Traduções

Sobre Saxo, Hamlet e a performance

22 de janeiro de 2010 Traduções

Hamlet, Don Juan, Doutor Fausto e Arlequim são arquétipos bastardos que não conhecem suas mães e seus vários pais. Eles adentraram em nossa cultura moderna através das primeiras companhias profissionais especializadas em vender entretenimento no nascimento do teatro Europeu, na ‘Era de Ouro’ entre os séculos XVI e XVII.

Estes foram anos de pragas, suspeitas, massacres, intolerância e guerras religiosas. Hamlet, Don Juan, Doutor Fausto e Arlequim chegaram ao palco escondendo sua natureza bárbara e feroz sob um arco-íris de comentários bem-humorados e pensamentos profundos. Todos os quatro eram peritos na arte de se livrar de seus adversários com armas, sagacidade e feitiços. O cheiro de uma cultura refinada dissimulou seus odores acres de sangue, sexo e violência, transformando-os em jóias da arte. Assim, eles não são mais capazes de nos assustar. Nesse traje fantasioso, poético, filosófico e melancólico, eles vivem nos livros escolares e perfumam a nossa vida intelectual adulta. Mas a sua substância original, crua e sem ilusões, faz deles nossos irmãos zombeteiros e repugnantes, bem ajustados ao nosso século XXI. 

Marianne Lamms

10 de julho de 2009 Traduções

Diversas testemunhas disseram tê-la visto em companhia de Artaud. Ela fora membro do “Grand Jeu” (Grande Jogo), onde Roger Vailland a teria introduzido. Depois disso, ela faria do jornalismo tudo para prosseguir obstinadamente em suas pesquisas em astrologia, geomancia e numerologia. Paixão dos números a qual Daumal e Gilbert-Lecomte a tinham encorajado. Ele não estava surpreso que isso a conduziria a cruzar um dia a rota de Artaud. Ela não o tinha encontrado muitas vezes, mas algumas trocas seriam suficientes para que ela ficasse impressionada com a vida. Ainda hoje, ela o confunde numa lembrança um pouco fascinada com seus amigos do Grande Jogo.

Pergunta: O que você fez para conhecer Artaud em sua época?

Resposta: Isso se passou em 1933, no momento, eu creio, quando ele preparava Heliogábalo. Roger Gilbert-Lecomte é que me tinha sugerido a encontrá-lo. Ele me dizia mais ou menos: “É pena que não o conheça, com as pesquisas que você faz!” Eu compreendi mais tarde que ele tinha, ao mesmo tempo, falado de mim a Artaud. Ele o amava muito. Daumal também, mas um pouco menos. Sim, o pintor era mais reservado: quando soube que eu tinha visto Artaud, me disse para ficar atenta.

Uma amiga anônima de Artaud

10 de abril de 2009 Traduções

Conversa de Alain e Odette Virmaux, realizada em 1978, com uma mulher que foi muito amiga de Antonin Artaud e que não quis que seu nome fosse revelado. Este texto foi traduzido em 1996 por ocasião do centenário de nascimento de Artaud.

Pergunta: Você foi amiga de Antonin Artaud, e uma amiga fiel, pois você pertence ao pequeno número daqueles que não o abandonaram na época dos internamentos. Você foi vê-lo no manicômio de Ville-Évrard e lhe escreveu quando estava internado em Rodez. Quinze anos antes, você esteve brevemente colaborando com ele para o Teatro Alfred-Jarry. Adivinha-se a riqueza dessa longa amizade e pressente-se que você seja talvez uma das pessoas mais indicadas para falar dele sem deformá-lo. Ora, você tem se abstido de se juntar ao coro inumerável de todos esses que o tem evocado frequentemente, mesmo o tendo conhecido muito menos que você. Por que esse silêncio?

Uma visita a Sarcey

10 de março de 2009 Traduções

Uma visita a Sarcey é uma tradução de Helena Mello do livro Um século de crítica dramática, organizado por Chantal Meyer-Plantureux. Francisque Sarcey (1827-1899) é considerado a figura mais célebre da crítica francesa que nasce no fim do século XIX. Durante 32 anos, o “tio”, como era chamado, teve suas críticas publicadas todas as segundas-feiras até maio de 1899, ano de sua morte.

Aconselhado por alguns amigos, fui fazer uma visita a Francisque Sarcey. Eu devia agradecer o comentário que ele havia consagrado ao Mauvais Berger e também lhe levar os votos de ano novo. No momento em que eu entrei, o velho crítico saía da mesa. Ele estava sentado, ou melhor, esprimido em uma poltrona, rosto muito vermelho e congestionado, o olhar sonolento, a boca caída. Porém, ao me ver, apesar de sua prostração, ele exclamou no  tom de falsa e trivial bonomia que lhe é particular:

– Ah! Ah! …. É você? …Então, eu fiz um artigo para você, meu rapaz!

Crítica do espetáculo Fragments

15 de julho de 2008 Traduções

Este artigo foi publicado originalmente em inglês, na revista eletrônica The British Theatre Guide

O Théâtre des Bouffes du Nord de Peter Brook está localizado numa vizinhança parisiense geralmente chamada de ‘o gueto’ ou ‘local para não-ir’. Os trens do metrô chocalham ao longo dos trilhos suspensos, passando acima de clamorosos engarrafamentos e ruas transbordando de aglomerações multiculturais. Os gentis aromas dos restaurantes indianos e das mercearias africanas podem ser sentidos na brisa. Dentro do edifício, o auditório não-reformado da companhia, com paredes marcadas e uma cúpula esplêndida e despida de ornamentos, se parece mais com uma catedral devastada pela guerra do que com o teatro burguês coberto de ouro e veludo que foi no século XIX. Há algo de majestoso nos restos desfarelados do procênio feito de pedra e nas paredes descobertas. O espaço tem o ar de uma Hécuba envelhecida após o saqueio de Tróia, a cabeça ainda erguida, e o que se perdeu em ouro e veludo foi ganho em calma, em dignidade sem adornos.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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