Tag: grace passô

Fantasmagorias da realidade

30 de janeiro de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

A cena é simples, na verdade, tudo dá a aparência de um cenário artificial. Uma sala de estar com duas paredes, uma ao fundo e outra na lateral direita. O cenário não tem um acabamento tradicional realista, é feito de compensado pintado, sem pretensões ilusionistas, propositadamente sem nenhum tratamento característico de uma cenografia figurativa. Na parede lateral vê-se um pequeno corredor que sugere um cômodo contíguo. O lado esquerdo é vazado para o escuro do fundo do espaço. Um carpete verde e um sofá marrom de dois lugares. A primeira impressão deste conjunto, juntamente com os atores no espaço, é a de que a narrativa humana se estrutura por enredos incompletos. Tudo sugere um desgaste pelo tempo. O que se observa é um desejo de realismo (de um regime estético mimético) insuflado pelo regime da realidade que se mostra como algo que precisa ser construído. A desejada imaterialidade humana de suas histórias está instalada numa região virtual que não está ali visível para o público, que se insinua pela qualidade de um cenário meio inacabado.

Imagens do envolvimento

30 de dezembro de 2012 Críticas
Foto: Guto Muniz.

Por correr, por suspender o movimento, por deixar o tempo passar, por parar o tempo, por amor, por se envolver, por deixar cair, por se proteger, por deixar ser clareira, por partir, por reencontrar, por planejar o improvável, por ser animal, por falar, por recortes, por imagens…

Em Por Elise, paradoxalmente, as associações não são óbvias, mesmo a vida não sendo tão imprevisível que não possa acontecer na história comum, ou dos comuns como diz o texto de Grace Passô. Os comuns não se portam em semelhança direta com o mundo conhecido. A dramaturgia se realiza em corpos no espaço, ou nos modos de se manter de alguma maneira no espaço. O que impressiona pode ser suas imagens que transitam entre movimento e ações. O Tai Chi é como um meio expressivo destas duas qualidades dos corpos na cena e, no prólogo, aponta precisamente algo que ainda está por vir.

Tensão na vida familiar

24 de novembro de 2012 Críticas

É totalmente possível concordar com o personagem Joaquim, que abre Amores surdos: todas as histórias já foram escritas e todas as histórias já foram contadas. Joaquim anuncia o que se passará – a história comum de uma família, fazendo coisas, comendo e brigando, cuidando um do outro, existindo em um determinado intervalo de tempo entre dois telefonemas. Situa ainda o espectador em sua condição de assistência de uma ficção teatral. Escutamos com Agamben o eco de Godard nas Histoire(s) de que “não temos necessidade de filmar, basta-nos repetir e parar”. Todas as imagens já foram filmadas. Temos imagens demais. Para que façam algum sentido novo precisamos recortá-las, colá-las em outra arrumação, montar e remontar as imagens. A questão é como estamos construindo estas imagens para sabermos de qual mundo estamos falando ou, por outra, como estamos andando no mundo, o quê do disponível para todos estamos escolhendo para colocar em jogo.

Autoral e polifônico

30 de outubro de 2010 Conversas

Por acasião da temporada do espetáculo Marcha para Zenturo, criado pelo Grupo XIX de Teatro e pelo Espanca!, Felipe Vidal conversa com os integrantes de ambos os grupos. A conversa foi realizada em setembro de 2010 no Espaço SESC. Participaram da conversa: Luiz Fernando Marques, Janaina Leite, Juliana Sanches, Ronaldo Serruya e Paulo Celestino (do Grupo XIX); e Marcelo Castro, Gustavo Bones e Grace Passô (do Espanca!).

Felipe Vidal – Acho que a gente pode começar falando de uma coisa mais objetiva sobre os grupos para depois entrar na história do espetáculo. Queria saber como é a sobrevivência dos grupos, como se dá o dia a dia, como acontece isso para vocês – individualmente e coletivamente?

Janaina Leite – No Grupo XIX a gente tem um contexto bastante específico que é o movimento teatral em São Paulo, que nos anos 90 abriu uma porta enorme de possibilidades pro teatro de grupo. Ainda com todas as restrições, dentro do cenário do país, acho que São Paulo tem uma realidade pra realização do teatro de grupo que é bastante singular. São 10 anos de trajetória e a gente se cola totalmente às conquistas do movimento em São Paulo. Tem a ver com a Lei de Fomento, com todos os editais que vieram depois; com a Lei de Fomento, sobretudo, que foi o que estruturou o grupo. Estruturou, criou um espaço, a gente se entendeu como grupo a partir da Lei de Fomento. O que significa esse entendimento sobre o que é ser grupo, o que é fazer um trabalho continuado, o que é ter uma pesquisa. Então, a gente hoje em dia tem essa força muito grande que é estar ligado a um espaço – o que potencializa muito nossas atividades não só internas, como possibilidade de interação, de receber outros grupos e atividades no espaço – e essa manutenção que vai se dando por esses editais públicos.

A linguagem do outro

28 de outubro de 2010 Críticas
Atores: Izabel Stewat, Marcelo Castro, Alexandre de Sena, Gustavo Bones, Mariana Maioline. Foto: Guto Muniz.

A peça Congresso Internacional do Medo, do grupo Espanca!, abriu o ACTO2, evento que acontece de 20 de outubro a 3 de novembro deste ano em Belo Horizonte. O encontro reúne três grupos de diferentes estados do Brasil: a Companhia Brasileira de Teatro, do Paraná, o Grupo XIX de Teatro, de São Paulo e o Espanca!, de Minas Gerais, e dá continuidade ao ACTO1 que aconteceu em 2007, com os mesmos grupos, que apresentaram espetáculos de seu repertório – Suíte 1, Hysteria e Por Elise. Neste ano, além de Congresso Internacional do Medo, o evento conta com dois trabalhos da Companhia Brasileira, o espetáculo Vida e o exercício Descartes com lentes, além da apresentação de Hygiene, do Grupo XIX, e das oficinas e encontros com os grupos.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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