Rendendo as rédeas ao espectador

Crítica da peça Homem Piano – Uma instalação para a memória, da Cia Senhas, de Curitiba

16 de julho de 2010 Críticas
Ator: Luiz Bertazzo. Foto: Elenize Dezgeniski

Até então ocupada com um teatro de enredos e personagens, de tragédias caseiras e desencontros emocionais, como nos espetáculos Bicho corre hoje e Delicadas embalagens, a Cia Senhas inaugura uma nova maneira (para si) de se relacionar com o público, a matéria criativa e a ocupação do espaço em Homem Piano – Uma instalação para a memória. A diretora Suely Araújo e o ator Luiz Bertazzo criam, a partir de uma situação factual, um espetáculo que é um acontecimento em si e convida o público ao jogo, cumprindo um percurso que se abre para a possibilidade de um final verdadeiramente catártico.

Ancorada no corpo do único ator (Luiz Bertazzo), a encenação principia se misturando à realidade da rua, onde ele se apresenta como um dos homens que ocasionalmente transitam pela Rua São Francisco, em uma das quadras mais abandonadas da região central de Curitiba. Aos poucos se destacará do cenário urbano, pela posse do microfone e pelo canto, até se tornar o condutor de um pequeno coletivo de espectadores – parte eventualmente angariada nos estabelecimentos comerciais ao redor, sem familiaridade com as convenções teatrais.

Exige-se o envolvimento ativo do espectador, tanto corporal quanto emotivo, desde o primeiro lance de escadas, rompendo com uma configuração de palco e platéia definida por Valère Novarina como pedir “ao público que deixe seus corpos pendurados no vestiário” – a demanda é oposta. Porta adentro, a sede da companhia se encontra ocupada como uma instalação de três andares, onde os aspectos físicos e sonoros concorrerão com o texto verbal proferido pelo ator.

Luiz Bertazzo se faz presente, no espaço intermediário entre assumir um personalidade desmemoriada e citá-la (literalmente, diz: “ele que sou eu”). Consciente da verticalidade da coluna contra o peso dos ombros e da cabeça, ele se mostra dono daquele corpo que é só o que tem, uma vez perdida a memória e, com ela, a identidade social e emocional.

Ator: Luiz Bertazzo. Foto: Elenize Dezgeniski

Além do corpo, os indícios que sobraram de uma existência prévia são as vestes e uma maleta cheia de giz, instrumento que o habilita a procurar palavras e a fazer perguntas. A calça curta insinua a infância, tempo de memórias a construir. Apenas a casaca remete à figura real do pianista desmemoriado, que deflagrou o processo criativo da montagem a partir de notícias retiradas de jornal sobre o caso de um homem encontrado sem identidade nem memória no Reino Unido, em 2005. Tal história constitui a subpartitura do ator, que propõe uma situação nova a partir dela.

O ator guia o público arrebanhado por um percurso de deslocamentos físicos, inaugurando o espaço cênico e estabelecendo uma relação de confiança com seus seguidores, preparatória para o jogo que será proposto mais claramente adiante. Seu percurso se estrutura em etapas relacionadas ao esquecimento e à lembrança, engendradas para oferecer estímulos à sensibilidade do espectador, para seduzi-lo, ativá-lo e persuadi-lo a aderir à proposta que, em último grau, dependerá inteiramente de sua participação.

A experiência estésica passa pela percepção visual e sonora do amplo espaço semivazio e inteiramente branco, atravessado apenas por tiras de papel igualmente brancas que pendem do teto sugerindo um grafismo aprisionante, reforçado pela fala do ator sobre estar preso a seu próprio corpo. Um espaço onde o som se dissipa em ecos, como se poderia dizer da memória ou do passado.

Assim, a montagem propõe um modelo energético sensibilizador e individualizante. Há cuidado de não agredir, respeitar inibições e criar vínculos temporários: Bertazzo olha nos olhos do espectador, interpela-os singularmente, reconhecendo-os como sujeitos numa atitude de valorização da autoestima do público. Fazem parte de sua manipulação declaradamente sedutora as expressões faciais e tons de voz cordiais, o discurso pontuado por diminutivos afetivos e verbos de súplica e promessa. Essa preocupação com o outro passa também pela paciência em deixar correrem os minutos até que os sentidos e as coragens se instalem. Um tempo subjetivo de maturação da experiência de recepção, para que se elaborem as reações, já vencida a avaliação dos riscos envolvidos na exposição pessoal.

A improvisação se ajusta ao contexto, de modo que o ator se atém à partitura inicial, mas flexível para responder comedidamente, com vitalidade, às situações que se apresentem. O texto poetizado e sugestivo, se abrindo para o diálogo em perguntas, tem amplitude e imprecisão suficientes para não restringir as respostas do público – ou melhor, de cada indivíduo.

Caminha-se para o despertar da consciência acerca do “agora” como único tempo existente, enquanto o passado se converte em lembranças, sujeitas ao esquecimento deliberado e seletivo com o qual se elabora a narrativa de uma vida. Da memória, interessam as contradições: deve-se lembrar ou esquecer do que foi bom mas acabou, do que foi ruim mas constitui sua biografia e, por consequência, sua identidade?

Sem controle de todos os seus sentidos possíveis no confronto com a experiência individual de cada um que a segue, a encenação se afrouxa no final, rendendo suas rédeas ao espectador em uma demanda por respostas autênticas. Este, individualmente, mas imbuído de um sentimento de grupo que varia de acordo com a composição de personalidades de cada sessão, encontra seu próprio lugar em algum ponto do caminho entre a distância e o envolvimento.

Mais do que um teatro feito para seduzir pessoas, tantas vezes ariscas não apenas à ideia de interação mas a toda e qualquer representação teatral, trata-se de um teatro feito com o espectador, que experimenta uma proposição sobre o mundo e, estimulado a absorver a emoção contida no impulso criador do artista, reage por sua escolha, manifestando publicamente um estado sensível e uma experiência de vida.

Informações sobre a temporada e outros trabalhos do grupo no site da Cia Senhas: http://www.ciasenhas.art.br/

Leia também o texto sobre o processo de criação da montagem, pela diretora Sueli Araujo: http://www.questaodecritica.com.br/2010/08/homem-piano-–-uma-instalacao-para-a-memoria/

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