem desestimular, pois espaço cultural nenhum fará pelo seu frequentador mais que ele mesmo. Esse é o legado que se almeja deixar com o trabalho desenvolvido pelo Espaço Cultural Escola Sesc e as ações do Clube de Espectadores. Gostaríamos de proporcionar a todos os sócios do Espaço Cultural Escola Sesc possibilidades de criação de novos sentidos, para então almejarem outras possibilidades de vida. Será que isso se ensina? Não sabemos, mas com certeza se aprende.

Para responder a esta questão é necessário debruçar-se sobre conceitos complexos da filosofia kantiana, para além das noções de jogo, consumo, educação, estética, ética e política na arte. Acredita-se que o Clube de Espectadores é, sobretudo, um projeto de construção de uma cidadania por meio da formação do espectador, buscando garantir à sociedade o direito constante à recepção artística. A única utilidade possível da arte é a possibilidade que ela oferece ao cidadão em constante formação de constituição da identidade, tornando o sujeito defensor de seus interesses por meio de um discurso mais crítico e subjetivo.

Ao mesmo tempo em que pensamos em educação estética trabalhamos com um meio, que é a difusão da arte. O termo educação dos sentidos está indicando uma necessidade de garantir ao sujeito a possibilidade de elaboração de um conceito não definido. Logo, de algo muito subjetivo. Quando Kant ratifica a questão da pretensão à universalidade da recepção artística ele está nos alertando para algo de extrema importância (principalmente para quem se compromete em proporcionar a relação entre arte e sujeito): o desejo de que o que é belo para mim seja belo para o outro também.

E na relação com o outro é urgente o conhecimento de si mesmo. É preciso discutir o gosto, mas para isso, é preciso que exista uma política cultural que garanta ao cidadão a possibilidade de estar em contato com a arte para saber do que se gosta, do que não se gosta e buscar conviver com a impossibilidade da universalidade de seu gosto. Aí estaremos em busca de uma maior tolerância com a diversidade social.

A ideia de clube tem como princípio básico o convívio social, por isso a sistematização é tão prioritária, pois somente desse modo é possível criar um ambiente propício para o desenvolvimento de valores cidadãos. Ao mesmo tempo, as ações criadas para os sócios do Clube de Espectadores não se restringem ao ato de assistir a uma atividade de fruição. Todas essas atividades artísticas buscam, sobretudo, a afirmação do sujeito enquanto cidadão estético. Por isso a recepção artística, o convívio social, a elaboração de um discurso crítico sobre arte e cultura, e seu compartilhamento são fundamentais para a realização desse trabalho de formação de público, que visa o fortalecimento da noção de cidadania.

O Clube de Espectadores não foi criado para dar vantagens aos seus sócios, mas para criar um coletivo crítico que possa se reconhecer nas diferenças. Isso não exclui a possibilidade de desenvolver afetividade com o espaço e entre os sujeitos com os quais se relacionam, mas não para um benefício exclusivamente subjetivo, e sim pela crença de que ser espectador é antes de tudo vivenciar a sua subjetividade para então se colocar no lugar do outro. É mais do que assistir a algo. Trabalhamos para que seja uma construção de valores, que façam do ato de assistir a um espetáculo um ato de ética.

 

Referências bibliográficas:

GEERTZ, Clifford. “A arte como um sistema cultural”. In: O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Trad.: Vera Mello Joscelyne. Petrópolis: Vozes, 1997.

KANT, Immanuel. Crítica da Faculdade do Juízo. Trad.: Valério Rohden e Antônio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

RANCIÈRE, Jacques. “Será que a arte resiste a alguma coisa?” Trad. Monica Costa Netto, 2007. Disponível em: https://we.riseup.net/assets/94242/versions/1/sera%20que%20a%20arte%20resiste%20a%20alguma%20coisa%20ranciere.pdf.

 

Recomendações de leitura:

BAUMAN, Zygmunt“O significado da arte e a arte do significado”. In: O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Trad. Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998.

BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Trad.: Daniela Kern, Guilherme J. F. Teixeira. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2008.

CHAUÍ, Marilena. Cidadania cultural: o direito à cultura. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006.

CRUZ, Sidnei. “Desenvolvimento cultural local: uma relação entre capital social e gestão cultural”. In: Revista Intercâmbio – Vol. 1, n.1. Rio de Janeiro: Sesc, Departamento Nacional, 2011.

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1998.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DPeA, 2011.

MARSHALL, T.H. Cidadania, Classe Social e Status. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967.

MONTESQUIEU, Charles de Secondat. O gosto/Montesquieu. Trad. Teixera Coelho. São Paulo: Iluminuras, 2005.

OSÓRIO, Luiz Camillo. “Arte e política”. In: Folhetim: Teatro do Pequeno Gesto, n.22. Rio de Janeiro: Teatro do Pequeno Gesto, 2005.

TÔRRES, Viviane da Soledade. Clube de Espectadores: um projeto de cidadania cultural para além dos muros da Escola Sesc de Ensino Médio”. In: Revista Intercâmbio/Sesc, Departamento Nacional. Vol. 1, n. 3 (out.2013). Rio de Janeiro: Sesc, Departamento Nacional, 2011.

 

Viviane da Soledade: Bacharel em Teoria do Teatro pela UNIRIO, pós-graduada em Arte e Cultura pela UCAM, mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela FGV. Integra a equipe da Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio, na qual desenvolve o trabalho de curadoria do projeto Palco Giratório, programação, produção cultural, formação de público do Espaço Cultural Escola Sesc e coordenação do Projeto Social.

 

Notas:

[i] O projeto fomenta as artes cênicas por quase todo o Brasil. O festival é um panorama de toda a sua programação, composta pelos 16 grupos selecionados de várias regiões brasileiras e grupos locais com perspectiva do desenvolvimento cultural local.

[ii] O título original do espetáculo foi substituído por um título-psedônimo para preservar os artistas envolvidos, tendo em vista que o objetivo em expor a carta é analisar o juízo estético de um espectador não especializado ao invés de fazer valer esse juízo estético.  O espetáculo não faz parte da programação oficial do projeto Palco Giratório, mas integrou a mostra local do Festival Palco Giratório Jacarepaguá Brasil como espetáculo convidado com o objetivo de criar um panorama de uma produção do Estado em meio a uma programação nacional.

 

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