Vol. XIV nº 73 junho a dezembro de 2022

Tempo crioulo, tempo criativo

28 de julho de 2022 Conversas, Vol. XIV nº 73 junho a dezembro de 2022 , e

Diego Araúja é artista de Salvador. Produz arte de modo expandido desde 2011. Suas mídias são literárias, visuais, cênico-performáticas e cinematográficas; nas funções de diretor, dramaturgo, cenógrafo, roteirista e artista visual. Dirige o processo Estética Para um Não-Tempo, com o objetivo de instaurar tempos qualitativos para a produção de memórias afro-diaspóricas emancipadas do trauma; o que gerou a obra QUASEILHAS (2018). Este processo possui 2 investigações complementares: estudos da performance-exposição das psiques negras no campo narrativo; e o Laboratório Internacional de Crioulo (LIC), que consiste na fundação de um agrupamento atlântico-internacional entre artistas do corpo para conceber, a longo prazo, “uma língua não-nascida do trauma”, um novo crioulo. O LIC foi ativado em 2020 no Pivô Arte e Pesquisa (São Paulo-SP) e, ainda em 2021, iniciará o mapeamento de artistas do corpo no mundo atlântico, através da Trienal FRESTAS (Sorocaba-SP). Em 2017 Araúja funda, juntamente com a artista Laís Machado, a Plataforma ÀRÀKÁ – um território de criação e produção em arte expandida e transdisplinar. Concebeu uma performance coreográfica para videoinstalação A Marvellous Entanglement, do artista britânico Isaac Julien. Foi convidado para as residências artísticas: Atlantic Center For The Arts (Flórida-EUA) e SAVVY Contemporary (Berlin-GER) em 2020. No mesmo ano, participou do ¡ADELANTE! – Iberoamerikanisches Theaterfestival (Heidelberg-GER) com seu trabalho QUASEILHAS. Diego Araúja também foi indicado a “melhor diretor” por QUASEILHAS; e ganhou o prêmio na categoria “melhor texto” pelo Prontuário da Razão Degenerada, além das indicações de “melhor diretor” e “melhor espetáculo”, respectivamente, no Prêmio Braskem de Teatro da Bahia 2019 e 2020.

A conversa foi realizada por Daniele Avila Small e Lorenna Rocha em março de 2022 para a revista Critical Stages e publicada primeiramente em inglês.

Qual o lugar do teatro na sua formação como artista?

A decisão de ser artista veio antes da decisão do que fazer como artista. Apesar disso, lembro de ter a clara consciência da minha disposição para a narrativa. Como ouvinte, leitor ou plateia, mas também como praticante da narração. Não é simplesmente um ditado, expressão retórica ou, até mesmo, uma mentira; quando alguém diz que as histórias estão para além da narração, do livro, da performance de contação. Que está nas sonoridades, melodias, em imagem, como espaço, em movimento, nessas possibilidades do abstrato. Por isso fui buscando a narrativa por esses meios: escola de música, ateliê de artes plásticas, metalúrgica náutica, marcenaria e mercearia, curso de escrita criativa, concepção fílmica. Estava buscando a resposta para a pergunta: o que poderia ser essa minha narrativa?.

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Apesar do vento

24 de junho de 2022 Críticas, Vol. XIV nº 73 junho a dezembro de 2022

Como aconteceu com diversos projetos, a pandemia atrasou em dois anos a estreia de Uma peça para Fellini, projeto idealizado pela atriz e diretora de teatro Marcia do Valle com o diretor e produtor de cinema Cavi Borges. A proposta era estrear em 2020, ano de celebração do centenário de nascimento do cineasta italiano Federico Fellini, a quem o espetáculo presta uma homenagem franca e afetuosa. O teatro e o cinema estão juntos neste projeto em diversos aspectos. Além da parceria entre Marcia e Cavi, o espetáculo se dá como uma espécie de resposta às referências que Fellini faz ao teatro em seus filmes e acontece dentro de um cinema, no foyer do Estação Net Rio, em Botafogo, no Rio de Janeiro, tendo feito parte das ações contra a ação de despejo que ameaçou a continuidade deste espaço tão importante para o cinema nacional na cidade.

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Um manifesto para o palco futuro: performance é um direito humano

6 de junho de 2022 Traduções, Vol. XIV nº 73 junho a dezembro de 2022

NOTA: O Manifesto futureStage (palcoFuturo) foi escrito de maneira coletiva ao longo do último ano pelo futureStage Research Group at metaLAB at Harvard (Grupo de Pesquisa palcoFuturo do MetaLAB de Harvard). Com expectativas novas para as mídias, a cultura e a presença em um mundo hiperconectado, os marcos civis das artes performativas estão se transformando. Assim, a partir de uma série de encontros, o futureStage – um projeto de pesquisa global dedicado a investigar desafios atuais e perspectivas futuras para o desenvolvimento de casas de espetáculos para a ópera, o teatro e demais artes performativas – reuniu um time internacional e interdisciplinar de pesquisadores e especialistas para identificar e mapear tais mudanças, endereçando-se tanto aos problemas quanto às oportunidades que aparecem com novas configurações de palcos, cidades e públicos. Ao comparar e analisar as melhores práticas e as ideias seminais entre diversas áreas, o grupo pretende produzir anualmente um manifesto/relatório como referência e inspiração para governos, instituições culturais e organizações artísticas no mundo. 

Este é o primeiro relatório.

O texto original em inglês: http://future-stage.org


Performance não é mercadoria. Não é um luxo. Não é algo que se soma indiscriminadamente ao fluxo da vida. Não pertence ao éter, ao estado ou a financiadores privados. Não pertence aos espaços em que se performa.

Seja na forma de uma improvisação de rua ou de uma encenação formal de uma obra consagrada de séculos passados, ela pertence ao momento.

A performance é intersticial e conjuntiva: está sempre irrompendo, performada de novo no ato de performar. É uma encenação que envolve sons, imagens, cheiros, corpos, espaços, tempo e tato. Longe de estar à parte, ela é virtuosamente entrelaçada com todas as outras artes, das espaciais às visuais. A performance é um edifício fluido construído de interações: entre artista, equipe de produção e público; entre natureza e cultura; entre o humano e a máquina; entre arquitetura e seres vivos.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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