Totem-fetiche – os limites do corpo

Conversa sobre a obra Totem-Fetiche, de Evângelo Gasos

27 de agosto de 2013 Conversas
Foto: Divulgação.

Sobre a obra Totem-Fetiche, apresentada na Exposição FRONTEIRAS – Corpo, Visualidade e Política, com curadoria de Felipe Scovino e Giselle Ruiz, em cartaz na galeria do Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto entre os dias 27/06 e 28/07, no Rio de Janeiro.

JOÃO – Evângelo, fale um pouco do título da sua obra.

EVÂNGELO – Acho interessante você começar me perguntando sobre o título, pois poucas pessoas me abordaram a partir dessa provocação. O título é um convite a discussões maiores, talvez maior do que o próprio trabalho. Procuro questionar a relação possível de se pensar o paradigma do corpo na nossa sociedade, ainda como tabu, sabendo que existe uma relação entre totemismo e tabu. Também convido a pensar a nudez. Numa exposição de arte contemporânea isso é até mais fácil de ser aceito. São corpos virtuais, em imagens de alta definição, de pessoas nuas, em escala natural, em combinações que misturam masculino e feminino, preto e branco. Encontrar esse “corpo” é comum?

JOÃO – Como foi ensaiar as partituras corporais com os performers? Houve ensaio? Quem compôs a partitura?

EVÂNGELO – As partituras foram improvisações na hora da gravação. Eu já possuía em mente uma ideia do resultado final da disjunção dos corpos através do dispositivo montado dos monitores e das partes do corpo (cada parte foi gravada separadamente). Então eu projetei mentalmente uma movimentação que resultasse numa visualidade que discutisse frontalidade, lateralidade, planos altos e baixos, gestos grandes e gestos menores etc. Eu ficava atrás da câmera, realizando esses gestos e os atores, com a visão periférica, acompanhavam minhas sugestões. Eles também tiveram a liberdade de acrescentar o que quisessem e responder às minhas provocações da forma que quisessem.

JOÃO – Você nota aproximações em seu trabalho de diretor de teatro e de videoartista? Como esses acostamentos se dão?

EVÂNGELO – Gosto da ideia de não ver separação entre as duas “funções”. O que eu soube aproveitar foi a aceitação para mim mesmo de que o que muda é a forma de apresentar. Seja em vídeo ou numa cena de caráter mais teatral, quero trabalhar com as mesmas questões.

JOÃO – No programa, fala-se de um efeito quase-cômico em Totem-Fetiche. Fale um pouco mais acerca desse ponto. Acho interessante a relação de um efeito muito associado ao campo teatral estar sendo pensado numa escultura visual contemporânea. Isso me fez pensar no campo ampliado da arte…

EVÂNGELO – Esse texto do programa ao qual você se refere foi criado por mim e esta é uma leitura pessoal do trabalho. Eu acho engraçadas certas combinações que os corpos atingem em determinados momentos. Gosto de me surpreender com composições que beiram o “Frankenstein”. Mas acho que para algumas pessoas o trabalho pode não ter essa leitura que passa pelo cômico. O humor é uma ferramenta poderosa para abordar questões praticadas e aplicadas na cultura. Se a arte contemporânea ignorar esse efeito, corre o risco de ficar estigmatizada numa categoria de erudição, quadrada e que se distancia do público.

JOÃO – Como se deu a montagem de Totem-Fetiche, uma vez que ela leva em consideração dois eixos (o horizontal de cada tela e o vertical da disposição escultural da obra)?

EVÂNGELO – Cada tela é um vídeo diferente, gravado separadamente, mesmo quando estou ainda com o mesmo ator. Após recolher todas as tomadas que eu desejei, experimentei diversas combinações até chegar a composições que me agradassem. Mas tem um elemento da montagem nesse trabalho que eu particularmente gosto que é o fato de que somente os primeiros 8 minutos do trabalho são montados e sugeridos por mim previamente. Isso porque, quando eu fechei os vídeos, intencionalmente finalizei cada parte em tempos diferentes. Então, quando um vídeo termina e volta ao loop inicial, ele vai se distanciando na montagem sugerida por mim e propondo, sem controle, novas formas de composição. Acho isso sensacional. Talvez as combinações não tenham fim….

Foto: Divulgação.

JOÃO – Você pensa Totem-Fetiche como uma obra autônoma ou dela pode surgir uma série?

EVÂNGELO – O Totem-Fetiche é o que você viu na exposição. Tenho material suficiente para criar N versões diferentes do mesmo trabalho. Não sei se farei isso futuramente. Eu cheguei a pensar em ampliar a escultura a partir da captura de novos corpos para que se fossem somando aos dos atores que já gravei. Isso seria uma forma de catalogar os corpos e criar uma máquina de novos seres a partir de um número ilimitado. Quem sabe mais adiante…

JOÃO – Noto que a obra processa um paradoxo entre o fragmento e o todo. Você pode falar um pouco sobre isso…

EVÂNGELO – A tensão entre manter a operação nesse impasse me agrada, pois é uma tentativa constante em nossas vidas. É um exercício frustrado, porém necessário. Acho saudável conviver com paradoxos.

JOÃO – Quais as referências de outros artistas que você observa no seu trabalho? Como elas se processam?

EVÂNGELO – Certamente incluo Gary Hill nesse trabalho. Inasmuch as it always already taking place também divide o corpo em partes fragmentadas de diversas telas, mas acho que, diferente do meu trabalho, este de Hill mantém o corpo explodido de sua centralidade. O Totem-Fetiche é o corpo tentando se encaixar, mas sem sucesso. Outra referência também foi o [Nam June] Paik. Nele, o trabalho com a disposição dos monitores é parte fundamental da referência do Totem-Fetiche.

JOÃO – Fale um pouco dos corpos… Por que magros? Há a imagem do homem e da mulher nus, há o negro e o branco. Mas a magreza permanece. Foi opcional? Ou aleatório? Outros corpos poderiam ser vistos em Totem-Fetiche? A pergunta parece boba… Mas não é. Li, certa vez, um fragmento de texto de Michel Foucault assim: “Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento que não tem mais a forma de um controle-repressão, mas de um controle-estimulação: fique nu… Mas seja magro, bonito, bronzeado!” (FOUCAULT, Michel In. Microfísica do poder, 236). Rs,rs,rs. Não há corpos bronzeados, eu sei, mas há corpos belos e magros… Você pode comentar a minha provocação.

EVÂNGELO – Os atores do Totem foram os atores que atuaram na peça de teatro com a qual este trabalho nasceu vinculado (Violência – Fetiche do Homem Bom, texto de Cláudia Lucas Chéu, com direção de Tomás Braune). Trabalhei com os atores que o Tomás convocou. Então essa presença é ocasional de um trabalho maior do que o próprio trabalho da vídeo-escultura. Mas penso que outros corpos poderiam ser vistos sim, sem o menor problema. Acaba que, no caso do trabalho como está, pelo fato dos corpos serem magros, esteticamente gera um diálogo direto com a ideia de belo, nos padrões da nossa cultura. Mas isso é relativo…

JOÃO – Noto uma beleza em seu trabalho. Chamo de beleza um certo sentido de equilíbrio, um apuro plástico. Você tem consciência disso?

EVÂNGELO – Como artista visual, persigo o apuro plástico se o quero a favor do discurso criado. Nem tudo precisa ser equilibrado, limpo, claro, bonito… mas no caso desse trabalho, especificamente, há uma tendência para o belo, mas o que gosto é justamente o fato dessa tendência esbarrar com a impossibilidade de se estabelecer, pois o que surge ali são efetivamente formas desequilibradas.

João Cícero Bezerra é crítico teatral, dramaturgo e teórico de arte, formado em Teoria do Teatro, mestre em Artes Cênicas e doutorando em História Social da Cultura.

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