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Pulsões de morte transbordam na Guanabara

19 de janeiro de 2011 Críticas
Atriz: Cris Larin. Foto: Dalton Valério.

A presença do mar, que se impõe como personagem em Senhora dos Afogados, norteou a diretora Ana Kfouri na escolha do espaço para encenar sua versão da peça de Nelson Rodrigues: o restaurante Albamar, de frente para a Baía de Guanabara. A diretora afasta o espaço de sua utilidade cotidiana. O Albamar não é evocado como restaurante. Seu amplo salão é aproveitado para reconstituir a casa da família Drummond.

Ana Kfouri caminha em sentido contrário ao da abordagem de um grupo como o Teatro da Vertigem, conduzido por Antonio Araujo, que dialoga em níveis variados com a literalidade dos espaços não-convencionais escolhidos para apresentar seus espetáculos. A carga inerente a cada um dos espaços – a igreja em O paraíso perdido, o hospital em O livro de Jó e o presídio em Apocalipse 1,11, montagens que formam a Trilogia Bíblica – torna-se texto (enquanto portador de significado), elemento determinante à apreciação da plateia, assim como o Rio Tietê (ou a Baía de Guanabara, na temporada carioca) de BR 3, encenação em que o Vertigem abordava o espaço não-convencional mais como metáfora (das mazelas brasileiras) do que pela via do literal. Uma perspectiva também diferente dessa nova leitura de Senhora dos Afogados, que não interage com a utilização cotidiana do espaço, restringindo a esfera literal às cenas ambientadas no cais, particularmente a das prostitutas, que encerra o espetáculo.

Nelson Rodrigues: de crítico a criticado – Um melodrama do teatro brasileiro

22 de janeiro de 2010 Estudos

Introdução

Machista, tarado, reacionário. Estes são apenas alguns dos adjetivos atribuídos a Nelson Rodrigues.  Porém, independentemente da opinião daqueles que ajudaram a construir esta visão tão pejorativa, ele foi considerado o primeiro a colocar no palco a vida cotidiana do subúrbio carioca, abrindo caminho para o uso coloquial da língua e inovando as temáticas dos textos teatrais. Nelson Rodrigues é conhecido como escritor, dramaturgo, cronista social e esportivo.

Luiz Arthur Nunes, diretor e pesquisador do melodrama na obra de Nelson afirma que a sua geração achava um sacrilégio trazer dados biográficos para a análise da obra. No entanto, quando se trata deste autor, esta regra há muito foi quebrada. Ao resgatar fatos familiares e profissionais de Nelson Rodrigues, muitos temas que são constantemente expostos nas suas obras fazem sentido. As tragédias, a morte e as traições, assim como a censura e a crítica vão estar presentes em sua vida desde cedo.

Perguntas a Nelson

10 de maio de 2008 Críticas

Cuidado com o cão, da Cia de Teatro Íntimo, é o terceiro dos quatro espetáculos encenados pela companhia desde a sua formação. Estreado em 2007, o espetáculo foi imediatamente precedido pelo esquete Pouco não é amor, apresentado no festival Mercadão Cultural no segundo semestre de 2006. Ainda que este último não conste no folheto com a listagem dos espetáculos da companhia, minha expectativa e minha recepção para Cuidado com o cão foram absolutamente determinadas pela apresentação do esquete, especialmente pois o tamanho reduzido de seu formato suscitava o desejo por uma continuidade, que, de certa forma, pude observar no espetáculo que acaba de cumprir temporada no espaço da Cia dos Atores.

Subjetividades em jogo: recorte e montagem do universo masculino de Nelson Rodrigues

10 de abril de 2008 Processos

O processo do espetáculo Quer morrer comigo? será apresentado em 31 de maio e 1º de junho no Centro de Estudos Artístico Experimental no SESC Tijuca, como parte da Mostra Novíssimas Pesquisas Cênicas. A peça, projeto do ator Henrique Gusmão, que também fez a dramaturgia, é dirigida por Daniel Schenker e tem a supervisão geral de Celina Sodré, diretora do Studio Stanislavski, grupo do qual os dois artistas fazem parte. A idéia do espetáculo tem, de início, um caráter que me interessa: trata-se de uma pesquisa em que a dramaturgia e a atuação estão intrinsecamente ligadas no processo de elaboração do trabalho. Não simplesmente porque as duas funções são assinadas pela mesma pessoa, mas porque há uma atuação sobre a dramaturgia, feita a partir de um olhar de ator. Henrique Gusmão pesquisa, nas falas de Nelson Rodrigues, um fio que possa desenhar uma espécie de percurso pelos seus personagens masculinos.

Não digo que ele esteja delineando uma trajetória comum, uma espécie de monomito rodrigueano. Penso que se trata de uma trajetória determinada pelo olhar do ator, de uma leitura-em-percurso através dos textos de Nelson, que visa construir uma cena autônoma, porém enraizada nos mecanismos de construção do pensamento dos seus personagens. Todo o texto é construído com falas (descontextualizadas) de suas peças. Além das falas, alguns objetos são usados na edificação do trabalho. A relação com as falas e a relação com os objetos me parecem atuar como elementos balizadores para a criação do ator: as falas criam e fecham um universo de sentidos; os objetos constituem e sintetizam um espaço particular, um “em torno” que dá ao corpo um lugar de atuação. Dentro destes limites e apoiando-se nestes elementos, acontece a criação da peça.

Ser ou não ser Nelson Rodrigues

20 de março de 2008 Críticas

O espetáculo Cachorro! coloca em evidência dois problemas: o estereótipo rodrigueano e a questão da autoria de textos, quando estes são feitos a partir de um universo de determinado autor. No caso, a peça é livremente inspirada no universo de Nelson Rodrigues. A trama busca uma semelhança com seus textos, os nomes dos personagens são familiares aos seus, o texto tenta imitar uma construção de diálogos característica de suas peças, mas a peça não é de Nelson Rodrigues. A autoria é de Jô Bilac.

Aqui se faz necessário pensar o que é o universo de um autor e se é possível pensar este universo separadamente da sua escrita. Existe um universo de Nelson Rodrigues que prescinde de seus textos, que é autônomo, de domínio público? O que tem de importante e particular num texto deste autor: os jargões, as situações, o impacto sobre as questões morais do público, os desfechos trágicos, as gírias da época? Será que extrair do universo de um autor a sua própria escrita não é como retirar as bases da sua construção? Há um risco nesta escolha, o risco de não conseguir sair de uma espécie de clichê, de uma imagem convencionada pelo senso comum. Mesmo que as intenções sejam as mais sérias.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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