Autor Dinah Cesare

A violência latente de todos nós

22 de outubro de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

A ditadura militar é um passado recente ainda cheio de lacunas que Nem mesmo todo o oceano procura formalizar sob uma perspectiva não muito habitual. O espetáculo da Cia OmondÉ, dirigido por Inez Viana, transpõe para o teatro o livro homônimo do mineiro Alcione Araújo que narra o percurso de ascensão e queda da vida de um jovem do interior do país que segue a carreira de médico no Rio de Janeiro em meio a gestação, apogeu e declínio da ditadura no Brasil.

O tratamento mostrado na encenação por aspectos de teor tipificado das partes do conflito, ou seja, da perspectiva dos militares por um lado, e por outro da articulação estudantil, emprega, na maioria dos casos, uma percepção que tende ao popular ou alegórico se quisermos. Tal percepção, em seu extremo, parece se aproximar da mitificação. Porem, no mito narrado pela Cia OmondÉ o herói é a marca da tragédia do homem contemporâneo deixado à nu sob um céu sem deuses. Conhecemos bem a história de Ulisses na Odisseia de Homero em que, durante seu regresso a Ítaca, sempre que foi necessário, teve o auxílio de Hermes e Atenas. O sentido quase que premente de uma totalidade no mundo grego era consolidado pela intensa relação entre homens e deuses, sem a qual, os primeiros provavelmente não poderiam enfrentar o mundo da realidade objetiva. Na fábula atual o homem está sozinho.

A ausência em jogos para brincar

27 de julho de 2013 Críticas
Foto: Anna Clara Carvalho.

Vermelho amargo encena uma adaptação do livro homônimo do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, escritor de literatura infanto-juvenil falecido em 2012, que ofereceu neste seu último escrito uma forma que não se deixa classificar facilmente em uma linha de continuidade, mas sim como uma literatura com a força daquilo que brota inesperadamente. Uma novela repleta de figuras de linguagem e de lirismo que expõe a rememoração do sofrimento causado pela perda prematura da mãe sob a perspectiva do adulto em que predomina um olhar melancólico como paradigma para uma expressão própria do mundo. O eixo narrativo está balizado pelo modo de ser da mãe, como ela se comportava e pelo que ela dizia – o que é desenvolvido em detalhes. O encontro com o poético é fundado pela relação de antítese entre o modo como a mãe e a madrasta (duas mulheres) cortavam tomates.

Ascensão da multidão ao calvário

21 de julho de 2013 Críticas
Foto: Carlos Biar.

Laboratório Karamázov, que esteve em cartaz por três dias de junho no Instituto CAL de Arte e Cultura, é uma realização que mostra o investimento na formação de atores profissionais proporcionado pela universidade. O espetáculo, dirigido por Celina Sodré, parte de um roteiro livremente adaptado do romance Os irmãos Karamázov de Fiódor Dostoiévski e de fragmentos de Meu marido Dostoiévski de Anna Dostoievskaia. A noção de laboratório que o título materializa é um procedimento que, para a diretora, está intimamente conectado com as experiências desenvolvidas pelo mestre de teatro Jerzy Grotowski, que visavam o desnudamento, ou um processo de revelação dos atores – o nome de sua companhia era Teatro Laboratório. Ao mesmo tempo, a confecção de um roteiro como material originário parece se aproximar do que Grotowski realizou com as dramaturgias/montagens em Akropolis e, posteriormente em Príncipe Constanti, para citar dois exemplos expressivos de seu trabalho.

Intimidade e imersão

8 de junho de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

O grupo O baú da baronesa apresentou no espaço da Companhia dos Atores, no bairro da Lapa, o espetáculo Jumbo – eu visto a tua ausência, uma mostragem de repercussões afetivas em mulheres de detentos. Neste universo, o termo jumbo significa uma espécie de pacote que as mulheres preparam para seus pares e que aglutina coisas heterogêneas, como comidas e objetos de uso e de higiene pessoal. O texto do programa se refere a um “pacote de cuidados” que a dramaturgia e a encenação tratam de materializar por meio de escolhas que expõem intimidades das personagens, momentos particulares com seus entes queridos. Esta mesma intenção se projeta no modo confessionário em que as personagens se apresentam ao público, que fica alocado no lugar daquele que está na prisão, e que é o visitado.

Onirismo e vicissitudes em comédia

23 de maio de 2013 Críticas

Foto: Jorge Hely.

5 Garrafas de cana e 1 caju maduro, escrito e dirigido por Leon Góes, estreou no teatro do Parque das Ruínas, onde está em cartaz até este final de semana. O espetáculo é uma comédia musical popular que surpreende por uma dramaturgia que tem a forma dos sonhos e, ao mesmo tempo, expõe um lugar limite adequado ao tempo da realidade – o das conversas de bar regadas a cachaça. O efeito resultante é que o tema não é tratado como uma cópia pronta, mas sim de um jeito como pode ser percebido. A visada é crítica, mas trabalhada com graça pelos modos, figuras alegóricas e vocabulário da vida boêmia do Rio Grande do Norte. Os personagens são construídos por tipificações, o que possibilita que vejamos uma espécie de espelho da sociedade, onde seria a manifestação de uma pequena cidade do interior.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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