Críticas

A restituição ao visível pela fabulação do real

25 de abril de 2016 Críticas

Vol. IX, nº 67 abril de 2016 :: Baixar edição completa em PDF

Resumo: Este artigo propõe que se pense o espetáculo Real – Teatro de Revista Política como concretização de um projeto estético-político do grupo mineiro Espanca! de enfrentamento mais direto com a realidade sociopolítica brasileira, a partir da análise das quatro peças curtas que compõem a obra, considerando relações entre o real, a fábula e a alteridade.

Palavras-chave: alteridade, Espanca!, fábula, real

Resumen: Este artículo propone que se piense el espectáculo Real – Teatro de Revista Política como concretización del proyecto estético y político del grupo Espanca!, de Minas Gerais, en confrontación más directa con la realidad social y política brasileña, com basis en el análisis de las cuatro piezas cortas que componen la obra teniendo en cuenta las relaciones entre lo real, la fábula y la alteridad.

Palabras clave: alteridad, Espanca!, fábula, real

 

Na trajetória de um grupo de teatro longevo, as flutuações de seus integrantes tendem a gerar instabilidades criativas. E estas podem enfraquecer o trabalho coletivo, como tantas vezes já vimos ocorrer quando um elemento-chave – por vezes o de maior responsabilidade pelo desenho estético das obras daquele grupo de artistas, ou seu fator coagulante – desliga-se dos demais e toma rumo distinto, independente. Entretanto, como é também da instabilidade que vem o movimento, tais mudanças estruturais podem pavimentar todo um novo caminho artístico autônomo, que se descole das realizações do passado, no sentido de não se tornar tributário dos próprios feitos, mas as tenha como base propulsora para novas jornadas e ambições estético-políticas.

Reveja-se no rosto do outro

25 de abril de 2016 Críticas

Vol. IX, nº 67 abril de 2016 :: Baixar edição completa em PDF 

Resumo: O espectáculo resulta do embate entre o original de Pasolini e a realidade do grupo XIX e da Vila Maria Zélia. A cena é uma arena invertida, com o público no centro, em bancos rotativos, e os atores em todas as entradas e saídas. O rosto que fica sem vida e o acto de observar a morte são figuras recorrentes, fazendo do espectáculo um estudo sobre o olhar. A impossibilidade e a necessidade de representar a violência é uma das contradições expostas, que revela o papel dos espectadores no processo.

Palavras-chave: ponto-de-vista, figura, justiça poética

Resumo: The show comes from the clash between Pasolini’s original work and group XIX and Vila Maria Zélia reality. The scene is an inverted arena, with the audience in the center, on rotative benches, and the actors in all the entrances and exits. The lifeless face and the act of watching death are recurrent figuras, making the show a study on watching. The impossibility and the necessity of representing violence is one of the contradictions exposed in the show, which reveals the spectators role in the process.

Keywords: point-of-view, figura, poetic justice

 

É-me difícil comparar este Teorema 21, do grupo XIX, com o Teorema de Pasolini a partir do qual se formou — nem me interessa por aí além avaliar a fidelidade deste trabalho ao original. Não se trata de uma cópia, nem de uma interpretação, nem de uma versão, mas de um trabalho novo, diferente, que se apresenta como distinto do outro. Aliás, a relação ambivalente da peça do XIX com esse ponto de partida do qual se pretende distanciar o mais possível, mantendo ainda assim uma relação de parecença, está posta logo no início do espectáculo, num prólogo onde se apresenta um excerto do filme de Pasolini, ao qual se sobrepõe uma voz off que vai colando, a essas imagens projetadas, o entorno da sede do grupo, na Vila Maria Zélia, ou pelo menos um entorno similar, imaginário, e o que estiver acontecendo àquela hora, naquele lugar. Esse discurso de abertura inclui a possibilidade de atualização da fala:

Rodeado de ilha por todos os lados

25 de abril de 2016 Críticas

Vol. IX, nº 67 abril de 2016 :: Baixar edição completa em PDF

Resumo: Nesta peça, o ponto de vista é dado por um navio, uma poita e um suicida. A acção decorre numa ilha, ao longo de três gerações, de duas famílias, cujos destinos se cruzam. Enquanto as personagens da 1ª geração tomam conta dos seus destinos, e as da 2ª geração se resignam, as da 3ª mal se distinguem dos destinos da ilha e do navio. Como alegoria, Cais mostra um impasse coletivo.

Palavras-chave: Ponto de vista, Formação supressiva, Destino, Dívida

Abstract: In this play, the point of view is given by a ship, an anchor and suicidal young man. The action takes place on an island, over three generations of two families whose fates intersect. While the characters of the 1st generation take fate on their hands, and the 2nd generation ones are more or less resigned, the 3rd ones barely distinguish themselves from the island and the ship fates. As an allegory, Cais shows a collective impasse.

Keywords; Point-of-view, Suppressive formation, Destiny, Debt

 

O ponto de vista póstumo, do narrador morto, preside à apresentação dos factos do enredo da peça Cais — ou da indiferença das embarcações, de Kiko Marques. Logo no início do espectáculo, três figuras presentes em cena nos dão essa chave de leitura: um navio, que será afundado, de nome Sargento Evilázio, interpretado por um velho ator; uma poita, a que está amarrado o navio, chamada Rosiméri, uma jovem atriz; e um rapaz em aparente transe, o médico Walciano, que se suicidará para se unir ao barco pelo qual tem uma fixação, esse mesmo navio Evilázio.

Mauser de Garagem. Les Commediens Tropicales e o teatro de Heiner Müller

25 de abril de 2016 Críticas

Vol. IX, nº 67 abril de 2016 :: Baixar edição completa em PDF  

Resumo: O artigo discute o espetáculo Mauser de Garagem, apresentado pela Companhia Les Commediens Tropicales no Galpão do Folias, em São Paulo. O texto situa a encenação da peça de Heiner Müller no âmbito da trajetória da companhia e do teatro de grupo de São Paulo, retomando a importância do teatro épico para os grupos de São Paulo, assim como a crítica apresentada por Müller aos pressupostos do teatro brechtiano. Com base nesses elementos, o artigo discute a encenação proposta pelos Commediens Tropicales.

Palavras-chave: Heiner Müller; teatro épico; teatro de grupo de São Paulo.

Abstract: The article discusses Mauser de Garagem, presented by Les Commediens Tropicales at Galpão do Folias in São Paulo. The text situates the staging of Heiner Müller’s play in the realm of the recent history of this and othes theater groups based in São Paulo. It also resumes the importance of the epic theater for groups of São Paulo, as well as Müller’s critical approach to Brechtian theater. The article finally discusses the staging proposed by Les Commediens Tropicales.

Key-words: Heiner Müller; Epic theater; theater groups in São Paulo

 

Uma ousada versão da peça Mauser de Heiner Müller, com direito a quarteto musical, um palco forrado de cacos de vidro e a projeção contínua de cenas de destruição, concluiu em janeiro de 2016, no Galpão do Folias em São Paulo, a retrospectiva de dez anos de atividades da companhia Les Commediens Tropicales. Passar o repertório em vista poderia ser uma mera autocelebração. Não é, porém, o caso desse grupo de teatro e de diversos outros que tiveram condições financeiras e artísticas de propor uma semelhante empreitada. Reencenar peças anteriores, sobretudo num contexto favorável à articulação interna de trabalhos surgidos em ocasiões diversas, é um meio de refletir a respeito da experiência acumulada. A estratégia vai, contudo, muito além da reorganização de elementos do passado e incide diretamente no trabalho presente e futuro dos grupos. Bem distante do clichê de que cada encenação é única e, portanto, sempre traz algo novo, uma retrospectiva como essa oferecida pelos Commediens Tropicales permite testar os espetáculos em novos espaços, repensar escolhas, e, não menos importante, colocar-se à prova diante de um público muitas vezes distinto daquele das encenações anteriores.

Um jogo de poder entre a voz e o silêncio

25 de abril de 2016 Críticas

Vol. IX, nº 67 abril de 2016 :: Baixar edição completa em PDF

Resumo: Crítica da peça Caesar como construir um império, montagem que estreou em fevereiro no Espaço SESC, adaptação do clássico Julius Caesar de William Shakespeare com direção de Roberto Alvim. Trata-se de uma reflexão a partir das proposições geradas pela peça.

Palavras-chave: Julius Caesar, Roberto Alvim, William Shakespeare, Club Noir

Abstract: Review of Caesar como construir um império, the play which debuted in February at Espaço SESC, adaptation of the classic Julius Caesar by William Shakespeare, directed by Roberto Alvim. This is a reflection from the proposals generated by the play.

Keywords: Julius Caesar, Roberto Alvim, William Shakespeare, Club Noir

 

O momento atual da sociedade brasileira por si só justifica a encenação de um conflito de poder. Mais especificamente no que diz respeito ao pleito atual que divide o país de uma forma bastante simplificada, para não dizer fictícia, entre os defensores do governo e seus detratores, a encenação de Caesarcomo construir um império é bastante bem-vinda. Claro que estou apontando aqui nesta visão típica do maniqueísmo apenas uma vertente que se diz hegemônica no debate nacional fortemente incendiado e dirigido pelas mídias dominantes. Existem diversos outros fóruns em que a discussão política mostra seus contornos mais complexos. No entanto, a ideia de polaridade ilusória, expressa inclusive por discursos contraditórios que revelam distorções de base com desdobramentos em nossas vidas políticas, é um tema compartilhado entre a realidade de nosso tempo e a da peça Caesar.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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