O espectador como cúmplice

Conversa com o dramaturgo e diretor espanhol José Sanchis Sinisterra

19 de janeiro de 2011 Conversas
José Sanchis Sinisterra

José Sanchis Sinisterra é, com certeza, um dos responsáveis pela ampliação do conceito de dramaturgia. Autor teatral, vem formulando em seus textos uma reflexão sobre o que talvez se possa chamar de escrita do ator. A difusão de seu trabalho no Brasil deve ser, em boa parte, creditada ao contato com encenadores como Aderbal Freire-Filho e Christiane Jatahy. Em uma conversa com Daniel Schenker, Sinisterra fala sobre o desejo de ativar o espectador, de elevá-lo ao posto de coautor da cena, do intercâmbio entre teatro e literatura (e outros campos, como a ciência) e da conexão com o Stanislavski do Método das Ações Físicas.

DANIEL SCHENKER – Alguns espetáculos encenados no Brasil a partir de textos de sua autoria, como Leitor por horas e Máquina de abraçar, inserem o espectador praticamente dentro da cena. Esta inclusão é uma característica especialmente valorizada em seu teatro?

JOSÉ SANCHIS SINISTERRA – O espectador passivo, contemplativo, não me interessa. Quero ativá-lo. Essa preocupação está presente na própria estrutura dos textos. Perdida nos Apalaches foi escrito sob a forma de conferência, de palestra. Em Vacío, um ator fala com o público. Em Os Figurantes, um grupo de figurantes almeja se tornar protagonista. São estratégias para que o espectador participe. Não explico muita coisa. Deixo buracos, brechas a serem completadas pelo público. As minhas obras têm muitas reticências: o som e o ritmo das palavras, as frases sem término. Penso o espectador como coautor, como cúmplice. Anseio que cada um enxergue uma obra diferente, que saia do teatro levando tarefas para casa. Detesto o modelo do espectador televisivo.

DANIEL SCHENKER – A reflexão sobre o trabalho do ator já se faz presente durante o processo de escrita de seus textos?

JOSÉ SANCHIS SINISTERRA – Durante toda a minha vida, trabalhei como autor e diretor. Escrevo pensando na criatividade do ator. Procuro fornecer motivações, antecedentes, objetivos para o ator. Introduzo nos textos muitos dos aspectos que pesquiso nas minhas aulas. Exemplo: a palavra como ação e não como literatura, como retórica. Quando escrevo, murmuro o texto para que seja “dizível” pelo ator. Nós, autores, às vezes temos a tendência de colocar a personagem falando com se fosse uma acadêmica.

DANIEL SCHENKER – Stanislavski é uma influência determinante?

JOSÉ SANCHIS SINISTERRA – Sim. O último Stanislavski – o das ações físicas. Quando digo que palavra é ação, penso em Stanislavski.

DANIEL SCHENKER – A memória é uma ferramenta importante em seu trabalho?

JOSÉ SANCHIS SINISTERRA – Normalmente, sim. Não podemos viver sem memória. Não sou partidário do conceito de memória emotiva, relativo ao “primeiro Stanislavski”. No final da vida, ele dizia algo que pode soar horrível aos atores do Actors Studio: “procurem no outro e não em si mesmos”. Na montagem de Vagas Notícias de Clan, pedi um experimento aos atores: que trabalhassem a personagem sem atributos, relacionando ao aqui/agora da situação. Não havia antecedentes – só mínimas motivações.

DANIEL SCHENKER – O senhor também busca embasamento fora do terreno teatral…

JOSÉ SANCHIS SINISTERRA – Sempre busco fora do teatro (na linguística, na física quântica, por exemplo) material para enriquecê-lo. O trabalho artístico não pode ignorar o que acontece em outros campos. Na palestra que dei dentro do evento A Teatralidade do Humano procurei chegar à compreensão do sistema teatral (no que se refere a escolhas estéticas e técnicas) usando conceitos da Teoria da Evolução.

DANIEL SCHENKER – Hoje em dia muitos defendem o entrelaçamento entre teatro e outras manifestações artísticas. O senhor considera essa contaminação sempre positiva?

JOSÉ SANCHIS SINISTERRA – Em geral, acho positiva. Mas é preciso conhecer os territórios sobre os quais se está debruçando. Explorar as fronteiras é um compromisso, uma necessidade. Não nos cabe aceitar a rigidez delas. Pesquisei muito a fronteira entre narratividade e dramatividade no grupo que fundei, o Teatro Fronteiriço, em Barcelona, em 1977. E a fronteira entre arte e ciência deve ser explorada.

DANIEL SCHENKER – O senhor costuma partir de material literário. Comente as operações dramatúrgicas que realiza:

JOSÉ SANCHIS SINISTERRA – Adaptei textos de Franz Kafka, Julio Cortazar, José Saramago e James Joyce. Procuro atravessar as fronteiras do narrativo e produzr uma forma híbrida. São processos me levaram a repensar toda a estrutura do texto dramático. As minhas principais preocupações são: descobrir como e porque o texto narrativo produz em mim, leitor, determinados efeitos; e produzir efeitos similares em território diferente – no caso, o teatral. Para mim, cada dramaturgia é uma aventura, um experimento. Às vezes dá certo, às vezes não. Moby Dick, que fiz em 1982, foi um fracasso glorioso. Mas aprendi muito. Achei bem interessante a versão de Aderbal Freire-Filho para o texto de Herman Melville.

DANIEL SCHENKER – Aderbal Freire-Filho trabalha bastante com o intercâmbio entre teatro e literatura através do formato do romance-em-cena, no qual transporta livros integralmente para o palco, a exemplo do que já fez com A mulher carioca aos 22 anos, de João de Minas, O que diz Molero, de Dinis Machado, e O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho…

JOSÉ SANCHIS SINISTERRA – Aderbal não modifica o texto narrativo. Os personagens falam com a voz do autor, mas a sua emoção é presente. Eu posso mudar a forma verbal do texto sem alterar o estilo – como trazer para o presente algo que no texto literário está narrado no passado. A personagem precisa narrar para produzir uma determinada consequência. Narrar para quem? Às vezes, a voz narrativa está muito personalizada no texto, como em Ulisses, de Joyce. Uma voz que fala o aqui/agora da personagem. Então, a transposição é muito simples. Falo mais de intervenção dramatúrgica do que de adaptação. Adaptação soa como adaptar à teatralidade normal, habitual.

Daniel Schenker é doutorando em Artes Cênicas pela UniRio e crítico de teatro do Jornal do Commercio e da revista Isto É/Gente.

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