Estudos
A arte secreta do ator: Teoria e prática no Brasil

É possível conhecer todos os segredos da arte do ator? Até que ponto pode-se revelar o que é secreto? Não seria uma contradição organizar um “dicionário de antropologia teatral” cujo objetivo é revelar o que normalmente se esconde? E como transportar a teoria para a prática, como estimular um ator a “pensar através de ações”?
O Odin Teatret, grupo dinamarquês fundado por Eugenio Barba em 1964, chegou ao Brasil pela primeira vez em 1978, quando os atores Roberta Carreri e Francis Pardeilhan passaram dois meses em Salvador estudando capoeira e dança dos orixás, convidados pelo Grupo Teatro Livre da Bahia. De lá para cá, as trocas entre o Odin Teatret e vários artistas brasileiros só fez aumentar, em quantidade e constância ao longo desses 33 anos.
O funeral de Marina Abramović
Le génie, c’est l’enfance retrouvée.
(O gênio é somente a infância redescoberta)
Charles Baudelaire
Quatro anos atrás, Marina Abramović telefonou ao encenador Robert Wilson para lhe perguntar se ele poderia levar à cena sua morte. No entanto, ele afirmou que “somente se eu puder também levar à cena sua vida…” Em seguida, em novembro de 2010, Marina declarou, num jantar comemorativo de seus sessenta e três anos, que Antony Hegarty, do grupo Antony and The Johnsons, cantaria a música My Way em seu funeral. Com isso, ela emenda, em seu discurso, como será sua performance de despedida. Três cidades estarão na mira do destino da artista performática: Amsterdam, Belgrado e Nova York. Em cada cidade, haverá um caixão e quem comparecer ao funeral deverá estar trajando roupas coloridas. “Ninguém saberá”, diz Marina, “em qual deles estará o verdadeiro cadáver”, ou seja, somente em um caixão estará o verdadeiro corpo e, nos outros, estarão imitações da artista (1).
O meu local de trabalho é um apartamento no Marquês de Pombal

A grafia em português de Portugal foi mantida, conforme o original.
A meio do espectáculo Velocidade máxima, um dos três prostitutos com quem John Romão, o encenador, co-criou o espectáculo dirige-se ao público em tom confessional e interpela-o com uma pergunta intrigante:
“Eu tomo hormonas para o meu corpo ficar mais inchado, mais bonito e atraente. É uma aposta no negócio.(…) O problema é que com estas hormonas fico sem erecção. Para mim é um sacrifício porque quando as tomo não posso trabalhar e não ganho dinheiro e isso deprime-me, mas faz-me valorizar o investimento. Durante este período com hormonas penso em muita coisa mas quase sempre na minha casa e na minha mãe. E eu me pergunto o que é resistência: Insistência ou desistência? Eu não me sinto seguro ao fazer aquilo que faço e sei que não será para sempre. É uma medida de emergência para pagar algumas dívidas. Eu nem sei se quero viver para sempre na Europa (…)”
O que é resistência? Insistência ou desistência? Eis a pergunta que o jovem prostituto deixa no ar, aquilo em que pensa antes de pensar em segurança de vida.
Seis meses, a mesma cidade, dois grandes festivais

Nota: A grafia em português de Portugal foi mantida conforme o original enviado pela autora.
Andava eu há já algum tempo a pensar em escrever sobre a minha experiência ao acompanhar o BAM (Brooklyn Academy of Music) NextWave Festival 2010 quando, de repente, recebi por mail a newsletter de Questão de Crítica – revista electrónica de críticas e estudos teatrais onde me deparei com o texto de Walter Daguerre RADAR encontra RADAR – Breve nota sobre um festival de teatro experimental em Nova York. E o texto ecoou em mim por várias razões: estando a viver em NYC desde setembro, a seguir ao BAM Next Wave (que terminou em dezembro) também eu acompanhei o festival Under the Radar (que começou em janeiro).
Blogs bethânios, ERROuanets e cidadania da multidão
Você deve ter ouvido algo a respeito. O mundo precisa de poesia – projeto audiovisual de Maria Bethânia e Andrucha Waddington em formato blog, que prevê a postagem diária de video-pílulas poéticas interpretadas por Bethânia – é o assunto do momento. Desde meados de março, a polêmica ao redor da cifra milionária aprovada pelo Ministério da Cultura – 1,3 milhões de reais, dedutíveis do imposto de renda do patrocinador via Lei Rouanet – tem dominado a blogosfera tropical e as redes sociais tupiniquins, ocupando timelines e posts até mais que a visita de Barack Obama ao Brasil e os perrengues escrotos na Líbia de Kadhaffi.
Pesem as malcriações, faíscas e até queimaduras que surgem como efeitos colaterais do trato negligente do assunto por setores da mídia comercial, a ocasião é comemorável. Batemacumbaieiê da melhor qualidade? Pois sim. Todo processo de desenvolvimento pressupõe refazimento, e este, muitas vezes, surge mesmo de uma ou várias naturezas de embate. Ou não é? E embate consciente, com todos empunhando, por exemplo, os artigos da contraditória Lei Rouanet? Nem sempre. Há o retweet, o post e o compartilhamento descompromissados, assim como há os com conhecimento de causa, mas mesmo os do primeiro tipo – ainda que, possivelmente, menos estruturantes – dizem respeito a uma pulsão legítima de protesto, feita possível por lacunas de transparência e fomento deixadas pelo próprio Estado.