Críticas

A família sob a perspectiva do teatro

1 de março de 2012 Críticas
Foto: Alessandra Haro.

A Companhia Brasileira de Teatro estreou em setembro de 2011, em Curitiba, Isso te interessa?, espetáculo que coloca em cena os atores Ranieri Gonzalez e Giovana Soar, como pais, e Nadja Naira e Rodrigo Ferrarini, como filhos, explicitando as difíceis relações no microcosmo familiar, em que uma viagem ao balneário francês de Saint Cloud é sempre aludida como esperança de felicidade. O texto da dramaturga francesa contemporânea Noëlle Renaud traz uma estrutura peculiar de falas intercaladas a rubricas dentro de uma mesma frase, que propõe aos atuantes um desafio constante de trânsito entre diferentes registros – desde a representação de personagem até a indicação direta das ações, com gradações de distanciamento. E esse entrar e sair dos personagens é intensificado pelo revezamento dos quatro atores no papel do cachorro da família, que observamos nos limites de um cenário em perspectiva.

CONTINUAÇÃO

Sobreviventes na intermitência da luz

27 de fevereiro de 2012 Críticas
Foto: Divulgação.

Convencido de que o enigma exigia uma resposta, eu busquei na obscuridade.

(Georges Banu, in Avec Grotowski, 2011, p. 8 )

A peça Breu, em cartaz no Teatro III do Centro Cultural do Banco do Brasil até março e com direção de Maria Sílvia Siqueira Campos e Miwa Yamagizawa, dá a ver o encontro de duas mulheres em um contexto cotidiano de suas vidas, assoladas de modos distintos, pelas consequências da ditadura militar no Brasil. O texto de Pedro Brício expõe uma perspectiva temporal complexa que sugere indeterminações de passado e presente, configurações de fusões e de repetições que transfiguram um modo de pensar o tempo e, portanto, a história também. A história no caso de Breu é projetada para os espectadores pela vida dos vencidos, pelos pequenos acontecimentos no refúgio da casa, por meio de diálogos quase anódinos e entrecortados de duas personagens que deixam escapar uma tensão provocadora de um latente estado de suspensão que acompanha o que é desconhecido e que está enunciado no título. Essa qualidade de transfiguração de uma noção temporal na dramaturgia revela um autor que se firma por uma escrita elaborada capaz de revelar, sem eloquência, o intempestivo ocasionado por um acontecimento histórico-afetivo, como são todas as investidas de uma ditadura na vida dos indivíduos.

CONTINUAÇÃO

Intraduzível

22 de fevereiro de 2012 Críticas
Nicole Cordery. Foto: Tatiana Farache.

O diretor Felipe Vidal, que já havia montado a peça Tentativas contra a vida dela, de Martin Crimp, continua sua relação com o autor inglês montando Duplo Crimp. Este é um projeto composto de duas peças, O campo e A cidade, ambas traduzidas por Daniele Avila Small, e que estiveram em cartaz no Teatro Gláucio Gill de 13 de janeiro a 13 de fevereiro.

É inevitável estabelecer, primeiramente, a ordem destas em relação a Tentativas. Sendo um marco na carreira e no estilo de Crimp, Tentativas fundamentou elementos dramatúrgicos que podem ser vistos em iminência na peça O campo e já bem explorados em A cidade. Vamos nos ater especialmente na construção das identidades de seus personagens e das questões postas aos atores para interpretá-los.

CONTINUAÇÃO

Autenticidade de relatos desarmados

21 de fevereiro de 2012 Críticas
Foto: Divulgação.

Música para cortar os pulsos, montagem da companhia Empório de Teatro Sortido que vem angariando prêmios e repercussão em festivais (melhor espetáculo da FITA 2011, Prêmio APCA 2010 de melhor peça jovem), conquista pela exposição do relato sincero, disposto diante do público de maneira direta. O autor Rafael Gomes procura expressar a intensidade das emoções juvenis, a reverberação passional de embates amorosos a partir do sofrimento decorrente de uma separação, de um desencontro de expectativas em relação a alguém muito próximo, do temor do afastamento que esse descompasso pode levar, do medo frente ao desconhecido.

CONTINUAÇÃO

Assembleia de constrições sem ajuizamentos

21 de fevereiro de 2012 Críticas

O que fundamenta a encenação de Ato de comunhão é a pesquisa de uma linguagem que possa materializar aspectos do psiquismo humano em seus momentos limítrofes. Essa intenção edifica o originário da própria noção de arte – o que, no espetáculo, criou uma zona de indeterminação entre a linguagem da performance e do teatro que as enriquece em termos de proposição e de resultados. A peça, com direção e atuação de Gilberto Gawronski e co-direção de Warley Goulart, encena o texto do argentino Lautaro Vilo que é inspirado no caso verídico ocorrido na Alemanha em 2001, no qual um homem praticou canibalismo consentido em outro homem. No texto, o protagonista do referido ato faz um alerta aos possíveis tradutores de sua fábula para o cinema de que ele, Frank da Alemanha, cometeu uma estupidez e que estes não devem cometer outra: ele não é Hannibal Lecter – referindo-se ao conhecido personagem de ficção criado pelo escritor Thomas Harris e vivido por Anthony Hopkins no cinema –, ele não permitirá trilogias, jogos de câmera, cenas de perseguições de carro, tiros ou vertigens. O que ele deseja é um ator com semelhança física e que possa compreender a questão com “ressonância trágica”.

CONTINUAÇÃO

Edições Anteriores

Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

Edições Anteriores