Leitura inscrita no espaço da cena

Crítica da peça Memória da cana, do grupo Os Fofos Encenam

21 de maio de 2011 Críticas
Luciana Lyra e Carlos Ataíde. Foto: Divulgação.

Em Memória da cana, a direção e a adaptação de Newton Moreno traçam uma linha sinuosa entre o Rio e o Recife, re-emoldurando as imagens do Álbum de família de Nelson Rodrigues, colocando o autor num contexto menos urbano, mais próximo às imagens de um determinado Nordeste – que nada tem em comum com o Nordeste colorido de festa junina, que se vê com mais frequência aqui no Rio, como, por exemplo, em montagens de textos de Ariano Suassuna. A questão nuclear da pesquisa do grupo Os Fofos Encenam nesse projeto parece ser a investigação das raízes pernambucanas do autor nesta peça. Com embasamento teórico e historiográfico, os artistas lançaram mão de suas memórias e de sua filiação nordestina para reescrever esse Nelson com caligrafia própria.

O que a montagem nos apresenta não é apenas um Nelson Rodrigues visto pelas lentes do Nordeste brasileiro, mas um certo Nordeste brasileiro revelado pelas lentes de Nelson Rodrigues. Isso é possível pela propriedade que Newton Moreno tem para lidar com os dois universos: a dramaturgia rodrigueana e o imaginário pernambucano. É assim que sua dramaturgia, uma versão do texto original, pode ser percebida como um trabalho de natureza espacial – não apenas por ambientar a peça numa região geográfica mais específica, mas por desvendar, em especial na cenografia (que o diretor assina com Marcelo Andrade) e na iluminação de Eduardo Reyes, a sua visão de Álbum de família. O espaço cênico parece ser o elemento mais determinante da apropriação que está em jogo em Memória da cana..

No prólogo, que acontece no foyer do Espaço III do CCBB, ouvimos uma gravação com as falas da cena inicial da peça. Alguns espectadores não chegam a parar de conversar e nem reparam nos diversos retratos pendurados nas paredes do corredor que leva à sala de espetáculos. Ao entrar no Espaço III, o público escolhe onde se sentar: as cadeiras estão dispostas no entorno do espaço, que está todo dividido por telas translúcidas que funcionam como as paredes da casa da família. Ao centro, a sala, com uma comprida e imponente mesa de jantar. No entorno, estão os quartos, espaços reservados para cada membro da família. Em cada quarto, estão as cadeiras para o público, voltadas para o centro, bem como algum elemento cenográfico que remete à identidade de um dos personagens. No quarto de Senhorinha (Luciana Lyra), por exemplo, está sua cadeira: ali ela se recolhe na sua individualidade, na sua memória, com seus objetos pessoais. A mesma tela que separa os cômodos também circunda o espaço todo, inserindo os espectadores nesta casa de engenho, mas deixando-os assistir a tudo através do filtro que esta tela produz, oferecendo ora uma visão nítida, ora uma visão embaçada, dependendo do ângulo de visão de cada um. Nenhum espectador vê a peça exatamente do mesmo jeito. O lugar do espectador, sua cadeira, também é o da individualidade.

A primeira parte da peça acontece ao redor da mesa de jantar, símbolo da coesão, centro agregador da casa, mas que também é lugar de conflito e enfrentamento. O “estar à mesa” tem uma particularidade: o móvel une os comensais tanto quanto os separa fisicamente. A mesa aproxima e aparta, dá a sensação de pertencimento, mas também expõe as diferenças. Sobre ela, estão dispostos diversos bonecos-santos (design de Raimundo Bento), que sugerem, ao mesmo tempo, uma referência a uma espécie de sincretismo e um certo senso de humor, que pontua a encenação sem demandar o riso. O humor também está no texto de Nelson, mas é na forma de lidar com ele que o elenco (Carlos Ataíde, Kátia Daher, Luciana Lyra, Paulo de Pontes, Marcelo Andrade e Viviane Madureira) consegue, nem todos na mesma medida, não se levar a sério demais e, ainda assim, investir na fatalidade dos destinos de seus personagens.

O único personagem que parece à vontade sentado à mesa, na sala (o espaço público da casa), é Jonas (Marcelo Andrade), o patriarca. Só ele mantém abertamente a individualidade e os desejos, só ele assume a sua identidade no contexto familiar – por enquanto. Os outros rondam a mesa, passam pelos bancos, até sobem na mesa, mas não ocupam um lugar de fato enquanto indivíduos. Suas cadeiras, seus lugares de identidade, ficam nos quartos, lugares privados: espaços de segredo.

Marcelo Andrade e Carlos Ataíde. Foto: Shima.

Na segunda parte da peça, as paredes, os filtros, são retirados. A mesa é fragmentada. A hierarquia espacial se desfaz, os segredos vêm à tona. Não há a possibilidade de que as paredes sejam reerguidas, nem de que a mesa da família retorne à sua materialidade. Aparece, no chão da capela, a terra. A iluminação artificial é substituída pela luz das velas que queimam por inteiro e exalam um cheiro particular. O som do vento no canavial dá a perceber uma presença agressiva do espaço externo, que ameaça romper as paredes da capela – sensação que, na leitura do texto, vem dos gritos de Nonô.

Do prólogo no ambiente asséptico do CCBB à transformação do espaço nas últimas cenas da montagem, a peça se inscreve espacialmente na percepção do espectador. Com uma combinação de cheiro, imagens, luz e som, a encenação de Newton Moreno envolve o espectador num universo de sensações que me parece pouco comum para uma montagem de um texto de Nelson Rodrigues. Tudo isso, além do sotaque, situa os personagens e seus conflitos num imaginário cultural que, de certo modo, contextualiza suas ações. Os desmandos de Jonas parecem bem encaixados na herança cultural de um senhor de engenho. Paralelamente, toda a encenação contribui para que os atores e as atrizes se armem de um registro mais próximo do trágico, que os prepara para as últimas cenas da peça – que provavelmente não teriam impacto se a primeira parte da peça fosse feita no registro do drama. Essa dimensão trágica, difícil de colocar em cena, demanda a instituição de uma atmosfera, um espaço próprio, tanto para os atores quanto para os espectadores, e me parece acontecer de maneira mais consistente na atuação de Luciana Lyra. Sua Senhorinha, a meu ver, é o fio condutor da estética da montagem, o ponto de apoio do risco que implica o investimento na tragicidade. Dentre os figurinos da peça, concebidos por Leopoldo Pacheco, o seu é o mais inspirado, desde o vestido que deixa ver a noiva que ela um dia foi à escolha precisa dos óculos escuros.

É possível perceber um certo desnível no elenco, que talvez seja mais ou menos determinante de acordo com o posicionamento do espectador no espaço. Mas é preciso fazer a ressalva de que a fruição do trabalho de atuação envolve não só uma questão de gosto, mas também uma questão cultural, de hábito e de referência. Portanto, esta talvez não seja uma observação relevante. De qualquer forma, a leitura feita pelo grupo Os Fofos Encenam do texto de Nelson Rodrigues tem bastante propriedade e conta com a fluida escritura cênica de Newton Moreno.

Informações sobre temporadas no site do grupo: http://www.osfofosencenam.com.br/

Leia mais sobre a cenografia da peça no blog Manga Cenográfica: http://mangacenografica.blogspot.com/2010/04/memoria-da-cana-ultimas-apresentacoes.html

Vídeo que mostra a montagem do cenário no espaço do grupo e imagens da peça:

Daniele Avila é tradutora e crítica de teatro. Mestranda em História Social da Cultura pela PUC-Rio, tem graduação em Teoria do Teatro pela UniRio.

 

Vol. IV, nº 32, maio de 2011

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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