Epílogo, resíduo ou conclusão

Crítica do Programa 3 do festival Resta pouco a dizer

10 de abril de 2008 Críticas
Performance Luz (-). Foto: Dalton Camargos

O programa 3 do festival Resta pouco a dizer traz as peças de Beckett Eu não e Rascunho para Teatro II, além das performances Luz –, Respiração – e Luz +. Há também outra performance cujo nome não consta no programa da peça. A performance inicial, Luz –, funciona, por semelhança aos programas 1 e 2, como um prólogo. Ela anuncia a polaridade luz/escuridão como tema. O desenvolvimento do tema, no entanto, não vai além do que já está apresentado no prólogo: tanto esta performance como as que vão ser apresentadas a seguir parecem não explorar o tema de fato, elas têm uma função apenas ilustrativa. A simplicidade das performances do programa 2 se tornou simplificação no programa 3.

Em Luz –, duas atrizes estão de pé, cada uma em uma caixa iluminada por dentro. Acender a luz da caixa é a deixa para que a atriz que está lá dentro comece a se movimentar e falar; apagar a luz é a deixa para que ela se cale e fique imóvel. O interesse por este mecanismo se esgota rapidamente, ele não provoca no público o mesmo tipo de tensão que Respiração + despertava, talvez porque não lida com nenhum risco ou demanda de auto-superação efetivos. Além disso, o acender e apagar das luzes internas das caixas é feito por interruptores que circulam pelo público. Esta escolha traz à tona uma noção de “participação da platéia” literal demais, que diminui uma possível dimensão de jogo entre artistas e público.

Na sala de espetáculos, a primeira apresentação é de Eu Não. A disposição cênica parece uma instalação feita a partir do texto de Beckett, mais do que uma encenação de sua obra. Ao mesmo tempo, ela não fica legível como instalação, talvez por estar num palco italiano, mas provavelmente ainda mais por não provocar uma tensão com a peça que justifique a renúncia às diretrizes do autor. No caso específico de Eu Não, acredito que exista uma expectativa por parte da platéia de vê-la encenada de acordo com a rubrica. E a platéia ali presente é, em grande parte, aquela que já tem expectativas sobre Beckett. Esta expectativa não é infundada: a descrição da cena na rubrica do texto tem um peso fundamental no seu sentido. Uma frase de Billie Whitelaw resume: “Muitos escritores podem escrever uma peça sobre um estado de espírito, Beckett conseguiu pôr aquele estado de espírito em cena, diante dos olhos das pessoas.” Não acredito que ele faça isso só com o texto, mas especialmente com a visualidade daquela proposta de iluminar apenas a boca da atriz, de deixar ver apenas a boca no meio da escuridão “diante dos olhos das pessoas”.

A performance Respiração – parece deslocada do resto do espetáculo e é até mesmo difícil pensar sobre ela, pois é como se ela fosse uma sobra do programa 2, um experimento que não funcionou tão bem, mas do qual não se quis abrir mão. Da mesma forma, Rascunho para Teatro II me parece destacado de toda a programação anterior. O registro de atuação é bem diferente daquele utilizado em Improviso de Ohio, por exemplo. É como se a leitura dada a este texto fosse outra, como se a peça não fosse de Beckett e como se os atores quisessem testar um tipo de atuação mais próximo da representação.

As outras performances em torno do tema luz/escuridão também são executadas de um modo difícil de associar com as dos outros programas. Naquela que não está mencionada no programa, um ator segura uma enciclopédia enquanto uma atriz risca fósforos, um atrás do outro. Como eles estão no escuro, só têm o tempo da queima do fósforo para ler um verbete. Na performance seguinte, que encerra o espetáculo (e o festival), diversos atores estão de pé, no palco, e uma luz muito forte se projeta de lâmpadas colocadas abaixo da enciclopédia de cada um, na altura de seus joelhos. Eles devem ler um verbete apesar da luz e não com a ajuda dela. Estas cenas não apenas dispensam o humor e o despojamento de Respiração +, II e Embolada, mas trazem uma seriedade que fica ainda mais deslocada ao lado das montagens de Eu Não e Rascunho para Teatro II. É como se o pensamento tivesse endurecido para tratar estas últimas montagens, como se o programa 3 fosse um epílogo cansado.

Talvez haja um desejo de colocar em cena uma quantidade de coisas e, então, neste caso, o último programa ficou com o que deu menos certo. É claro que não faria sentido colocar, no primeiro programa, aquelas que não são as melhores cenas. Pelo contrário, a ordem escolhida me parece muito coerente: os textos mais interessantes e os nomes mais conhecidos no programa 1, as peças e performances mais animadas no programa 2 e o resto no programa 3. A questão é que este último se projeta sobre os outros na memória. Pensar os outros trabalhos sob a luz do programa 3 acaba por obscurecer um pouco a experiência que se teve com eles. O resquício se configura também como uma conclusão, pois ele é, de certa forma, a última palavra dos Irmãos Guimarães sobre Beckett nesta passagem pelo Rio de Janeiro. A última réplica pode ficar mais marcada que a primeira impressão, chegando mesmo a confrontá-la, quem sabe anulá-la – o que não deixa de ser um problema interessante: o juízo sobre o que foi visto antes entra em crise e fica em suspenso.

Vol. I, nº 2, abril de 2008

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