Para revidar o olhar

Crítica da peça -Nu de mim mesmo

10 de maio de 2008 Críticas
Atores: Adriano Garib e Miwa Yanagizawa. Foto: Guga Melgar.

Em cena, três atores e duas atrizes se dividem em personagens diversos. A situação com a qual a peça se inicia parece conduzir o percurso: Artur (Adriano Garib), na ocasião do seu aniversário e em meio a uma crise, num momento em que questiona sua trajetória de vida e suas prioridades, revê sua relação com o filho (Fabio Dultra), tendo a namorada deste (Julia Lund) como aliada para uma aproximação. Ele se relaciona com uma mulher imaginária (Miwa Yanagizawa) e com um amigo (Otto Jr), com quem vai realizar um projeto: listar situações em que pessoas estão sendo observadas sem saber, pessoas que vemos, mas que, a princípio, não nos olham.

Como observamos na primeira lista que o amigo traz, o critério que guia o olhar é absolutamente subjetivo. As situações por ele pinçadas são triviais. É o seu olhar que confere a elas um encanto particular. O interesse por elas é despertado pelo próprio ato de relatar, mais do que por elas mesmas. Essas cenas também ganham sentido na medida em que fazem parte de uma lista, reunidas em um inventário particular. A partir dessas primeiras situações relatadas eles começam a inventar desdobramentos, a ficcionalizar os relatos que, num primeiro momento, são bastante concisos. A brincadeira entre os dois personagens reflete o próprio procedimento de criação do espetáculo, que também utilizou relatos da vida real ficcionalizados no processo de construção das cenas. A partir desse exercício de imaginação, surgem outros personagens, que recebem um tratamento diferenciado: trazem uma etiqueta com o nome de cada um, que também aparece nos telões distribuídos pelo espaço, como cartelas, como títulos das suas histórias. Tais narrativas são divididas em partes e entrelaçadas umas nas outras. Alguns têm traços daqueles que foram apresentados no início. Não há um esforço para caracterizar, para sinalizar diferenças; pelo contrário, em cada personagem é possível ver rastros dos outros.

A fisionomia dos personagens criados por aquele homem e por seu amigo reflete seus próprios rostos e os rostos daqueles que estão à sua volta, como se o olhar, mesmo quando se dispusesse a olhar para o outro, visse a si mesmo e suas referências em todas as coisas. Talvez aconteça o mesmo com o espectador, que vai preenchendo os espaços e dando traços às figuras com o seu próprio repertório imagético. Os questionamentos de Artur também aparecem nesses outros personagens, como se todos estivessem se perguntando sobre suas trajetórias, seus objetivos, suas prioridades. Eles parecem valorizar o momento presente, como se tentassem se livrar do peso das lembranças do passado e das expectativas de futuro. Isso traz uma intensidade para a trivialidade das cenas.

No espaço de encontro que ali se apresenta, no cruzamento que as histórias formam no pensamento, percebemos que aquelas situações envolvem uma perda e uma busca. Não há definição naquilo que os personagens buscam. É como se buscassem, simplesmente, sentido. Mesmo quando há uma perda determinada – da moça que perdeu a mãe, por exemplo – há outra mais abstrata, uma perda, também, de sentido. Isso fica bem claro quando cinco personagens se encontram numa estrada, sem rumo. O único que tem alguma direção é o motorista que lhes dá carona, uma vez que ele tem compromissos a cumprir, mas, de certo modo, sua trajetória não tem um sentido: a estrutura de sua vida é circular, seu lugar é a estrada, que é sempre passagem, que pode levar a qualquer lugar, mas não leva a lugar algum, apenas se volta sobre si mesma.

Ator: Adriano Garib. Foto: Guga Melgar

No espaço de encontro que ali se apresenta, no cruzamento que as histórias formam no pensamento, percebemos que aquelas situações envolvem uma perda e uma busca. Não há definição naquilo que os personagens buscam. É como se buscassem, simplesmente, sentido. Mesmo quando há uma perda determinada – da moça que perdeu a mãe, por exemplo – há outra mais abstrata, uma perda, também, de sentido. Isso fica bem claro quando cinco personagens se encontram numa estrada, sem rumo. O único que tem alguma direção é o motorista que lhes dá carona, uma vez que ele tem compromissos a cumprir, mas, de certo modo, sua trajetória não tem um sentido: a estrutura de sua vida é circular, seu lugar é a estrada, que é sempre passagem, que pode levar a qualquer lugar, mas não leva a lugar algum, apenas se volta sobre si mesma.

Aquela situação inicial é retomada em alguns momentos e no final da peça. Nela podemos perceber o destaque da ficção (ou do devaneio) na história de Arthur. As cenas entre ele e as personagens imaginárias na sua vida (como a mulher e a memória do pai morto) são as que parecem envolver os espectadores de uma maneira diferente daquelas cenas que reconstroem uma realidade mais plausível. São construções diferentes: enquanto algumas cenas (dele com o amigo, com o filho ou com a namorada deste) buscam uma composição ilusionista, essas outras (com a mulher imaginária e com o pai) lidam com a ficção enquanto jogo. Com essa dimensão de jogo, elas adquirem uma materialidade que se aproxima do real imediato, passam a fazer parte da realidade mesma, do fato de que aqueles atores estão, com os espectadores, fazendo uma peça. É como se essas cenas provocassem uma irrupção do real. Talvez seja possível dizer que elas são mais “vida” do que “cena”.

Uma dessas cenas é o momento em que a mulher imaginária pede a ajuda de algumas pessoas na plateia para se comunicar com Artur. Nesse momento, ela traz para o espaço da cena o músico que toca durante o espetáculo e fez a trilha original da peça, Felipe Storino, e o ator que faz o filho – como se agora ele fizesse o papel de um filho imaginário. É uma espécie de acontecimento dentro da peça, mas não há uma quebra na narrativa ou no jeito de atuar. O público entra na cena como mais um elemento, sem alarde. Quando nos damos conta, estamos em uma situação diferente. Somos colocados dentro do quadro, mas como espectadores, assim como Felipe Storino entra como músico e Fabio Dultra, como ator. Esse mecanismo movimenta o olhar, faz com que se mude de ângulo por alguns instantes. É possível que isso torne o olhar do público mais comprometido com as cenas seguintes, talvez até mais interessado.

Outro exemplo dessa dimensão de jogo é o momento em que o homem dança com o pai que já morreu. É uma fantasia que parte de dentro da cena, uma fantasia de um dos personagens. Ela traz, ao mesmo tempo, uma presença e uma perda, uma vez que talvez só é possível dançar, naquela tônica fantasiosa da cena, com uma memória, com um vestígio. A presença do pai na memória é sua perda. O homem dança com a memória e dança com a perda. Como numa imagem dialética, a cena faz um jogo de presença e ausência do pai, que se vê na oscilação de frieza e emocionalidade no trabalho de Otto Jr e na dinâmica de distância e proximidade entre pai e filho através da dança. O fato de termos uma dança entre um homem e seu pai imaginário, e até mesmo entre dois atores que, a princípio, parecem rígidos e pesados demais para uma dança como aquela, parece provocar na plateia um estado de atenção modificado.

Há ainda outros momentos em que o elenco se dirige ao público ou revela o jogo de construção da cena. Em contrapartida, há diversos momentos em que as cenas são construções fechadas numa estrutura mais convencional, que acontecem diante do público como se não houvesse ninguém olhando, como se a ficção estivesse protegida de possíveis intervenções.

De qualquer forma, todas as cenas que compõem a peça demandam a identificação do espectador. A valorização das fábulas é um sinal claro dessa opção. No entanto, acredito que o público seja chamado a se identificar com algo que está por trás do conjunto de histórias ali contadas, na multiplicação da composição. Penso que a diferença entre se identificar com uma história e com um emaranhado de histórias pode estar na natureza do processo de identificação, que não se dá diretamente com uma ou outra cena, mas com o substrato ou com a superposição de situações que acaba por provocar uma aproximação abstrata e indireta. A peça se relaciona com a subjetividade de quem assiste, não com sua história de vida. É como se a construção do trabalho partisse do particular em direção ao universal para, a partir do que há de universal e abstrato naquelas histórias, alcançar concretamente a subjetividade do espectador.

Talvez por aí se possa especular um pouco sobre o título -Nu de mim mesmo. O trabalho desnuda alguns procedimentos criativos. Em uma cena, duas pessoas se conhecem no cinema de uma cidade pequena. Em determinado ponto, a cena é interrompida (mais uma vez, sem alarde) e os atores começam a perguntar um ao outro o que acontece com aquelas personagens no futuro. Eles vão respondendo, narrando a história que se estenderia por mais alguns anos. Ao fim desse relato em forma de pergunta e resposta, eles retomam o final do diálogo que tinham interrompido. Assim, a totalidade da fábula é trazida para o momento presente da cena, de forma que, nas frases finais que eles trocam, acontece uma convergência do momento presente da história e da totalidade da fábula.

Há outra cena que revela a narrativa que inspirou a criação, a história de Veny Lira, vendedora ambulante no Largo do Machado que conta a história do amor da sua vida. O seu relato, ao se transformar em cena, é elaborado como numa adaptação, divido em três partes e feito por quatro atores diferentes. Num primeiro momento, Julia Lund e Fabio Dultra, depois, Julia Lund e Otto Jr e, por último, Otto Jr e Miwa Yanagizawa. Esse revezamento é usado como dado da passagem do tempo, que produz um efeito mais intenso que quando a passagem do tempo é indicada nos títulos das cenas nos telões. Até praticamente o final da terceira e última cena, o caso parece inventado, parece ficção. Até que, no final, a atriz Miwa Yangizawa começa a narrar o fim da história e, em seguida, ouvimos a gravação do relato com a voz da própria Veny. Assim se percebe a liberdade na adaptação e, ao mesmo tempo, a fidelidade à narrativa. Vemos o processo de criação decupado no nosso pensamento, pois a convivência entre cena e relato nos provoca a fazer esse exercício.

No entanto, o que fica na memória não é tanto a narrativa de cada caso, mas os fantasmas que se formam na confluência entre um e outro personagem feitos pelo mesmo ator ou pela mesma atriz, ou na aglomeração de imagens que se pode formar com as referências externas ao espetáculo que se impõem de uma maneira ou de outra. O conjunto das cenas e personagens forma uma constelação de subjetividades que se dá a ver pedaço por pedaço e que imprime na memória a imagem incerta de uma totalidade. É possível ver uma chave para essa leitura na cenografia de Flavio Graff, dramaturg, e de Jefferson Miranda, que assina a direção e o roteiro. Assim como personagens e situações se acumulam na lembrança, a constituição mesma do lugar da cena acaba por espelhar esse mecanismo da memória: os objetos que são trazidos aos poucos pelos atores e os pequenos móveis que desenham cada cenário são todos deixados ali, acumulando vestígios na visualidade, provocando o cruzamento de espaços e tempos diversos, jogando com a presença e a ausência dos personagens e histórias que passaram por ali.

A duração do espetáculo – aproximadamente 180 minutos, talvez mais – contribui para que a totalidade seja de difícil apreensão. Aos poucos, a sobreposição de histórias e o desdobramento de cada uma no tempo começam a demandar mais memória, mais atenção e uma renovação da disponibilidade do público. É como se aquela cota de atenção que o espectador de teatro no Rio costuma dar para o teatro não fosse suficiente. A peça demanda um olhar mais demorado, requer um pouco mais de interesse. Vejo isso como uma provocação – não uma provocação agressiva, mas um convite mais incisivo.

O convite é lançado logo no início da peça, quando os dois amigos combinam que vão listar imagens de situações em que uma pessoa está sendo olhada (por eles), mas não os olha. No entanto, penso que se eles também não fossem tocados, fisgados, olhados, por essas imagens, eles nem as perceberiam. As imagens, na verdade, olham. O mesmo se dá com o espectador: aquelas imagens, cenas, histórias, estão ali para que sejam olhadas, mas, se o espectador não se sente olhado por elas, não se envolve. Ao contrário, se aquela imagem nos olha, somos fisgados e estabelecemos com ela uma relação. Talvez seja possível dizer que o que faz a imagem olhar para nós é a sua estrutura dialética, sua resistência ao enquadramento, seu caráter ambíguo e fugidio.

Para desenvolver essa impressão, recorro ao livro O que vemos, o que nos olha de Georges Didi-Huberman, no qual o autor trabalha a ideia de imagem dialética e revisita o conceito de aura em Walter Benjamim. Ele explica o que seria um objeto aurático nesse contexto:

objeto cuja aparição desdobra, para além de sua própria visibilidade, o que devemos denominar suas imagens, suas imagens em constelações ou em nuvens, que se impõem a nós como outras tantas figuras associadas, que surgem, se aproximam e se afastam para poetizar, trabalhar, abrir tanto seu aspecto quanto sua significação, para fazer delas uma obra do inconsciente. E essa memória, é claro, está para o tempo linear assim como a visualidade aurática para a visibilidade ‘objetiva’: ou seja, todos os tempos nela serão trançados, feitos e desfeitos, contraditos e superdimensionados. (DIDI-HUBERMAN: 1998, 149)

Minha percepção das imagens suscitadas em –Nu de mim mesmo se encaixa nos apontamentos acima citados: desdobramentos, imagens em constelações, imagens que se impõem, surgimento de figuras associadas, imagens que se abrem para uma memória que se trança em anacronismos. Isso é fruto do caráter dialético das imagens da peça, das cenas que se dão simultaneamente com uma abordagem ilusionista e com operações que desvelam procedimentos de construção.

Segundo o próprio Benjamin: “Quem é visto, ou acredita estar sendo visto, revida o olhar. Perceber a aura de uma coisa significa investi-la do poder de revidar o olhar.” (BENJAMIN: 1989, 140)

O “convite mais incisivo” de que falei antes é o convite para olhar e ser olhado. Não é à toa que está presente na peça a referência direta à Olympia do Manet. A Olympia evidencia uma valorização do olhar com sua luz chapada sobre o nu, com a luz que, em vez de surgir diáfana de um canto do quadro, parece vir direto de fora, como se indicasse que o olhar ávido do espectador é o que desvenda e ilumina sua nudez. O convite é para que o espectador esteja a fim de olhar um pouco mais e ser olhado por aquelas imagens fantasmáticas, que nos obrigam a olhá-las verdadeiramente. E, também, que esteja disposto a investir estas imagens do poder de revidar o olhar.

Atriz: Miwa Yanagizawa. Foto: Guga Melgar

Referências bibliográficas:

FOUCAULT, Michel. La Peinture de Manet. Paris: Éditions du Seuil, 2004. (Collection Traces Écrites)

DID-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha; tradução de Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1998 (coleção TRANS)

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo; tradução de José Martins Barbosa, Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1989 (Obras escolhidas; v. 3)

Vol.I, nº3, maio de 2008.

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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