Críticas
A rua como contingência teatral

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz de Porto Alegre se apresentou na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, no dia 15 do mês de abril às 15h. A direção e o texto do espetáculo O amargo santo da purificação foram criados pelo grupo tendo como mote a trajetória do militante do Partido Comunista Carlos Marighella, que dedicou-se à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo durante o período de maior repressão imposta pelas ditaduras de Getúlio Vargas e militar. O espetáculo assume uma linguagem alegórica para dar conta dessa trajetória e o numeroso elenco determina a estrutura coral. A história de Marighella é contada principalmente em forma de música e o roteiro se fundamenta em marcos históricos da vida do personagem.
Peças que desafiam o espectador

O Festival de Curitiba recebeu boa parte das Autopeças da Companhia dos Atores, projeto concebido com o intuito de comemorar os 20 anos do grupo. No Teatro Paiol o público assistiu a Esta propriedade está condenada, com direção e atuação de Suzana Ribeiro, Apropriação@, conduzida por Bel Garcia, Bate Man, com Marcelo Olinto, e Talvez, assinado por César Augusto. Ficaram de fora do festival Os vermes, montagem de Marcelo Valle que reunia um maior número de atores, e A ordem do mundo, monólogo com Drica Moraes.
Convite à cumplicidade

Está de volta ao Rio o monólogo Negrinha, que fez curta temporada na sala Multiuso do SESC em 2008. Agora em cartaz no Casarão Austregésilo de Athayde, a peça se encaixa numa outra realidade da produção teatral carioca: os espaços pouco convencionais demoram um pouco pra formar público. O SESC é uma oportunidade segura para a visita de produções de fora da cidade, tendo em vista que o espaço já tem o seu público cativo. No entanto, nem sempre o público do SESC é o público certo para a peça que vem de fora, e nem sempre o espaço é o ideal. No caso de Negrinha, o Casarão pode ser uma opção mais interessante para o espetáculo, especialmente se levarmos em conta as opções de espaço cênico que o grupo tem feito para o seu repertório.
A boa e bela alma

A alma existe? Segundo Bertolt Brecht, não.
Para o maior teórico do teatro épico a humanidade prescinde dessa substância que, desde Aristóteles, permeou todas as indagações a respeito da natureza humana, constituída, segundo o filósofo grego, por três dimensões indissolúveis: a vegetativa, a sensitiva e a noética. Também alcunhada de chama, espírito, consciência, princípio vital, entre outras denominações, foi ela tomada como bela – a bela alma – após Schiller e o romantismo alemão, quando passou a reunir a capacidade de, simultaneamente, ser graciosa (quando a sensibilidade coincide espontaneamente com a lei moral) e virtuosa (quando a vontade é determinada pelo dever), impregnando a cultura alemã com tais traços idealista e transcendente em relação aos instintos.
Avessamentos
A performance passou a ser considerada uma expressão artística independentemente de definições na década de 1970, época em que o conceito se impunha mais do que o produto propriamente dito. Quando pensamos em performance, pode surgir a idéia de que ela tem como um de seus objetivos ou conseqüências provocar o choque. Os artistas elaboravam manifestações em espaços urbanos, avaliando de certa forma o fazer artístico em meio ao cotidiano das pessoas. O choque podia ser compreendido tanto pelo lado de quem fazia, quanto pelo lado da recepção, pois não era possível prever as reações. Uma das idéias de performance está associada mesmo à sua característica de acontecer uma vez e nem sempre deixar registro. O caso feliz da Companhia Excessos de Portugal é que ela realiza uma gravação do seu trabalho e veicula na internet, como no caso da performance O outro beijo no asfalto. O que acontece é que mais pessoas podem se envolver e os sentidos se alastram. Esse texto, portanto, é um exercício crítico mediado pelas imagens capturadas por outro, já nasce de uma operação de olhar conjunto e se constrói mais obviamente por uma alteridade.