Críticas
Presença que escapa

Em sintonia com uma das principais propostas da Cia. dos Atores, Devassa desponta como uma desconstrução de um texto original – no caso, Lulu, de Franz Wedekind, já transportado para o cinema por G W. Pabst. A diretora Nehle Franke e os atores se preocuparam em entrar em contato com a integridade da obra original antes de dissecá-la em cena. É interessante acompanhar a perseguição dos personagens por uma Lulu, que, mesmo quando parece ter sido dominada, escapa, sempre fugidia, das mãos de seus controladores.
Criação de um tempo anacrônico

A terceira edição do FESTLIP trouxe ao Teatro Nelson Rodrigues o espetáculo Ferro em brasa encenado pela companhia paulista Os Fofos Encenam que foi formada em 1992 a partir das atividades curriculares no curso de Artes Cênicas da Unicamp. O fundamento da pesquisa estava enraizado, desde o início, nas manifestações de arte popular. Em 2003 o grupo passa a investigar a estética do circo-teatro encenando A mulher do trem; Assombrações do Recife Velho, em 2005, e Ferro em brasa, em 2006. A encenação em cartaz neste Festlip, portanto, resulta de um tempo de experiência que o teatro de repertório possibilita. No caso de Ferro em brasa, essa experiência constituiu uma materialidade apurada construída pela pesquisa dramatúrgica, pela pesquisa visual, pelo trabalho vocal e pela criação de um campo de tensionamento que raramente temos a oportunidade de vivenciar na maior parte dos espetáculos, por assim dizer, populares que transitam no panorama teatral carioca.
Rendendo as rédeas ao espectador

Até então ocupada com um teatro de enredos e personagens, de tragédias caseiras e desencontros emocionais, como nos espetáculos Bicho corre hoje e Delicadas embalagens, a Cia Senhas inaugura uma nova maneira (para si) de se relacionar com o público, a matéria criativa e a ocupação do espaço em Homem Piano – Uma instalação para a memória. A diretora Suely Araújo e o ator Luiz Bertazzo criam, a partir de uma situação factual, um espetáculo que é um acontecimento em si e convida o público ao jogo, cumprindo um percurso que se abre para a possibilidade de um final verdadeiramente catártico.
A sonoridade material do texto

A encenação de Merci em cartaz no Teatro do Oi Futuro do Flamengo, escrita por Daniel Pennac, com a direção de Moacir Chaves e a atuação de Ana Barroso é um exemplo de como podem ser congregados de maneira sutil a dramaturgia, a cena e a escrita. A sutileza aqui criou um campo de beleza para a recepção no sentido da estética. Todos os elementos que constituem a encenação são cuidadosamente e inteligentemente elaborados. Para começar, vale a pena ler o programa deixado nas cadeiras do teatro. A escrita começa a forjar um imaginário antes mesmo do texto falado e que, ao final, se junta a esse último criando a possibilidade de desdobrar sentidos, uma esfera quase material para nossa reflexão.
Uma história com início, meio e fim

Savana Glacial, espetáculo do Físico de Teatro em cartaz no Maria Clara Machado, tem como mote e interesse principal o que podemos entender por “uma história bem contada”, bem escrita e bem resolvida dramaturgicamente.
A trama se baseia nas relações de um casal em crise, a perda de um filho, o trauma de um acidente, a privação de uma vida, a solidão das vidas vizinhas e estranhas entre si. O enredo da peça se baseia na história de um casal que tem de lidar com o trauma de um acidente de carro que deixa a mulher, Meg (Andreza Bittencourt), com uma sequela: a perda de memória recente. O marido, o escritor Michel (Renato Livera), aprisiona a mulher em casa, fazendo-a anotar tudo o que lhes acontece num bloquinho, para que Meg possa se lembrar das pessoas que passam por sua casa e os últimos acontecimentos. Quando uma estranha vizinha, Ágatha (Camila Gama), aparece pela primeira vez em sua casa, todos os acontecimentos se embaralham.