Autor Luciana Eastwood Romagnolli
Todos os homens são um homem só

A luz azul intensa recobrindo o palco não permite ver nada mais, até que aos poucos desvela um homem. José. Síntese de todos os homens em todos os tempos e territórios, o personagem se apresenta ao público em sua materialidade corpórea. Diz algumas palavras de identificação e então narra o próprio silêncio preenchido pelo olhar. Com ele, o público silencia e olha. O efeito de sua presença põe-se em embate com os sentidos plurais que apregoa em sua fala, alusiva a Homero e a mitos fundadores da civilização que desembocaria, milênios adiante, no homem contemporâneo. Entre a presença e o sentido, o ontem e o hoje, o lá e o aqui, é este homem – e o falso paradoxo entre suas andanças e a imobilidade instaurada em cena –, o vértice do solo As Tramoias de José na Cidade Labiríntica, da curitibana Obragem Teatro e Cia.
Irresponsabilidades aos olhos do voyeur

Ser espectador diante de um espetáculo da companhia colombiana La Maldita Vanidad é assumir a posição de voyeur. A encenação hiper-realista oferece-se como um pacto de ilusão, pelo qual se falseia o testemunho de um acontecimento da vida alheia. Eis o paradoxo no qual o grupo envolve o público: quanto mais persegue o real nos menores detalhes de ações, falas e espaços, mais se torna capaz de fazê-lo suspender a descrença, ou seja, de iludi-lo. O efeito de ilusão, contudo, depende da radicalidade no uso dessa linguagem e da complexidade da situação em que é empregada, e está sempre sob o risco de se desfazer. No limite do hiper-realismo, qualquer fissura pode desestabilizar o pacto.
A impossibilidade da representação do trauma

Ao redor de uma mesa de reunião, três mulheres jovens debatem o destino de um terreno. A cena armada com tal simplicidade pelo dramaturgo e diretor chileno Guillermo Calderón vem de encontro à noção da impossibilidade da representação do trauma que sustenta o espetáculo Villa, apresentado no 11º Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte. O terreno em debate é o vestígio de um antigo centro de tortura e extermínio mantido pelo governo chileno do general Pinochet. A Villa Grimaldi foi cenário de atentados contra a vida e de todo tipo de outras atrocidades, até mesmo o estupro de mulheres por cachorros, antes de ser derrubada pelos militares. A questão posta em discussão pelas personagens é como tratar esse passado atroz sem desrespeitá-lo ou diluí-lo. Como falar que mulheres eram estupradas por cachorros sem criar não mais que uma frase de efeito sensacionalista?
A família sob a perspectiva do teatro

A Companhia Brasileira de Teatro estreou em setembro de 2011, em Curitiba, Isso te interessa?, espetáculo que coloca em cena os atores Ranieri Gonzalez e Giovana Soar, como pais, e Nadja Naira e Rodrigo Ferrarini, como filhos, explicitando as difíceis relações no microcosmo familiar, em que uma viagem ao balneário francês de Saint Cloud é sempre aludida como esperança de felicidade. O texto da dramaturga francesa contemporânea Noëlle Renaud traz uma estrutura peculiar de falas intercaladas a rubricas dentro de uma mesma frase, que propõe aos atuantes um desafio constante de trânsito entre diferentes registros – desde a representação de personagem até a indicação direta das ações, com gradações de distanciamento. E esse entrar e sair dos personagens é intensificado pelo revezamento dos quatro atores no papel do cachorro da família, que observamos nos limites de um cenário em perspectiva.
