Críticas
Debate teatral a partir de Tchekhov
Anton Tchekhov lançou discussões artísticas – presentes em suas grandes peças, escritas na primeira década do século XX – que permanecem atuais. Talvez a mais evidente possa ser encontrada em A gaivota através do contraponto entre Arkádina e Treplev, mãe e filho que travam uma relação absolutamente passional, ambos defendendo visões de teatro contrastantes – ela uma atriz-diva, símbolo de uma cena atada a convenções, e ele, promissor aspirante a dramaturgo, escrevendo em busca de “novas formas”, norteado pela inquietude. Em Tio Vanya, o acalorado debate artístico também desponta, mesmo que de modo um pouco mais discreto, sinalizando uma das fontes de frustração do personagem-título. Atormentado pelo descompasso entre o que gostaria de ter sido e o que efetivamente se tornou, ele já começa a peça revoltado com o fato de ter passado anos devotado à figura do professor Sérébriakov.
A complexidade do improviso posta à prova
De Porto Alegre
No espetáculo Tá e aí? da companhia gaúcha Clube da Patifaria, logo no início, a relação palco e platéia se estabelece e começam os jogos. Cabe ao espectador determinar aspectos da cena, como por exemplo: o lugar. Para quem fez práticas teatrais esta proposta não é nova, mas, a maneira como vai se apresentando impressiona. Exatamente por reconhecê-las, é possível saber o grau de complexidade de algo que parece banal. Afinal, improvisar é uma das premissas de quem faz teatro, mas, como exercício, testa o ator. Rapidez no raciocínio, disponibilidade, coragem de encarar cada desafio. A exposição do ator ao inusitado induz ao riso.
Rainhas ao quadrado
Mary Stuart, clássico de Schiller, é encenada em São Paulo e no Rio, mostrando como anda a produção teatral das duas cidades.
De tempos em tempos, o público tem a sorte de ter em cartaz simultaneamente duas versões da mesma peça. Aconteceu recentemente com Ricardo III, de Shakespeare, quando Jô Soares dirigiu Marco Ricca e Roberto Lage dirigiu Celso Frateschi ao mesmo tempo na cidade de São Paulo. Com duas montagens em cartaz do mesmo texto, as opções de cada uma ficam bem mais evidentes, revelando não só o quanto o teatro é uma arte de infinitas possibilidades, mas principalmente como a arte é feita de várias escolhas que – esperamos – se traduzem no palco como uma realidade inventada. Obviamente, ao relevar alguns aspectos do texto e ignorar outros, ao escolher uma tradução ou realizar cortes no texto original, um diretor e sua equipe direcionam também a maneira pela qual o público vai usufruir daquela obra.
Brincando de ser Don Juan
Como representar um mito? Como atualizá-lo? E um mito do peso e força de Don Juan, já amplamente explorado pela dramaturgia, literatura e cinema? Como trazê-lo à tona colocando suas questões de infidelidade, hedonismo, paixão, luxúria com um olhar que busca entendê-lo dentro dessa múltipla faceta? Como trazê-lo sob um olhar de julgamento? Ou sob um prisma que pretende compreendê-lo dentro de sua porção mais humana? É certo que são várias as possibilidades de dar a ver esse mito/homem/personagem na cena. Na montagem dirigida por Thierry Trémouroux e Cia D., em cartaz na Sala Multiuso do SESC Copacabana, o que vemos é um recorte do que pode vir a ser o mito Don Juan em suas mais diversas possibilidades de ser, sugerindo um ser multifacetado, inquieto e transgressor em certa medida.
O avesso das convenções teatrais
In on it, peça de Daniel MacIvor, desponta como um exercício intrigante. O termo exercício não diz respeito a um material apenas rascunhado, que não teria atingido um acabamento profissional, e sim a uma dramaturgia em aberto, “indefinida”, propícia à experimentação, principalmente no modo como diretor e atores lidam com a alternância de planos entrelaçados pelo autor.
Ao longo de toda a encenação, Enrique Diaz deixa a impressão de subverter convenções teatrais. Os atores Emílio de Mello e Fernando Eiras transitam, por exemplo, entre registros vocais diversos: no plano em que os personagens surgem “desarmados”, conversando de modo coloquial, suas vozes entram em sintonia com um naturalismo construído, destituído de efeitos; já no plano em que os personagens representam, os atores se valem de uma projeção mais tradicional, mais frequentemente encontrada em apresentações teatrais.