Autor Michelle Nicié

A arte de escutar

20 de março de 2009 Conversas
Foto da peça A arte de escutar. Foto: divulgação.

“(…) Escutar é mais que ouvir. É mais do que estar parada em frente a alguém dividindo o mesmo metro quadrado. Escuta-se por todas as células do corpo. Escuta-se com as mãos, com os olhos, com a respiração, escuta-se inclusive com os ouvidos… Uma postura escuta, um gesto escuta, a boca escuta. Há que se deixar apagar e se concentrar no outro para vivenciar a plenitude da experiência auditiva, há também que se eliminar quaisquer ruídos de interferência como pensamentos que voam, telefones que tocam, vaidades que afloram, vontades de ir ao banheiro… Muitos dizem que a fala distingue o ser humano dos outros animais. Discordo. Saber escutar é o que nos dá humanidade (…).” (Carla Faour, A Arte de escutar).

Conversa com Lourenço Mutarelli

15 de dezembro de 2008 Conversas

Conversa com Lourenço Mutarelli, concedida em 07 de Julho de 2006, na residência particular do autor e desenhista, em Vila Mariana, São Paulo. Versão editada.

Nos desenhos e álbuns de Lourenço Mutarelli destacam-se especialmente o traço marcante e as histórias que evidenciam um caráter visivelmente autobiográfico. Reconhecido inicialmente no universo dos quadrinhos por meio de uma obra extremamente singular e autoral, Mutarelli menciona entre os autores que o influenciam, Kafka, Ionesco e Beckett. Em nossa conversa, o autor discute alguns pontos em comum e as principais diferenças entre o desenho, o romance e o teatro. Mutarelli fala do seu encontro com a Cia da Mentira[i] e do processo de criação da peça O que você foi quando era criança?[ii]. O autor comenta ainda o seu último álbum A Caixa de Areia, e fala sobre o desejo de transportar o espectador de teatro com o mínimo. 

A verdade é vertiginosa

15 de novembro de 2008 Estudos

Partindo da epígrafe de Haroldo de Campos, “A verdade é vertiginosa”, a proposta aqui apresentada discute questões fundamentais para a arte moderna e para as experimentações teatrais contemporâneas, tais como, o questionamento do caráter de representação da arte, a interação entre a obra, os vazios e o receptor e a problematização dos conceitos de personagem, persona e figura. A multiplicidade de seus discursos imprime na modernidade uma fisionomia vertiginosa, caótica, intempestiva, voltada contra si mesmo, como queria Nietzsche. A potência do simulacro, força motriz da filosofia deleuziana, pode ser uma interessante interlocução para a cena contemporânea e sua condição de jogo que tende a embaralhar as cartas marcadas. Em Platão e o Simulacro, Gilles Deleuze vai discutir o projeto filosófico denominado por Nietzsche de reversão do platonismo. O aforismo reverter o platonismo, pode ser compreendido no sentido de se trazer à tona os simulacros e potencializar seus direitos no mundo das cópias.

A máquina abstrata da rostidade

10 de maio de 2008 Estudos

“Mas tudo que encontrei foi a cabeça.”
Samuel Beckett, Malone morre 

Em Malone morre (1951), Beckett, uma vez mais, parece escolher a cabeça como território eleito para sua peregrinação. Pode-se observar, em sua obra, uma escrita que se desloca pelos choques sucessivos a que submete determinadas camadas da representação. Seus personagens são aleijados, paralíticos, cegos, mudos, decrépitos, moribundos, poderíamos dizer, grosso modo, pura cabeça que tenta articular algo por si só indizível, ilegível.

Malone parece ser um nonagenário, velho moribundo num quarto de hospital ou mesmo de um asilo, humano em ruínas, ou então, ruína de gente reduzida apenas ao próprio pensar. Malone pode ser visto ainda como um quase (ou resto?) homem – pura cabeça.

Talvez seja interessante apontar aqui para algumas reflexões desenvolvidas por Gilles Deleuze e Félix Guattari, no platô (1) denominado Ano Zero – Rostidade a respeito das novelas de Beckett.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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