A comédia da embriaguez

Estudo sobre a presença da cachaça na peça Viva o cordão encarnado de Luiz Marinho

26 de fevereiro de 2010 Estudos

Trecho adaptado do livro “Réquiem à infância: um estudo sobre Um sábado em 30 e Viva o cordão encarnado, de Luiz Marinho”

Cachaça! Também conhecida como aguardente, cana, ou caninha. Esses são alguns dos sinônimos mais comuns empregados na denominação deste destilado brasileiro. Seus nomes são múltiplos, proteicos, infinitos. Refletem as metamorfoses da bebida desde sua introdução no Brasil no séc. XVI até à atualidade. Transformações que abrangem tanto o seu modo de preparo quanto o uso e os ritos que lhe são veiculados no decorrer dos séculos e nas distintas geografias em que se estabelece: da farmacopeia e dietética do Brasil colônia, a cachaça é absorvida na liturgia das religiões indo-afro-brasileiras, sendo utilizada tanto por médicos, no período colonial, quanto por curandeiros e benzedeiros ainda hoje; inicialmente, de guloseima dos animais de tração transforma-se em aperitivo de pobre e, posteriormente, ascende ao status de bebida elegante made in Brazil com exóticas batidas para gringo degustar e burguês esnobar. E, ao mesmo tempo, torna-se também uma bebida cult entre a intelligentsia, artigo de exportação da brasilidade. Cachaça, síntese da identidade brasileira.

Como diz Mary Del Priore, a cachaça é para os brasileiros o que o vinho representa para os antigos romanos:

“[…] símbolo de festa, de alegria de viver, de escapismo da esmagadora rotina cotidiana. Bebida democrática, pois permite o convívio de pessoas de diferentes categorias, e em diversas circunstâncias, a pinga reúne, agrega, faz rir junto. Remédio para o corpo e para a alma, seu uso assumiu, igualmente, significados sagrados em vários contextos de religiosidade, sendo indispensável nos cultos afro-brasileiros, como o candomblé e a umbanda. Ou nos ritos, afro-indo-brasileiros, como o catimbó, a pajelança além de participar em diversas práticas de magia popular.” (PRIORE: 2005, 62)

É inevitável dissertar sobre a presença da cachaça no dia a dia dos personagens da peça Viva o cordão encarnado, de Luiz Marinho, na própria configuração desta sociedade, estruturada sob o signo da embriaguez.(1) A cachaça perpassa seus ritos sociais desde as ações mais prosaicas até aos dias de festas. Além disso, é um elemento onipresente na realidade religiosa da peça, como item indispensável nos cultos da Jurema e, particularmente, nas libações a Zé Pelintra. Mesmo que Marinho não tenha recriado em sua peça uma sessão “oficial” da Jurema, já que a possessão de Maria Não Enjeita dá-se em uma situação inesperada, ao acaso, em que a cartomante não pretende invocar nenhuma entidade espiritual, mas apenas, fazer uma consulta rápida com o além – pelo intermédio das cartas –, para o leitor-espectador minimamente familiarizado com este culto, reconhece-se de imediato o odor inconfundível da água-que-passarinho-não-bebe, pairando no ar, trazido pelo “bafo quente” de Zé Pelintra. A religiosidade popular em Viva o cordão encarnado também possui a função de atuar como um prelúdio da cachaça, dando indícios de um outro aspecto complementar do quadro social que subjaz da obra em questão.

Como afirmado anteriormente, a aguardente não se restringe aos dias de festa; ela perpassa o cotidiano dos personagens, o que inclui em seu itinerário os dias normalmente reservados ao trabalho. Tanto é que, logo no segundo quadro do primeiro ato da peça, encontra-se uma amostra da cachaça no dia a dia dos personagens. Nesta cena, durante uma quinta-feira pela manhã, enquanto Vicência se consulta com Maria Não Enjeita, inesperadamente, Heronides retorna da rua, trazendo consigo uma garrafa de Pitu:

“MARIA – Embaralhe e corte em três. (Vicência obedece e Maria vai espalhando as cartas, falando) Dinheiros curtos, por caminhos longos… Uma doença passageira… Uma mulher morena com pensamento no que é teu… (Chega Heronides com uma garrafa de Pitu e rindo, fica por trás das duas, escutando) Esta mesma mulher, com grande confusão nas horas de folguedos – pode ser alguma pastora – trazendo desgosto… No teu caminho, um homem de farda!” (MARINHO: 1969, 20)[grifos nossos].

E no decorrer desta cena, oferece uma dose de cana a Nestor e a Vicência. No final, Heronides acompanha Nestor até a rua, dispersando-se novamente pela geografia de Timbaúba, sem deixar de lado, provavelmente, sua garrafa de aguardente. De certa maneira, pode-se justificar esta cena, baseando-se no que Mary Del Priori elucida sobre o consumo da cachaça nos hábitos do brasileiro. Segundo a historiadora, desde os tempos do Brasil colônia é ordinário a ingestão diária de cachaça entre os escravos e, posteriormente, entre os trabalhadores braçais de um modo geral. Vista como “santo remédio ou um elixir da longevidade” (PRIORE: 2005, 64), a cachaça enquadra-se entre os alimentos e as bebidas que tem por função preservar a saúde: “existia uma forte relação entre aquilo que se ingeria e o estado geral de cada indivíduo, que era obrigado a ficar atento às características de seu próprio corpo e àquelas do que consumia em sua dieta. O que era bom tinha que fazer bem”. (PRIORE: 2005, 64) Além disso, “a cana, da qual se extraía a cachaça, era também a matriz do açúcar: ele mesmo, considerado um potente medicamento ao longo dos séculos 16, 17 e 18”. (PRIORE: 2005, 64) Por isso, a caninha, usada sem excessos é sinônimo de boa saúde desde os primórdios do Brasil. E por ser uma bebida de fácil acesso aos menos afortunados propagou-se do Oiapoque ao Chuí.

Apesar de plausível, esta justificativa não soluciona a charada. Não explicita realmente o status social da cachaça em Viva o cordão encarnado, nem o de seus personagens. Em primeiro lugar, na cena citada, Heronides não chega em casa com o ar de quem retorna de uma manhã de trabalho para um rápido intervalo do almoço. Pelo contrário, aparece com a leveza de quem passa o dia na vadiagem, jogando conversa fora ou participando de jogos de azar, tudo isso regado aos prazeres ebriosos da aguardente, como bem indica a garrafa de Pitu em sua mão. Heronides, inclusive, nos gracejos e injúrias de seus amigos e de sua esposa, em várias passagens da peça, tem sempre destacado seu hábito de beber. E o próprio reconhece sua afeição pela Branquinha. Em um rápido desentendimento com Vicência, imaginando ser censurado, ele vocifera:

“HERONIDES – O que é que você está pensando, cabrita? Quer manobrar comigo? Você me conheceu foi bebendo, e nunca se desgostou! Agora quer botar em pratos limpos! “Assim é que não pode continuar”, uma tamanca! E fique caladinha! E não me venha com estória de São Raimundo, não! (Vicência balança a cabeça penalizada. O Cabo ainda está azedo de susto).” (MARINHO: 1969, 25-26) [grifos nossos].

Além disso, sabe-se que Heronides e Vicência não vivem de uma maneira estável. Trabalham e sobrevivem à mercê dos caprichos do mundo da arte e do entretenimento. Respectivamente são o velho Matraca e a Mestra de um pastoril profano em uma cidade no interior de Pernambuco; são artistas populares à margem do sistema econômico que rege as sociedades patriarcais do interior na primeira metade do séc. XX, onde o capital circula sempre em torno de um Coronel que manipula a seu bel prazer o modus vivendi de seus subordinados. Fora do comércio, do trabalho na roça, ou dos serviços diretos na casa de proprietários de terras ou usineiros, a vida profissional quase inexiste nessas sociedades, permanecendo o indivíduo constantemente susceptível aos acasos do destino, da sina.

À margem desse sistema econômico, esses artistas se aproximam de um outro universo antitético à ordenação do trabalho: o mundo da desordem, da festa e da embriaguez. Este é o modus operandi de Heronides e de seus companheiros, sua maneira de ser e estar no mundo. Aliás, Zé Pelintra não é apenas o regente deste mundo às avessas, como também é o modelo exemplar destes personagens, cuja gesta reflete-se ad infinitum em seus hábitos e ações. Ele é símbolo da malandragem, da boêmia e da ebriedade, tendo a aguardente como aperitivo predileto, assim como os personagens de Viva o cordão encarnado que não importando o dia ou hora estão quase sempre com uma dose de cana na mão ou prestes a pedir a lapada (2) seguinte, a vigésima terceira abrideira, parecendo nunca chegar à indesejável saideira, “o derradeiro gole, o último copo, o brinde terminal da despedida jubilosa”, (CASCUDO: 2006, 86) a findar o gozo e o riso dos ébrios:

“DUDU – (Rindo) Uma abrideira!
JOSIAS – Abrideira… número…
HERONIDES – Vinte e três!
DUDU – Depois a gente toma duas seguidas!
(Riem os homens)”. (3)

Observa-se em Viva o cordão encarnado que Marinho apresenta uma sociedade de vadios, de sujeitos sem ocupação fixa ou definida, levando a vida na intersecção da boêmia e da marginalidade, do jogo lúdico e folgazão ao crime. Da cachaça à peixeira, à la manière de Zé Pelintra.

Não são exatamente foras-da-lei, mas seguindo o próprio exemplo do mestre da Jurema, podem atuar tanto à direita quanto à esquerda. Trafegam em torno do pastoril do velho Matraca, seja tirando dele seu sustento como as pastoras Berenice, Dapenha, Dora, Zulmira e Maria Não Enjeita ou o dono de botequim Chicuto, que mantém seu estabelecimento nas proximidades do tablado do pastoril, servindo bebida aos amantes do folguedo; seja também como companheiros de farra de Heronides, como Dudu, Josias e Boa Tapa que ao mesmo tempo em que usufruem da festa também servem de apoio nos momentos de transtorno causados por algum filho de senhor de engenho disposto a “acabar” o pastoril ou outro desordeiro qualquer, estrangeiro à falange que gravita em torno do velho Matraca e de suas pastorinhas. É por isso que o delegado da cidade permanece sempre atento às funções de pastoril, à espreita de novas confusões.

Todos são pobres e de pouca ou nenhuma instrução, excluindo Romeu e Rapaz, filhos de senhor de engenho, que apenas frequentam o pastoril e suas pastoras, e Chicuto, que demonstra ser um pouco mais esclarecido por atuar também como protético. De acordo com os dados fornecidos pela peça, as pastoras também não possuem nenhuma outra profissão além da que exercem sobre o tablado de pastoril, com exceção de Zefa e Zulmira que são respectivamente empregada e lavadeira. No entanto, a primeira ainda se encontra sem emprego em Timbaúba, porque começa a dançar no pastoril do velho Matraca no mesmo dia em que chega à cidade. Quanto às outras, subentende-se extraírem exclusivamente do pastoril os meios de sua sobrevivência. Vivem em mancebias com os rapazes amigos de Heronides, formando casais solidários entre si: Berenice & Dudu, Dapenha & Josias, Zulmira & Boa Tapa. Em relação aos homens, as informações são praticamente inexistentes sobre suas atividades de subsistência, o que apenas reforça a tese de uma sociedade de vadios, entregues à ebriedade, vivendo na indolência, à espreita de favores e usufruindo dos parcos lucros de suas parceiras, como se pode apurar no diálogo que se segue entre Boa Tapa e Zulmira:

“BOA TAPA – Vai Zulmira! Me dá o dinheiro! Estou precisando!
ZULMIRA – Tu não estás vendo que não está dando nada? Essa araponga [Zefa] que chegou hoje aqui está atrasando a gente… nem cravo se pode vender hoje! É uma moda que Heronides inventou pra hoje!
BOA TAPA – Mas, ele pagou a vocês… isto eu vi!
ZULMIRA – Mas, nego! É do quarto! Hoje é dia de pagar!
BOA TAPA – Vai, conversa não! Passa pra cá!
ZULMIRA – Só me revolta é porque você quer o dinheiro pra ir pra zona!
BOA TAPA – É não. É pra beber… Eu lhe juro!
ZULMIRA – Então, vamos beber juntos. (Saem no maior dos amores, aos beijos) A gente ainda acaba debaixo da ponte! (Riem. Seguem para o botequim onde encontram Vicência bebendo).” (MARINHO: 1969, 102-103) [grifos nossos].

Comportando-se como um gigolô, Boa Tapa consegue extorquir sua consorte para custear abebedice, embora Zulmira a princípio acredite que seu amante pretenda gastar todo seu dinheiro na zona. Desfeito o mal-entendido, os dois enlaçam-se em beijos e afagos, indo em direção ao botequim de Chicuto. Da mesma maneira que a cachaça destrói casamentos, também salvaguarda laços amorosos, transformando uma mesa de bar no paraíso perdido dos amantes.

Em Viva o cordão encarnado há um certo elemento de generalidade no desenho de personagens e situações, que os aproxima de paradigmas do teatro cômico popular, como os tipo do delegado, do sacristão, do velho do pastoril – semelhante ao bufão medieval –, do cabo fanfarrão ou dos quiproquós em torno da adúltera, do marido e do amante. O dramaturgo opera a redução de fatos e indivíduos a situações e tipos gerais da gramática popular, mesclando-os aos aspectos históricos e sociológicos do tempo e do espaço em que a ação se situa. Constitui-se um verdadeiro trabalho de síntese o que Marinho realiza: ele polvilha pela trama elementos da identidade cultural de uma classe social e também de uma época, tal como a cachaça, a Jurema, Zé Pelintra, o pastoril profano que, mesmo sendo específicos da sociedade em que viveu e recriou, atingem um amplo lastro, porque também dialogam com a memória cultural de um país. É ao mesmo tempo geral e particular. Como ingrediente, um realismo espontâneo e corriqueiro, proveniente dos meandros íntimos das relações entre aqueles personagens: das pastoras com o público do pastoril, com o velho e entre elas mesmas, reforçando a humanidade de seus personagens, nas suas alegrias e tristezas; o que permite a ilusão do real e garante a longevidade de sua obra.

Possivelmente, o senso de realidade da peça, sempre salientado pelos críticos e pelo público da época de suas primeiras montagens, não vem necessariamente ou apenas dos informes sociais e folclóricos do matuto nordestino. Decorre de uma visão intuitiva e mesmo instintiva, da função ou destino das pessoas nessa sociedade, construindo uma subjetividade que lhes pertence, e que ao mesmo tempo é também de Marinho, assim como a apreensão de traços culturais que os identificam sem perderem, no entanto, sua força dramática, servindo mais de condutor das ações e componente das situações, do que de um dado meramente sociológico ou exótico.

Este fenômeno da cultura da cachaça – alegoria de um culto à embriaguez e à vida – em Viva o cordão encarnado está presente em quase todos os momentos da peça. Constitui a síntese que dirige seus princípios norteadores e comportamentais. Ela fornece as bases para o reconhecimento desta sociedade de vadios, que gira em torno do pastoril do velho Matraca, além de conduzir muitos dos eventos que garantem a originalidade da trama da peça e justificam seu desfecho.

Nessa sociedade de malandros criada por Luiz Marinho age-se do mesmo modo que o malandro Leonardo de Memórias de um sargento de milícias ([1854-1855] 1993), de Manuel Antônio de Almeida. Antonio Candido, no seu clássico ensaio Dialética da malandragem ([1970] 2004) – que aqui se toma a liberdade de se apropriar de suas palavras – possibilita a este estudo um diálogo entre o romance de Almeida e a peça de Marinho: tanto em um como em outro autor, pratica-se a astúcia pela astúcia, manifestando um amor pelo jogo-em-si. Mesmo quando a astúcia tem por finalidade livrar os malandros marinhos de uma enrascada, como as artimanhas de Heronides e Maria Não Enjeita para escapar das perseguições de Nestor, do sacristão e do delegado. A impressão que se tem é que o que parece prevalecer na peça e, sobretudo, no primeiro ato, é o dinamismo próprio dos astuciosos de história popular; o que nela se acha é algo mais vasto e intemporal, próprio da comicidade popularesca. Tal propensão pelo jogo é dinamizada pela embriaguez. No primeiro ato, durante o almoço de aniversário de Heronides, a marvada pinga (4) serve de álibi para as traquinagens do velho Matraca e seus amigos; é a isca para burlar o pretensamente ardiloso Cabo Nestor.

Como já se sabe, nesta cena, trata-se de um dia de festa: o aniversário do velho do pastoril. E como diz Mary Del Priore, “festa é sinônimo de cachaça”:

“O convívio com a bebida se inicia pela “abrideira”, a inicial, o primeiro copo. É o “abre”, como designam, no rito, os caboclos do Norte do país. Ele é também o contrário da “saideira”. O simbolismo é grande: bebe-se à saúde de alguém, ergue-se um brinde de honra; a pinga é, enfim, indispensável ao protocolo social. Ainda em relação ao consumo da cachaça, resistem hábitos milenares: não deixar o copo vazio, punir os maus bebedores, derramar um pouco do líquido no solo como forma de oferenda aos deuses, convidar para beber como manifestação de amizade. Pode beber devagar, diz o antropólogo Luiz da Câmara Cascudo, mas beber. O abstêmio rompe o liame do grupo.” (PRIORE: 2005, 70)

Essa dinâmica social também é encontrada em Viva o cordão encarnado. Na cena em que Nestor tenta prender Heronides, este rito descrito por Priore esboça-se com maior nitidez, tornando-se emblemático na peça:

“HERONIDES – […] Se hoje ele vem me prender, não é pelo gosto dele.
CABO – (Meio desconfiado) Estou cumprindo ordens…
HERONIDES – Olhe o que eu digo!? Vocês sabem que no cumprimento do dever, prende até a mãe dele, se for preciso… e ele sendo nosso amigo, não vou criar caso para enrascá-lo.
DUDU – Que amigo é esse, que não puniu por você?
HERONIDES – (Beliscando um olho) Isso você não sabe! Já eu, tenho certeza.
CABO – (Cortando) Fiz o possível!
HERONIDES – Olhe aí. Agora, me diga, vamos ter queixa duma criatura dessa? Chega a gente está vendo que por dentro está amargurado? (Nota-se o mal-estar do Cabo)
CHICUTO – (Percebendo a manobra) Logo nosso Irmão da ópa!… [irmão de farra] É duro o cumprimento do dever!
HERONIDES – Estamos aqui, entre amigos. Cabo Nestor, esse almoço de hoje, era também em sua homenagem, você bem sabe disso! Então é justo que se deixe de lhe fazer a homenagem, porque você está no cumprimento do seu dever? Respondam meus amigos, é justo?
TODOS – Não! Não é justo! É não!
CABO – (Súbito, reagindo) Sei… mas primeiro, tem que ir ao delegado se explicar! Rasgou um documento oficial! É crime!
HERONIDES – Reconheço… mas antes de um aperitivo, a gente não sai daqui! Tudo na base da confiança!
CABO – Não… Não é certo!
CHICUTO – Sua recusa, deixa a gente meio na dúvida…
HERONIDES – É cabo. Prove a esse povo que você apenas está numa penosa missão. (O Cabo começa a bater os olhos)
CHICUTO – Uma dose, pra confraternizar, irmão.
HERONIDES – Nenhuma mágoa… a amizade, a mesma! Antiga, de velhas noites de farras.
CABO – (Reluta um pouco – olha p/todos e depois) Venha de lá!
TODOS – Viva!
CABO – Mas, só uma!
HERONIDES – Minha velha, aquela de comemorar! (Vicência traz uma garrafa toda especial e um copo; entregando ao marido que serve ao Cabo e bebe também)
CABO – (Bebe e balança as bochechas) Essa… tá co’ a gota! (Todos riem e se movimentam a beber. Volta a alegria)
DUDU – Sem o ponche [tira-gosto] não vai! (Vicência já vinha trazendo uma coxa de galo num pires. Entrega, toda doçura, ao Cabo)
VICÊNCIA – Sua parte preferida… a coxinha! (O Cabo se “derrete” e Heronides bota logo outra dose no copo do Cabo e bebe também. Todos se servem)
HERONIDES – Atenção… Preparem os copos! (Todos seguram os copos) Ao nosso grande homenageado, cabo Nestor! (Cada um de per si, vem “tocar” no copo do Cabo e bebem em conjunto. O Copo do Cabo é sempre oportunamente cheio)
DUDU – (A Chicuto) Já tomou gosto na partida, acabou-se o homem!
CHICUTO – É, do jeito que ele é fraco, entrega já os pontos!” (MARINHO: 2005: 42-45) [grifos nossos].

Nessa cena, a cachaça é usada por Heronides e seus companheiros como estratégia para enganar o cabo. Na intenção de escapar da prisão, o velho do pastoril faz Nestor crer na amizade de ambos, fingindo compreender a “difícil situação” do cabo de ter de cumprir sua função como autoridade local. Tudo em nome da lei e da ordem que Nestor “defende” e “representa”. Por isso, como forma de demonstrar sua compreensão, Heronides convida-o para juntar-se aos demais convidados e celebrar o triunfo da amizade em face da rigidez da lei, antes de conduzi-lo até a delegacia.

Apenas um jogo de espelhos, de falsas aparências, entre os dois rivais. Artifícios da malandragem. Em outras palavras: tudo não passa de um ardil improvisado pelo arlequim Heronides para não ser preso e dar uma lição no falso amigo. Utiliza-se do “código de ética dos cachaceiros” para fazer o cabo participar da festa, caminhar da ordem para a desordem. Segundo Câmara Cascudo, “o liame ocasional do grupo se rompe com o abstêmio. É, intimamente, um intruso. Um desmancha prazer, pondo gelo no fogo e areia no creme”. (CASCUDO: 2002, 297) Sua abstenção neste rito social mostraria “pouca solidariedade aos amigos, índice de indiferença ao ambiente, de não estar satisfeito com a convivência”. (CASCUDO: 2002, 297) Dessa forma, como prova de amizade, Nestor não pode abster-se da comemoração, visto que participa, em outros momentos, intensamente daquele universo, mesmo pertencendo também a um outro sistema: ao da ordem, da lei e não ao da desordem. Teme também que sua recusa transforme seus ex-companheiros em inimigos, pois, mesmo esbanjando valentia, não passa de um fanfarrão.

Apesar de se esforçar e crer-se sagaz, Nestor é um ingênuo; um tolo, vítima de sua própria presunção, sua falha cômica que, por sua vez, leva-o a uma desmesurada credulidade. De fato, Nestor acredita nas boas intenções de Heronides. Sente-se satisfeito consigo mesmo ao saber-se o grande homenageado da festa. Como ocorre, frequentemente, nas comédias, as desmedidas de um personagem cômico levam-no ou à sua felicidade pessoal ou à sua punição e à alegria geral dos que o cercam:

CABO – (Imediatamente) Teje preso! Ah! (Todos riem e o Cabo se esforça para vencer o sono)

JOSIAS – Depois de uma dessa, só muita Pitu. (Bebe)
CABO – (Ficando de pé, apoiado na mesa) Pronto?
HERONIDES – Ainda falta a sobremesa.
DUDU – O que é? Doce de vidro?
CABO – (Rindo) É doce de xilindró! Vamos? (Quando tenta andar, cai sentado, sem força nas pernas)
HERONIDES – (Entregando um copo de bebida ao Cabo) Vamos. A Saideira!!
CABO – (Disparando na risada, quando tenta se erguer inutilmente) A ficadeira! (Bebe largamente)
TODOS – (Rindo e bebendo) A ficadeira! (MARINHO: 2005, 52) [grifos nossos].

Nestor cai na armação de Heronides, deixando-se embriagar. Percebe-se na trajetória do cabo um princípio dialético que o leva sempre ao malogro. O personagem encontra-se cindido pelo que Antonio Candido chama de dialética da ordem e da desordem. Forças antitéticas que o fazem pender ora para uma, ora para outra. De um lado, Nestor é o representante da lei; do outro, entrega-se de corpo e alma à desordem do mundo do pastoril profano. Assim como Heronides & seus companheiros, Nestor não passa de um malandro que usa o brasão da lei apenas para conseguir vantagem sobre os outros, como por exemplo, beber fiado no bar de Chicuto ou vingar-se de seus inimigos sem sofrer sanções. Aproveita-se de seu papel de zelar pela ordem durante as funções de pastoril para compartilhar os momentos de prazer saboreados pelos amigos. Além de com eles se solidarizar, protegendo-os de retaliações da justiça, quando lhe é conveniente.

Os valores se tornam relativos, comunicando-se em diversas circunstâncias: “Ordem e desordem se articulam portanto solidamente; o mundo hierarquizado na aparência se revela essencialmente subvertido, quando os extremos se tocam”. (CANDIDO: 2004, 37) No universo da peça, um oficial da lei se revela um burlador semelhante aos malandros que vigia e tenta punir, além de se embriagar inadvertidamente; um sacristão tenta castigar uma fiel por ciúmes de seu amante; uma juremeira pode ser mais piedosa e temente a Deus do que os representantes oficiais da Igreja, mesmo que tenha uma maneira particular de exercer sua devoção; e uma mulher adúltera justifica sua traição para realizar o sonho da maternidade. Essa dialética constitui um dos sentidos mais densos da peça.

A cachaça transcende a si mesma, tornando-se uma alegoria que resignifica a peça por meio da embriaguez. A “embriaguez” em seu sentido de “exaltação” à própria vida. Nesse aspecto, Marinho aproxima-se do que Friedrich Nietzsche (1944-1900) concebe da tragédia grega, para ele, ligada “à duplicidade do apolíneo e dionisíaco, da mesma maneira como a procriação depende da dualidade dos sexos, em que a luta é incessante e onde intervêm periódicas reconciliações”. (NIETZSCHE: 1992, 27) Apolo e Dioniso eternizam-se em impulsos diversos e emparelhados suscitam discórdia, incitando-se a produções sempre novas, mutuamente: “Para nos aproximarmos mais desses dois impulsos, pensemo-los primeiro como os universos artísticos, separados entre si do sonho e da embriaguez, entre cujas manifestações fisiológicas cabe observar uma contraposição correspondente à que se apresenta entre o apolíneo e dionisíaco”. (NIETZSCHE: 1992, 27)

Segundo o filósofo alemão, a arte dionisíaca ou a arte trágica é um jogo com a embriaguez, uma representação que procura aliviar a própria embriaguez, por meio de sua idealização, possibilitando a simultaneidade da lucidez e ebriedade, isto é, o estado estético dionisíaco. Em outras palavras: “A arte trágica controla o que há de desmesurado no instinto dionisíaco como se Apolo ensinasse a medida a Dioniso, ou como se servisse a poção mágica, a bebida trágica, em sonho”. (MACHADO: 1999, 24)

A experiência dionisíaca sem a medida de Apolo significa um acesso à verdade da natureza, mostrando o quanto a natureza ou a verdade é desmedida; faz o homem perceber que a beleza ou a aparência da arte apolínea mascara a verdade. Na experiência dionisíaca há uma embriaguez de sofrimento que solapa o belo sonho. No entanto, a arte trágica concilia Apolo e Dioniso, tendo por finalidade a alegria: “[…] mostrando o destino do herói trágico como sendo sofrer, [a tragédia] não produz sofrimento mas alegria: uma alegria que não é mascaramento da dor, nem resignação, mas a expressão de uma resistência ao próprio sofrimento”, (MACHADO: 1999, 24) gerando um efeito contrário ao da dor: a exaltação à vida. Esses são também os objetivos de Marinho em Viva o cordão encarnado: propiciar a alegria e exaltar a vida.

Para Nietzsche, a verdade ou essência é Dioniso; para Marinho, essa mesma verdade é Zé Pelintra. Se Dioniso é adorado com o vinho, levando os celebrantes ao êxtase – ao estado de torpor e arrebatamento que a verdade dionisíaca apresenta –, em Viva o cordão encarnado, Zé Pelintra é cultuado com a cachaça. E no seu culto a verdade do desejo é revelada em toda sua violência e terror pela embriaguez, com uma força que destrói e renova. É necessária a intervenção de Zé Pelintra para que sua natureza não seja apenas destrutiva. Mesmo que o falo de Nestor seja extirpado, a vida renasce do ventre de Vicência, tornando a peça em uma alegre tragédia. Mas é acima de tudo uma comédia da embriaguez, reunindo sonho e ebriedade, luz e sombra, aparência e essência, imagem e música.

No aspecto formal, Marinho organiza as diversas intrigas da peça de maneira intencionalmente desordenada para que o receptor possa acompanhar o encadear das cenas, como se cambaleante, embriagado, presume-se. Não sabe para onde direcionar seu olhar, qual o foco da narrativa, em cujo desfecho se dá a representação da ideia primordial: a embriaguez. A cachaça está embutida na estrutura dramática de modo figurativo para invocar no leitor-espectador um ordenamento das ideias expressas nos diversos quadros enunciados. Nas labirínticas intrigas paralelas, sua “desarrumada” narrativa, ressoa a ideia de uma comédia urdida sob o signo da embriaguez, na qual o leitor-expectador também se torna ébrio. Esta é a chave para se compreender sua estrutura formal e ontológica, lócus onde se ocultam sua natureza e onde se realiza plena e integralmente.

Marinho, ao criar uma comédia que só na aparência é linear, dando saltos temporais entre os quadros do primeiro e do segundo ato, pegando um tema e largando-o em seguida, age não apenas como um subversor da lógica interna dos personagens, mas também como desconstrutor dos “resíduos” de uma quiçá “dramática rigorosa” (embora cômica). Mediante as premissas próprias a um mestre da ficção dramática, o dramaturgo não se escraviza ao “efeito do real”, mas “remodela-o”. Move seus personagens como um titeriteiro que manipula suas marionetes não pondo limite ao seu imaginário, burlando as fronteiras do gênero escolhido, a comédia, mesmo que sob uma atmosfera trágica ou sob um dionisismo nietzschiano. Seu Theatrum Mundi alimenta-se do embate dialético entre uma imitação realista e de um artifício autorreflexivo.

Regidos sob o signo da embriaguez, os personagens marinhos encontram a essência da incompletude, o fracasso de toda a ideia de perfeição e acabamento, porque cada um carrega consigo forças contrárias que determinam seu movimento em direção ao devir. É o próprio movimento da transformação e da ausência de verdades. De certa forma, todos os personagens de Viva o cordão encarnado transitam entre a ordem e a desordem, entre sobriedade e a embriaguez, entre a sisudez e o jocoso, entre o trágico e o cômico. Essa é a essência dialética em Viva o cordão encarando, onde é acionando um mecanismo que rompe o tédio e a incompletude cotidianos.

Notas:

(1) Há uma peça de Antonio Callado, A revolta da cachaça, de 1959, embora só publicada em 1983, onde a branquinha vai ter um papel dramático relevante, sobretudo pela misteriosa presença de um tonel de cachaça, do qual, à medida que a trama avança, todos os personagens bebem e aquilo “que parecia ser uma conversa de amigos vai crescendo em tensão e nervosismo até degenerar em tragédia”. (CHIAPPINI 2004b: 109). Vê-se, de antemão, que a peça se diferencia bastante da atmosfera cômica de Viva o cordão encarnado, por mais que a perpasse a atmosfera trágica, ou mesmo o clima de comédia séria, à Diderot. Na peça de Marinho, tudo caminha para um desfecho trágico cuja reviravolta devolve à peça sua força cômica. E a embriaguez tem aí seu élan vital.

(2) Sinônimo de uma dose de cachaça.

(3) MARINHO, Luiz. Op., cit., p. 32. Pode-se tomar a famosa marchinha de carnaval “Cachaça”, de Mirabeau, L. Castro, H. Lobato, Marinosio Filho, como hino desta sociedade regida sob o signo da embriaguez: “Você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não/ Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão/ Pode me faltar tudo na vida/ Arroz feijão e pão/ Pode me faltar manteiga/ E tudo mais não faz falta não/ Pode me faltar o amor/ Há, há, há, há!/ Isto até acho graça/ Só não quero que me falte/ A danada da cachaça”. Disponível em: http://vagalume.uol.com.br/mirabeau-pinheiro/cachaca.html. Acesso em: 07 abr. 2007.

(4) Esta é uma expressão que foi usada por Ochelsis Laureano e Raul Torres na música “Moda da pinga”, celebrizada em sucesso por Inezita Barroso, cujo primeiro verso diz: “Co’a marvada pinga é que eu me atrapaio/ Eu entro na venda e já dô meus taio/ Pego no copo e dali num saio/ Ali mesmo eu bebo, ali mesmo eu caio/ Só pra carregá é queu dô trabaio, oi lá!”. Disponível em: http://carlossaraiva.blogspot.com/2006/05/moda-da-pinga.html. Acesso em: 07 abr. 2007.

Referências bibliográficas:

CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem. In: ______. O discurso e a cidade. 3ª ed. São Paulo: Duas Cidades; Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.

CASCUDO, Luís da Câmara. Prelúdio da cachaça. 2ª ed. São Paulo: Global, 2006.

CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil. 5ª ed. São Paulo: Global, 2002.

MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

MARINHO, Luiz. Viva o cordão encarnado. Recife: Instituto do Açúcar e do Álcool; Museu do Açúcar, 1969

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo. Trad., notas e posfácio J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

PRIORE, Mary Del. Do copo ao corpo e do corpo à alma. Cachaça, cultura e festa. In: FIGUEIREDO, Luciano et al. Cachaça: alquimia brasileira. Rio de Janeiro: 19 Design, 2005

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