Imagens do envolvimento

Crítica da peça Por Elise, do Grupo Espanca!

30 de dezembro de 2012 Críticas
Foto: Guto Muniz.

Por correr, por suspender o movimento, por deixar o tempo passar, por parar o tempo, por amor, por se envolver, por deixar cair, por se proteger, por deixar ser clareira, por partir, por reencontrar, por planejar o improvável, por ser animal, por falar, por recortes, por imagens…

Em Por Elise, paradoxalmente, as associações não são óbvias, mesmo a vida não sendo tão imprevisível que não possa acontecer na história comum, ou dos comuns como diz o texto de Grace Passô. Os comuns não se portam em semelhança direta com o mundo conhecido. A dramaturgia se realiza em corpos no espaço, ou nos modos de se manter de alguma maneira no espaço. O que impressiona pode ser suas imagens que transitam entre movimento e ações. O Tai Chi é como um meio expressivo destas duas qualidades dos corpos na cena e, no prólogo, aponta precisamente algo que ainda está por vir. O desejo crítico seria o de dizer da “semelhança não sensível” – um modo de identificação que não é direta, que não acontece por aptidões miméticas, mas que se dá pela apreensão abstrata. A força poética do texto que fala do envolvimento entre as pessoas por um regime de vizinhança, seja esta geográfica ou puramente afetiva, alcança o espectador ainda pelo que não se diz. É isto que provoca, com maior destaque, a relação entre a cena e a plateia. E assim se pode pensar que o grupo apresenta um trabalho de arte minucioso, elaborado em confronto com uma dramaturgia que tem se mostrado como um modo investigativo da potência da linguagem e suas ultrapassagens.

Uma dona de casa apresenta histórias de seus vizinhos e frequentadores pontuais da rua em que mora. Na verdade, são fragmentos de histórias que aos poucos vão ganhando sentido pela montagem das cenas. Figuram intensidades. Uma mulher que não consegue ficar em pé, um gari que procura pelo pai desaparecido há muitos anos, o recolhedor de animais doentes, um vizinho que faleceu dizendo poemas e deixando uma mensagem para o filho. Ainda existe um cachorro que late palavras. Ao passo que a dona de casa se mostra com a força de um totem, o rapaz que recolhe o lixo corre incessantemente. A mulher enxerga neste correr uma possibilidade de conexão e um modo de sobreviver ao acontecimento iminente. Os discursos são memórias involuntárias, aparecem com o frescor característico do fato de estarem vindo à tona no presente e tomam forma nos corpos.

O que estabelece o percurso entre os “eus” e desestabiliza as identidades-fixas dos personagens é a memória, ou os jorros de memória que encontram materialização apurada nas falas-latido do cão, na corrida, nas quedas da mulher (como dos abacates) e na imagem do lixo (ruínas do passado recente dos vizinhos). Seu contraponto, ou suspensão, pode ser percebido na roupa-proteção do recolhedor de animais. Este último tem seu escape no estudo do idioma japonês – ponto de fuga ainda incerto, ainda aberto e que o faz vislumbrar uma paisagem não dominada, diferentemente de sua destreza com os animais. É possível dizer que se trata de uma memória que, por aparecer nos corpos, nos gestos pequenos, em fragmentos (como iluminação de um outro tempo), nos faz ter a percepção sobre acontecimentos que normalmente não podemos enxergar, ou dos quais não temos consciência na medida em que são formas marginalizadas de um escopo de reconhecimento que nos deixa confortáveis, ou que nos é ensinado a perceber. Então, a memória também abre uma espécie de fissura no tempo, uma disjunção que pode muito bem desencadear outros processos pessoais de lembranças. O conjunto dramaturgia-cena se edifica numa mostragem, numa exposição do que pode a língua como figura daquilo que acontece ao falarmos, ao ouvirmos alguém dizer algo. Aqui reside uma faceta oculta do envolvimento temático de Por Elise.

A inserção dramatúrgica da melodia da “música do caminhão de gás”, como ficou conhecida a peça para piano de Beethoven, tanto promove o reconhecimento quanto nos mostra o estranho do mundo cotidiano. O fenômeno estético também acontece pela percepção de algo que nem dominamos sobre o conhecimento da tal música: é que ela foi composta por envolvimento amoroso – provocação de uma lacuna de sensação.

Por Elise é a primeira produção do Espanca! e aponta uma vocação para a experimentação, realização dramatúrgica e dedicação aos procedimentos de atuação.

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