Críticas
O surgimento furtivo da escrita

Pois qual é o valor de todo nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?
Walter Benjamim. Experiência e pobreza
O reino do mar sem fim oferece uma possibilidade de confronto entre o olhar que se dirige para a cultura popular e nossas formas de apreensão contemporâneas. Acredito nisso, porque uma arte intercultural precisa criar também um olhar intercultural e não um olhar de valorização da tradição que privilegia os modos de produção do contexto central. Patrice Pavis nos oferece a possibilidade de inventar uma “nova disciplina” que possa descrever e analisar os objetos. Essa possibilidade existe, no caso de Mar sem fim, porque sua construção partiu de uma inspiração que a diretora e pesquisadora Adriana Schneider se refere como uma epifania. Schneider, em um determinado momento, ao longo de 14 anos de trabalho de pesquisa na Zona da Mata de Pernambuco, se deparou com um mamulengueiro, Severino da Cocada que, realizando um corte na tentativa de direcionamento que ela dava à conversa, abriu uma velha caderneta em uma página em branco e adotando uma postura “épica (…) pôs-se a cantar o romance Reino do mar sem fim”. Qualquer linha discursiva que Schneider procurasse dar àquele encontro foi interrompida pelo fragmento dito e impregnou a pesquisa de um desejo expresso pela sensação de inconclusão. Tempos depois, ao acaso, ela encontrou o folheto de cordel, O romance da princesa do mar sem fim de Severino Borges da Silva, em um sebo – condição de colisão aleatória. A literatura de cordel tem a característica de se originar na oralidade, percorre o caminho entre a fala e a escritura, entre o evento, o improviso e um momento de elaboração.
Pulsões de morte transbordam na Guanabara

A presença do mar, que se impõe como personagem em Senhora dos Afogados, norteou a diretora Ana Kfouri na escolha do espaço para encenar sua versão da peça de Nelson Rodrigues: o restaurante Albamar, de frente para a Baía de Guanabara. A diretora afasta o espaço de sua utilidade cotidiana. O Albamar não é evocado como restaurante. Seu amplo salão é aproveitado para reconstituir a casa da família Drummond.
Ana Kfouri caminha em sentido contrário ao da abordagem de um grupo como o Teatro da Vertigem, conduzido por Antonio Araujo, que dialoga em níveis variados com a literalidade dos espaços não-convencionais escolhidos para apresentar seus espetáculos. A carga inerente a cada um dos espaços – a igreja em O paraíso perdido, o hospital em O livro de Jó e o presídio em Apocalipse 1,11, montagens que formam a Trilogia Bíblica – torna-se texto (enquanto portador de significado), elemento determinante à apreciação da plateia, assim como o Rio Tietê (ou a Baía de Guanabara, na temporada carioca) de BR 3, encenação em que o Vertigem abordava o espaço não-convencional mais como metáfora (das mazelas brasileiras) do que pela via do literal. Uma perspectiva também diferente dessa nova leitura de Senhora dos Afogados, que não interage com a utilização cotidiana do espaço, restringindo a esfera literal às cenas ambientadas no cais, particularmente a das prostitutas, que encerra o espetáculo.
Um olhar com pensamento dentro

“E os aparelhos ópticos, meus aparatos? Ponho mais lentes no telescópio, tiro outras; amplio; regulo; aumento, diminuo, o olho enfiado nestes cristais, e trago o mundo mais perto ou o afasto longe do pensamento: escolho recantos, seleciono céus, distribuo olhares, reparto espaços, o Pensamento desmonta a Extensão, – e tudo são aumentos e afastamentos. Um olhar com pensamento dentro.”
Paulo Leminski, Descartes com lentes
A apresentação de Descartes com lentes realizada no ACTO2, encontro de teatro do Espanca! com o Grupo XIX e a companhia brasileira, que aconteceu em Belo Horizonte em outubro deste ano, se deu num contexto singular: a inauguração da sede do Espanca!, ainda em processo de reformas, mas já em plena atividade. Depois da apresentação, artistas e espectadores conversaram, trocando impressões sobre o trabalho e sobre a experiência da criação, o que aconteceu como consequência natural daquele encontro, provavelmente pelo viés filosófico do próprio texto, que convida à conversa.
A artificialidade em questão

O espetáculo Comédia russa, texto de Pedro Brício com direção de João Fonseca, que esteve em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues e faz sua segunda temporada, desta vez no teatro do Centro Cultural da Justiça Federal, até o dia 28 de novembro, se desenvolve a partir da metáfora que explora a comicidade do dia a dia de uma repartição pública, numa Rússia defasada tecnologicamente, encalhada na burocracia e regida pela má vontade do funcionalismo público.
Num primeiro momento da fábula, acompanhamos a trajetória do jovem Alexei (Rodrigo Nogueira) em seu primeiro dia de trabalho, depois de ter passado em segundo lugar no concurso que prestara. A situação de enfrentamento que este estabelece com a secretária Miúcha (Filomena Mancuso), a recepcionista que, antes mesmo de saber que o rapaz será seu colega de trabalho, exige dele uma série de documentos, afim de comprovar realmente se ele é a pessoa que diz ser, já deixa entrever que espécie de jogo cênico os atores vão definir como estrutura fundamental no processo de significação do espetáculo: o jogo que se instaura a partir da artificialidade na relação entre os signos.
Relações passionais no íntimo familiar

Por quase 40 anos, a obra dramatúrgica de Hilda Hilst permaneceu à sombra de sua prosa, esta sim frequentemente adaptada ao palco em montagens como O Caderno Cor de Rosa de Lori Lamby ou A Obscena Senhora D. Somente em 2008 foi lançada a reunião de suas peças completas, grande parte inédita: um incentivo a encená-las. Não surpreende, portanto, que a Ruminar Cia. de Teatro, de Curitiba, tenha se proposto a montar O Visitante, texto ímpar em uma obra teatral já toda singular.
Hilda se dedicou à literatura dramática apenas em um curto período entre 1967 e 1969, ano em que a produção numerosa e consistente de mulheres como Leilah Assunção e Consuelo de Castro afirmava, pela primeira vez, a dramaturgia de autoria feminina no país – mas Hilda se diferencia de suas contemporâneas por escapar ao teatro de costumes. Naquele momento, a tomada do palco como lugar de expressão sinalizava o crescente movimento feminino de apropriação do espaço público – para além da literatura, solitária e circunscrita ao ambiente privado – uma das principais bandeiras feministas.