Autor Dinah Cesare

Ativo/reativo – um par da escrita paradoxal de Barthes

9 de abril de 2008 Estudos

O livro Escritos sobre teatro reúne ensaios de Roland Barthes, tanto como crítico quanto como freqüentador de teatro, ao longo da década de 1950. Barthes é quem escolhe o ensaio de abertura da coletânea: um texto de 1965, que faz uma espécie de síntese de sua crítica em relação ao teatro, uma crítica que perfaz o trânsito entre o objeto e o gosto.

“Sempre gostei muito de teatro e, no entanto, quase já não o freqüento. Essa é uma reviravolta que me intriga. O que aconteceu? Fui eu que mudei? Ou o teatro? Será que deixei de amá-lo, ou o amo demais? Quando era adolescente, desde os quatorze anos, freqüentei os teatros do Cartel. Ia regularmente aos Marthurins e ao Atelier assistir aos espetáculos de Pitöef e adorava Dullin como autor, por que ele não encarnava seus papéis: era o papel que se integrava ao fôlego de Dullin, sempre o mesmo, qualquer que fosse o papel que representava.”

Somos todos irmãos?

6 de abril de 2008 Críticas

Ator: Rodolfo Vaz. Foto: divulgação.

 

Salmo 91, dirigido por Gabriel Villela, que está em cartaz no Teatro Poeira, encena a dramaturgia de Dib Carneiro Neto baseada no livro Estação Carandiru de Drauzio Varella. A encenação é composta por uma estrutura de monólogos, onde os atores representam personagens inspirados em participantes do trágico acontecimento. São ao todo dez depoimentos que se sucedem sem a intermediação de uma narrativa dramática que os ligue. A idéia contida nesta estrutura é a de que estamos diante de uma fatia da realidade, que no caso, significa ouvir dos próprios presos sua versão dos fatos. Esse modo de composição geralmente causa uma sensação de crença no que estamos assistindo, ou seja, que a cena representa um acontecimento real.

Um jogo de referências

15 de março de 2008 Processos

A companhia de teatro carioca Os dezequilibrados está em processo de trabalho. E eu me perguntei qual seria a melhor forma de escrever sobre algo que está em preparação, que ainda não se deu a ver. O registro que temos deste tipo de abordagem é, de certa forma, elogioso e instiga a formação de um público para o espetáculo. Mas este modo não parece apropriado tendo em vista uma analogia com o que o crítico de arte Clement Greenberg diz dos riscos do que é tradicional em arte: “um registro permanece vivo desde que as expectativas continuem a ser expandidas”. Isto interfere aqui no sentido de que o contato com o processo de um espetáculo cria certas expectativas. Poder vê-las formalizadas mais adiante completa o que Greenberg consideraria satisfação. Digo isto porque meu foco neste texto está relacionado com a expansão das expectativas em relação ao teatro, e às potencialidades da linguagem teatral de desenvolvimento do gosto do espectador.

Morte e vida das hipóteses. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.*

15 de março de 2008 Críticas
Atrizes: Raquel Anastácia e Lúcia Romano. Foto: divulgação.

Uma das características da arte contemporânea é a proposição de um certo embaçamento das fronteiras presentes no estatuto tradicional da experiência de arte, a separação entre a obra e seu comentário. Em outras palavras, este embaçamento significa que o que nos é dado a ver, por um lado faz a afirmação do que vemos, e por outro lado, comenta o que estamos vendo. A sensação do fruidor no meu entendimento é a de uma atividade que transita entre a ilusão, a crença na representação e o seu questionamento. Na linguagem teatral este fenômeno se traduz no teatro narrativo, uma estrutura ficcionalizante que atua no espectador criando espaços internos de atenção para novos sentidos entre o real e o ficcional. Creio que o espetáculo VemVai – o caminho dos mortos é elaborado sob este regime duplo que compõe a dramaturgia, o espaço, a cena e a construção atorial. A questão que se coloca para esta análise tentará se deparar com esta relação.

Notes

Newsletter

Edições Anteriores

Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

Edições Anteriores