Autor Daniele Avila Small
Narrar, interiorizar, dialogar, descrever, caracterizar… atuar

Em cartaz até o fim de janeiro no Espaço Cultural Sérgio Porto, Corte seco, peça da Cia Vértice de Teatro dirigida por Christianne Jatahy, coloca em cena algumas questões que, a princípio, parecem pertencer exclusivamente ao universo do teatro: os exercícios, procedimentos e questões da criação de um espetáculo teatral.
Qual seria o interesse, do ponto de vista do espectador, por uma peça que expõe um processo? Qual é a conexão entre a pessoa que não faz nem estuda teatro e um espetáculo que abre fendas na sua espetacularidade e se autoficcionaliza? Se é possível dizer que os trabalhos deste grupo, assim como os de diversos outros grupos que atuam no teatro carioca, se desenvolve a partir do que se convencionou chamar de pesquisa de linguagem, como fica a relação entre a cena e o público?
Atuação e representação

Na peça O zoológico de vidro de Tennessee Williams, em cartaz no Teatro Maison de France, uma questão no trabalho dos atores aparece de forma bem delineada: em cena, duas formas diferentes de relação com a frontalidade são exemplares como registros de atuação distintos, que não costumam aparecer juntos. Estes dois registros ficam visíveis não apenas pelas escolhas do diretor Ulysses Cruz e pela própria natureza dos personagens, mas a índole e a formação dos atores também são fatores que contribuem para estas duas concepções do trabalho de atuação.
Convite à cumplicidade

Está de volta ao Rio o monólogo Negrinha, que fez curta temporada na sala Multiuso do SESC em 2008. Agora em cartaz no Casarão Austregésilo de Athayde, a peça se encaixa numa outra realidade da produção teatral carioca: os espaços pouco convencionais demoram um pouco pra formar público. O SESC é uma oportunidade segura para a visita de produções de fora da cidade, tendo em vista que o espaço já tem o seu público cativo. No entanto, nem sempre o público do SESC é o público certo para a peça que vem de fora, e nem sempre o espaço é o ideal. No caso de Negrinha, o Casarão pode ser uma opção mais interessante para o espetáculo, especialmente se levarmos em conta as opções de espaço cênico que o grupo tem feito para o seu repertório.
Uma verdade ainda negativa

O estrangeiro, peça em cartaz no Mezanino do Espaço SESC, é uma adaptação de Morten Kirksov para o romance homônimo de Albert Camus, com tradução de Liane Lazoski. Em cena, Guilherme Leme, que assina a direção junto com Vera Holtz, conta a história de seu personagem, Mersault, na primeira pessoa. Mersault é, a princípio, um homem comum. Aos poucos, percebemos que algumas fronteiras entre o comum e o incomum se romperam e que o limite entre o espaço do indivíduo e o espaço da sociedade está sendo apresentado como algo bastante complexo.
A cena da cidade
Natasha Corbelino é responsável pela iniciativa de intercâmbio entre grupos de teatro no Rio de Janeiro A cena da cidade.
DANIELE AVILA – Como se constituiu A cena da cidade, quais são seus os objetivos e pressupostos?
NATASHA CORBELINO – A Cena da Cidade começou como um movimento despretensioso gerado pela necessidade de aproximação entre os profissionais de teatro do Rio, pela carência de diálogo e cumprimentos entre nós e pela curiosidade para mapear os trabalhos/propostas. A partir de uma necessidade de abrir espaço na cidade para encontros que me permitissem saber os nomes e rostos de quem está a meu lado fazendo o mesmo trabalho, dei origem aos primeiros contatos em 2007. A resposta ao meu primeiro email foi tão grande e ativa que confirmei o óbvio: o desejo do encontro era dominante.